sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O retorno de Gal Costa


Na Panela: Show Recanto - Gal Costa
Onde: Sesc Palladium - Belo Horizonte/MG (09/08/12)


Gal Costa me parecia uma artista derrotada na última década. Gravou discos dispensáveis, com arranjos conservadores e sem foco na seleção de repertório. Isto quando não se tratava de tributos à compositores canônicos. E nenhuma outra cantora foi tão execrada por isso. 

A origem de tanto desapontamento da crítica e também do público não era a sombra feita pelas colegas que conseguiram se renovar e garimpar novos compositores, como é o caso de Maria Bethânia, mas a sombra feita pela grandeza incomparável da fase áurea da discografia da própria Gal (do final dos anos 60 ao início dos anos 80) e a imagem sensual e tropicalista que ela encarnava naquele período. Ora, se era natural que, com a maturidade, essa imagem se dissipasse, restou a expectativa pela permanência daquilo que estaria por detrás da exuberância física e vocal: a inteligência artística e o faro de intérprete.

Assim, cada disco ruim lançado parecia pôr em dúvida aquele faro e construir, tijolo por tijolo, a tumba daquela que tem na bagagem as obras-primas Fa-tal - A todo vapor (1972), Cantar (1974), e os dois discos de 1969, em especial o psicodélico, para ficarmos apenas nestes quatro exemplos. Em suma, Gal tinha, antes de adentrar numa vibe cafona em meados dos anos 80 e antes de sofrer alterações significativas na voz, um dos repertórios mais bonitos e coesos da MPB.

O projeto do disco Recanto, capitaneado por Caetano Veloso, foi claramente uma cartada para reverter esse jogo, para devolver Gal ao lugar de honra que ela havia perdido e às rodinhas de discussões. A receita: repertório solitariamente composto pelo baiano, formatado pela turminha talentosa que toca em oito entre cada dez discos interessantes feitos no país atualmente e, como não podia deixar de ser, muito hype. Quase todos os textos sobre o disco na época do lançamento apenas reproduziram irritantemente a pretensão artística de Caetano, que era explorar o "cristal" da voz de Gal junto com timbres eletrônicos. Faltou realmente uma análise que enfrentasse essa pretensão, que considero, posta naqueles termos, fracassada. Se ela fosse real, o resultado seria um disco a la Björk, o que não foi o caso. Recanto, apesar disso, é um bom disco de canções, com pelo menos quatro grandes momentos ("Recanto Escuro", "Segunda", "Autotune Autoerótico" e "Menino"), cujo maior mérito é enquadrar a voz de Gal, que continua linda nos tons médios, numa moldura jovial

E foi com esse saldo positivo em mente que fui conferir o show Recanto, na noite de 09/08 no lotado Sesc Palladium em Belo Horizonte/MG. Confesso que eu também a considerava uma artista morta e o disco não havia me convencido completamente da tão propagada ressurreição, apesar de não considerá-lo ruim. Mas, para minha surpresa, há luz no fim do túnel. 

Depois de uma abertura um tanto sem vida com "Da maior importância" (Caetano Veloso), Gal intercalou as melhores músicas do novo disco com pérolas desconhecidas como a belíssima "Mãe" (Caetano Veloso), que está lá no Água Viva (1978, disco em que ela estava no auge da beleza da voz), com canções emblemáticas como "Divino, maravilhoso" (Caetano Veloso/Gilberto Gil), "Folhetim" (Chico Buarque) e "Força estranha" (Caetano Veloso). Até mesmo a brega "Um dia de domingo" (Sullivan/Massadas), onde ela brinca ao imitar Tim Maia, foi incluída no repertório da apresentação

O show tem, portanto, caráter retrospectivo. Gal passa toda a sua trajetória sob o filtro da estética indie dos músicos que a acompanham, com resultados impressionantes. Músicas de Recanto crescem absurdamente no palco, como é o caso de "Recanto Escuro", tensa e melancólica, e "Autotune autoerótico", onde, de forma mais condizente com a letra, nenhum recurso eletrônico interfere no canto. E de todos os arranjos novos para canções antigas, como o suingante arranjo de "Barato Total" (Gilberto Gil), o de "Vapor barato" (Jards Macalé/Wally Salomão) simplesmente arrebata. Sem dúvidas, o ponto alto do show, com direito a solo de guitarra do músico Pedro Baby. No bis, "Modinha para Gabriela" (Dorival Caymmi) é apenas a cereja do bolo.

Recanto, o show, mais que o disco, mostra que Gal ainda está viva. Esperemos então, cautelosos, as cenas do próximo capítulo.

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