sábado, 17 de novembro de 2012

A apoteose de Tulipa ou Quem tem medo do download?


Na Panela: Tulipa Ruiz - Show Tudo Tanto
Onde: Sec Palladium - Belo Horizonte/MG (16/11/2012)


Quando as cortinas se abriram ontem à noite por volta das 21:15, Tulipa Ruiz foi recebida calorosamente pelo público que lotou o Grande Teatro do Sesc Palladium (importante espaço que arejou a cena cultural de Belo Horizonte desde que foi inaugurado há pouco mais de um ano). Desde os primeiros acordes de "É", a primeira canção do setlist, o jogo já estava ganho pela artista.

Tudo Tanto, o show, é a síntese do que de melhor havia em Efêmera, o elogiado disco lançado em 2010, ou seja, as canções pop redondas e com letras despojadas, somadas à riqueza da sonoridade e às ousadias vocais de Tudo Tanto, o disco de 2012 que selou o contrato de permanência de Tulipa no país das 1001 cantoras. É digno de nota que o show preserve com fidelidade a sonoridade do disco, principalmente pelo mérito de manter  na banda as cordas e sopros. 

Estão lá todas as boas do primeiro disco. "Pedrinho", "Do amor" (acompanhada em coro delicado pelo público), a arrasadora "Só sei dançar com você" e, para afagar o público belorizontino, "As vezes" ("As vezes eu pego uma estrada/E a cada belo horizonte eu diviso o seu rosto"). E estão lá também todas as canções de Tudo Tanto, algumas delas ligeiramente inferiores às do primeiro disco, mas todas vigorosas no palco, embora Tulipa tenha deslizado algumas vezes nos floreios vocais. Tais pecadinhos, porém, foram perdoados. As dissonâncias de "Like this" foram aplaudidas de pé e "Cada voz" deu a pista falsa do fim do show. Foi quando a cantora retornou para cantar "Víbora", num registro visceral. Sem dúvida, o ápice de uma noite memorável. No bis, "Efêmera" e "A ordem das árvores" funcionaram até como um anti-clímax, devolvendo ao show o clima ensolarado e festivo.

O sucesso de Tulipa Ruiz confirma que quem perdeu a guerra, num primeiro momento, contra os discos piratas e, depois, contra os downloads na internet foram as grandes gravadoras e não os artistas, principalmente aqueles que não podem contar com os departamentos de marketing das multinacionais para conseguir um lugar ao sol. Pelo contrário, os novos meios de divulgação, que incluem as redes sociais e o Youtube, são claramente os responsáveis por acontecimentos como os de ontem. O público estará sempre ávido para prestigiar ao vivo aquilo que gosta, tenha ele comprado ou, como eu fiz, baixado o disco gratuitamente no próprio site da artista.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O retorno de Gal Costa


Na Panela: Show Recanto - Gal Costa
Onde: Sesc Palladium - Belo Horizonte/MG (09/08/12)


Gal Costa me parecia uma artista derrotada na última década. Gravou discos dispensáveis, com arranjos conservadores e sem foco na seleção de repertório. Isto quando não se tratava de tributos à compositores canônicos. E nenhuma outra cantora foi tão execrada por isso. 

A origem de tanto desapontamento da crítica e também do público não era a sombra feita pelas colegas que conseguiram se renovar e garimpar novos compositores, como é o caso de Maria Bethânia, mas a sombra feita pela grandeza incomparável da fase áurea da discografia da própria Gal (do final dos anos 60 ao início dos anos 80) e a imagem sensual e tropicalista que ela encarnava naquele período. Ora, se era natural que, com a maturidade, essa imagem se dissipasse, restou a expectativa pela permanência daquilo que estaria por detrás da exuberância física e vocal: a inteligência artística e o faro de intérprete.

Assim, cada disco ruim lançado parecia pôr em dúvida aquele faro e construir, tijolo por tijolo, a tumba daquela que tem na bagagem as obras-primas Fa-tal - A todo vapor (1972), Cantar (1974), e os dois discos de 1969, em especial o psicodélico, para ficarmos apenas nestes quatro exemplos. Em suma, Gal tinha, antes de adentrar numa vibe cafona em meados dos anos 80 e antes de sofrer alterações significativas na voz, um dos repertórios mais bonitos e coesos da MPB.

O projeto do disco Recanto, capitaneado por Caetano Veloso, foi claramente uma cartada para reverter esse jogo, para devolver Gal ao lugar de honra que ela havia perdido e às rodinhas de discussões. A receita: repertório solitariamente composto pelo baiano, formatado pela turminha talentosa que toca em oito entre cada dez discos interessantes feitos no país atualmente e, como não podia deixar de ser, muito hype. Quase todos os textos sobre o disco na época do lançamento apenas reproduziram irritantemente a pretensão artística de Caetano, que era explorar o "cristal" da voz de Gal junto com timbres eletrônicos. Faltou realmente uma análise que enfrentasse essa pretensão, que considero, posta naqueles termos, fracassada. Se ela fosse real, o resultado seria um disco a la Björk, o que não foi o caso. Recanto, apesar disso, é um bom disco de canções, com pelo menos quatro grandes momentos ("Recanto Escuro", "Segunda", "Autotune Autoerótico" e "Menino"), cujo maior mérito é enquadrar a voz de Gal, que continua linda nos tons médios, numa moldura jovial

E foi com esse saldo positivo em mente que fui conferir o show Recanto, na noite de 09/08 no lotado Sesc Palladium em Belo Horizonte/MG. Confesso que eu também a considerava uma artista morta e o disco não havia me convencido completamente da tão propagada ressurreição, apesar de não considerá-lo ruim. Mas, para minha surpresa, há luz no fim do túnel. 

Depois de uma abertura um tanto sem vida com "Da maior importância" (Caetano Veloso), Gal intercalou as melhores músicas do novo disco com pérolas desconhecidas como a belíssima "Mãe" (Caetano Veloso), que está lá no Água Viva (1978, disco em que ela estava no auge da beleza da voz), com canções emblemáticas como "Divino, maravilhoso" (Caetano Veloso/Gilberto Gil), "Folhetim" (Chico Buarque) e "Força estranha" (Caetano Veloso). Até mesmo a brega "Um dia de domingo" (Sullivan/Massadas), onde ela brinca ao imitar Tim Maia, foi incluída no repertório da apresentação

O show tem, portanto, caráter retrospectivo. Gal passa toda a sua trajetória sob o filtro da estética indie dos músicos que a acompanham, com resultados impressionantes. Músicas de Recanto crescem absurdamente no palco, como é o caso de "Recanto Escuro", tensa e melancólica, e "Autotune autoerótico", onde, de forma mais condizente com a letra, nenhum recurso eletrônico interfere no canto. E de todos os arranjos novos para canções antigas, como o suingante arranjo de "Barato Total" (Gilberto Gil), o de "Vapor barato" (Jards Macalé/Wally Salomão) simplesmente arrebata. Sem dúvidas, o ponto alto do show, com direito a solo de guitarra do músico Pedro Baby. No bis, "Modinha para Gabriela" (Dorival Caymmi) é apenas a cereja do bolo.

Recanto, o show, mais que o disco, mostra que Gal ainda está viva. Esperemos então, cautelosos, as cenas do próximo capítulo.

Depois de um filme chato


Na Panela: Depois do Filme (Texto, Direção e Interpretação: Aderbal Freire Filho)
Onde: Teatro Municipal de Ouro Preto/MG - Festival de Inverno/Forum das Artes 2012.


Aberbal Freire Filho é autor e diretor com currículo vasto. Tem experiência com os clássicos e também carrega na bagagem sucessos como As centenárias, com as divas Marieta Severo e Andrea Beltrão. Aos 70 anos e produzindo sem parar, realizar o que quiser no teatro é um direito conquistado, mesmo que o resultado seja insatisfatório. É o caso de Depois do filme.

O monólogo escrito e dirigido por ele resulta insosso não pela falta de qualidade do texto ou, de modo geral, pela proposta da encenação, mas sim pelo seu desempenho medíocre como ator.

Derrubam o espetáculo o despojamento físico e o "carioquês" insuportável que definem a construção da personagem Ulisses,  um chato suicida que vaga pela zona sul do Rio de Janeiro travando diálogos filosofantes  recortados na forma de um roteiro de cinema, além da canastrice na composição de algumas figuras, como é o caso de uma jovem “de belos peitos”. Há cadeiras espalhadas no palco em disposição puramente estética, pois contribuem pouco para dar significado ao que é narrado e, para além delas, o Ulisses que imaginamos ser possível contemplar numa tela de cinema quando ouvimos Aderbal nos sugerir verbalmente cortes, closes e elipses é muito mais interessante. E essa fuga imaginativa que nos afasta do meio material onde a obra se faz – o palco, a luz, o corpo e a fala de Aberbal – me parece ser muito mais própria da literatura do que do teatro. Trata-se de um jogo mal jogado pelo ator. Escapamos porque o que temos diante dos olhos é monótono e não porque ele necessariamente pretendia que escapássemos.

É isso. Eu adoraria ler Depois do filme. Ou ver esse texto plenamente realizado na forma de filme. E isso é péssimo quando lembramos que estamos falando de uma peça de teatro.