domingo, 6 de novembro de 2011

O Jardim: no palácio das memórias


Na Panela: O Jardim [Direção e Texto: Leonardo Moreira; Com: Cia Hiato - Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli, Thiago Amaral, Edison Simão]
Onde: Caixa Cultural - Centro.

Em O Jardim, cuja montagem exige um teatro de arena, o público se vê logo incomodado pelo distribuição espacial dos atores e do cenário composto por caixas de papelão, enquanto procura deduzir qual lugar oferecerá o melhor ponto de vista para assistir ao espetáculo. Os últimos a entrar não tardam a lamentar os lugares laterais que lhes sobraram e que aparentemente limitarão o contato visual com a cena, que insinua, estranhamente, uma concepção que privilegiaria aqueles que conseguiram lugares frontais. No entanto, essa impressão é dissipada quando o jogo começa e a ação, apoiada por uma revolução na disposição do cenário (que cria barreiras físicas), é dividida em três, cuja unidade só será recuperada no desfecho.

Ou seja: dependendo do lugar onde você se senta, são três os começos possíveis para o espetáculo e três são as dinâmicas de compreensão do significado das outras duas ações que lhes sucedem. Eu, por exemplo, acompanhei ações sucessivas e lineares no tempo, enquanto os outros dois grupos em que o público é dividido as acompanharam  numa sequência não-linear. 

Diante de tanta riqueza semântica e de uma polifonia literal (ouvimos todas as vozes o tempo todo, embora não consigamos compreender o que se passa para além da cena que transcorre diante de nós), não é licito oferecer uma sinopse fiel do conteúdo de O Jardim. Para falar da memória e do esquecimento, o dramaturgo e diretor Leonardo Moreira criou um mosaico onde três momentos se comunicam: a crise de um homem e uma mulher no fim do casamento (em 1938), a última festa que duas irmãs preparam para o pai que sofre do mal de Alzheimer antes de mandá-lo para um asilo (em 1979), e uma mulher decadente e sua empregada, que gravam um vídeo antes de abandonar a casa onde sua família viveu por décadas, agora invadida por pessoas que reclamam a posse daquela propriedade (2011). Estas três ações lentamente começam a lançar luz uma sobre as outras e, por fim, todas as barreiras espaciais e temporais são rompidas num grande ápice emocional. 

O Jardim faz do tempo o seu tema e precisa, pela forma narrativa ousada, que a memória do espectador esteja constantemente ativa a afim de contribuir para a riqueza da experiência que o espetáculo põe em curso. O resultado é um teatro humanista e comovente, cuja linguagem sofisticada nunca é hermética. Pelo contrário, nos convida a construir, pelo exercício de pensamento, a solução de seu quebra-cabeças. O que resulta deste processo não é a pretensa autonomia da história daquelas personagens em relação à nós, espectadores passivos, mas as nossas versões narrativas particulares que conectam todos aqueles momentos num jogo muitíssimo frutífero. 

Esta é, sem dúvida, uma das melhores peças que passaram pelo Rio de Janeiro neste segundo semestre de 2011. Sensacional!

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