terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mariana Aydar: Cantora inteligente, aqui te sigo


Na Panela: Show Mariana Aydar - Cavaleiro Selvagem, Aqui Te Sigo
Onde: Teatro SESC Ginástico - Centro.

Cavaleiro selvagem, aqui te sigo, lançado em outubro, é o disco brasileiro pelo qual passei o ano inteiro esperando. Não, não sou um fã xiita da Mariana Aydar, apesar de acompanhá-la com atenção (e com gosto...) desde que ela apareceu no início da última década junto com uma verdadeira enxurrada de novas cantoras. Ou seja, minha espera não tem nada de pessoal. Apenas fico sempre à espreita daquela obra que, logo na primeira audição, dará o seu recado musical fora da mesmice que assola a tal emepebê. Não, também não sou admirador inveterado de experimentalismos modernosos feitos dentro do velho e bom formato da canção brasileira e que, apesar da pose, não levam a lugar nenhum. Eu gosto mesmo é de quem consegue, por meio do filtro da ousadia sonora, oferecer ainda assim o núcleo duro da canção popular. Não apenas a palavra cantada, mas a palavra deliciosamente cantada. Afinal, "aquela música se não se canta não é popular", como já dizia Haroldo de Campos.

O terceiro e novo disco da Mariana Aydar é um verdadeiro combo musical e atinge, na maioria de suas faixas, o prazer da canção. Mas o mercado ainda não a sancionou, como fez com Roberta Sá, outra cantora surgida na mesma época, e talvez seja isso que permitiu a Mariana se dedicar ao projeto de um disco que, embora artisticamente bem sucedido, não é simples ou fácil.  Por outro lado, se não compartilha da popularidade de Roberta, Mariana tem em comum com ela a exigência básica que se faz a toda intérprete, de toda cantora que não pretende gravar unicamente obra autoral: a inteligência na escolha do repertório, a capacidade de tornar irrevogavelmente seu aquilo que decide gravar. 

Essa é uma tradição sólida da música brasileira (Elis, Gal, Bethânia, Nana, Clara, Beth, Alcione, Simone, Zizi,   Cássia, sem contar as grandes divas da era pré-bossa), diluída a partir do final dos anos 80 com o aparecimento de cantoras-compositoras que, por questões mercadológicas, gravam majoritariamente em seus discos qualquer esboço de canção desde que seja seu e que não são herdeiras da excelência de artistas como Rita Lee e Marina Lima, para ficarmos apenas no terreno do pop. E na atual cena, onde a cada minuto aparece uma nova cantora, acredito que só a inteligência que está por detrás da seleção do repertório, do conceito do disco que reverbera na construção dos arranjos, é o que pode separar o joio do trigo. Cavaleiro selvagem, aqui te sigo mostra de que lado da trincheira Mariana está e retira dela o rótulo insípido e insuportável de "cantora de sambas" que se espalhou feito viral nos últimos anos no Brasil  e que serviu a tanta gente e para os mais diversos objetivos.


Não foi em vão (Thalma de Freitas) é emblemática. A melhor gravação brasileira do ano, talvez. Arranjo excepcional, como não se encontra facilmente por aí, em total simbiose com o canto, para se ouvir bem alto e cantando junto. Na mesma linhagem está Os passionais (Dante Ozzetti/Luiz Tatit), outra canção obscura que vem a luz neste disco. Na outra ponta, temos canções conhecidíssimas na voz de seus intérpretes originais, embora não tenham sido incessantemente regravadas por outros artistas, e que ganham releituras improváveis. É o caso de Vai vadiar (Alcino Correa/Monarco) do Zeca Pagodinho, que ressurge mais soturna e passional, Nine out of ten (Caetano Veloso), uma das melhores do antológico álbum Transa (1972), e, por fim, a mais surpreendente e acachapante de todas as abordagens, Galope rasante (Zé Ramalho). Essa última ganha uma levada pop contagiante e é um dos ápices do disco. A compositora Mariana Aydar também comparece com muita competência em Solitude, parceria com Luisa Maitá (outra boa compositora da cena paulistana) e Jwala. 

Todas estas canções, com exceção de Nine out of ten, foram apresentadas no primeiro show do disco em solo carioca, que foi gravado para o programa Palco MPB, da MPB FM. O show também incluiu músicas como a deliciosa Tá? (Carlos Rennó/Pedro Luis/Roberta Sá), Aqui em casa (Mariana e Duani) e interpretações densas de Zé do Caroço (Leci Brandão), e Peixes (Nenung), o precioso achado do disco anterior, Peixes, Pássaros, Pessoas (2009). No bis, que começou em clima meio improvisado somente ao som de um cavaquinho e depois cresceu com o auxílio da percussão, a canção Florindo (Duani), um dos sambas mais bonitos do Peixes, foi conectada com Minha missão (João Nogueira), que é, por si só, uma verdadeira paulada poética ("Quando eu canto, a morte me percorre").

As ressalvas à apresentação não são estritamente musicais.O único equívoco do roteiro foi a inclusão de Palavras não falam, música da lavra da Mariana que tem letra fraquíssima, apesar do relativo sucesso. Em seu lugar, seria mais eficiente Deixa o verão (Rodrigo Amarante), do primeiro disco. No geral, fica a impressão que a performance da cantora pode ser lapidada por um bom preparador vocal (para uma maior qualidade nos seus graves) e um diretor de palco seria providencial para orientá-la, pois ela se move ao acaso e não raro termina as canções de costas para o público. Além disso, um gestual mais bem construído pode enfatizar as  intenções de suas interpretações.

Mas alguém que tem nas mãos um material musical tão sólido não merece ser condenado por padecer de uma falha que, de Marisa Monte a Vanessa da Mata, de Ana Carolina a Roberta Sá, quase toda cantora brasileira possui. A maioria, com exceção de Maria Rita, Sílvia Machete e Karina Buhr (para ficarmos somente nas relativamente "novatas"), não sabe usar o corpo no palco.

Palmas para Mariana Aydar, que já tem um tesouro do qual poucas intérpretes brasileiras de sua geração podem se gabar: repertório. Quem tem voz e não tem repertório não tem nada. Cantora inteligente, aqui te sigo. E sempre em frente.

***

E as vaias? Vaias para Maria Rita, que lançou um disco preguiçoso chamado Elo

Na capa, a pose sensual contra a luz já entrega o conteúdo. A intérprete que tem a maior voz surgida nos anos 2000 mostra, pelo que se deduz a partir do seu segundo disco, nenhum conhecimento dos baús da música brasileira (tanto a feita hoje quanto a que se fez), tampouco é assessorada por quem o tem (como é o caso de Roberta Sá, orientada pelo marido Pedro Luis). Nas entrevistas, ela disse que a gravadora a pressionou pelo sucessor de Samba meu (2007) e, como já estava na estrada com um show de transição, resolveu gravá-lo. Elo não é, verdadeiramente, um elo em sentido forte. Em termos de repertório, ele recupera o começo da carreira de Maria Rita, mas não faz síntese alguma entre o passado e o presente, pois, em termos de som, reitera a opção por arranjos de piano-baixo-bateria que perseguem invariavelmente um clima jazzy que tanto se identifica aos primeiros discos da cantora quanto a engessa.


Elo é composto por canções que foram preteridas no disco de estreia (2003) ou em Segundo (2005), e acena para alguns sambinhas que sequer roçam o balanço das melhores faixas do disco anterior. Por fim, não aponta para futuro algum. Foram 4 anos de intervalo entre um disco e outro e, apesar disso, Maria Rita parece não ter tido tempo para pesquisas. 

A única coisa que amarra todas as canções agrupadas em Elo é a voz de Maria Rita e o desejo dela de cantá-las. No entanto, Santana (Junio Barreto/Joao Carlos Araujo) não acrescenta nada à gravação da Gal Costa no disco Hoje (2005), assim como Conceição dos Coqueiros (Lula Queiroga/Lulu Oliveira/Alexandre Bicudo) não acrescenta nada à gravação de Elba Ramalho em Qual o assunto que mais lhe interessa (2007). Só um arranjo absurdamente genial poderia tirar A história de Lily Braun (Chico/Edu Lobo) do mar de regravações dessa canção e que também não acrescentaram nenhuma informação nova à gravação da Gal em O grande circo místico (1983). Vide a versão medíocre de Maria Gadu feita recentemente. Já a gravação de Menino do Rio segue de perto o tom lânguido e sensual da versão de Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental (1979). As únicas gravações realmente relevantes do disco e aptas a ser identificadas à Maria Rita e que se incluem no grupo de canções que ela pode, mesmo não sendo compositora, chamar de suas, são a bela Perfeitamente (Francisco Bosco/Fred Martins) e Só de você (Rita Lee).

Aquilo que Cavaleiro selvagem, aqui te sigo tem de sobra, é o que falta a Elo e o faz um álbum sem cara: uma proposta musical consistente. É um disco ruim? Não. Mas também não é relevante. Na era da internet, do youtube, dos downloads, como pode um artista justificar a existência de um disco que não tem o peso de uma obra de carreira? Que não tem conceito? Realmente, somente interesses comerciais da gravadora respondem à pergunta. 

Maria Rita se justificou afirmando que este é um álbum para fã. Não considero o gesto uma demonstração de carinho com o público, pois fã sempre aceita qualquer coisa, inclusive porcarias. E diante de tantas cantoras disputando espaço, pouco custa abandonar quem demora para dizer a que veio.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Jardim: no palácio das memórias


Na Panela: O Jardim [Direção e Texto: Leonardo Moreira; Com: Cia Hiato - Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli, Thiago Amaral, Edison Simão]
Onde: Caixa Cultural - Centro.

Em O Jardim, cuja montagem exige um teatro de arena, o público se vê logo incomodado pelo distribuição espacial dos atores e do cenário composto por caixas de papelão, enquanto procura deduzir qual lugar oferecerá o melhor ponto de vista para assistir ao espetáculo. Os últimos a entrar não tardam a lamentar os lugares laterais que lhes sobraram e que aparentemente limitarão o contato visual com a cena, que insinua, estranhamente, uma concepção que privilegiaria aqueles que conseguiram lugares frontais. No entanto, essa impressão é dissipada quando o jogo começa e a ação, apoiada por uma revolução na disposição do cenário (que cria barreiras físicas), é dividida em três, cuja unidade só será recuperada no desfecho.

Ou seja: dependendo do lugar onde você se senta, são três os começos possíveis para o espetáculo e três são as dinâmicas de compreensão do significado das outras duas ações que lhes sucedem. Eu, por exemplo, acompanhei ações sucessivas e lineares no tempo, enquanto os outros dois grupos em que o público é dividido as acompanharam  numa sequência não-linear. 

Diante de tanta riqueza semântica e de uma polifonia literal (ouvimos todas as vozes o tempo todo, embora não consigamos compreender o que se passa para além da cena que transcorre diante de nós), não é licito oferecer uma sinopse fiel do conteúdo de O Jardim. Para falar da memória e do esquecimento, o dramaturgo e diretor Leonardo Moreira criou um mosaico onde três momentos se comunicam: a crise de um homem e uma mulher no fim do casamento (em 1938), a última festa que duas irmãs preparam para o pai que sofre do mal de Alzheimer antes de mandá-lo para um asilo (em 1979), e uma mulher decadente e sua empregada, que gravam um vídeo antes de abandonar a casa onde sua família viveu por décadas, agora invadida por pessoas que reclamam a posse daquela propriedade (2011). Estas três ações lentamente começam a lançar luz uma sobre as outras e, por fim, todas as barreiras espaciais e temporais são rompidas num grande ápice emocional. 

O Jardim faz do tempo o seu tema e precisa, pela forma narrativa ousada, que a memória do espectador esteja constantemente ativa a afim de contribuir para a riqueza da experiência que o espetáculo põe em curso. O resultado é um teatro humanista e comovente, cuja linguagem sofisticada nunca é hermética. Pelo contrário, nos convida a construir, pelo exercício de pensamento, a solução de seu quebra-cabeças. O que resulta deste processo não é a pretensa autonomia da história daquelas personagens em relação à nós, espectadores passivos, mas as nossas versões narrativas particulares que conectam todos aqueles momentos num jogo muitíssimo frutífero. 

Esta é, sem dúvida, uma das melhores peças que passaram pelo Rio de Janeiro neste segundo semestre de 2011. Sensacional!