segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ato de Comunhão: A história de João (sem Maria)


Na Panela: Ato de Comunhão [Direção e Interpretação: Gilberto Gawronski; Co-Direção: Warley Goulart; Texto: Lauro Vilo; Tradução: Amir Harif]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.

Em 2002, veio a tona um caso bizarro. O alemão Armin Meiwes, então com 41 anos, havia canibalizado Bern Brandes, 42 anos, um engenheiro que ele havia encontrado por meio de um anúncio na internet. Tudo foi gravado e, o mais surpreendente, com o consentimento de Bern. É este o mote do monólogo Ato de Comunhão, escrito pelo argentino Lauro Vilo: Armin não é Hannibal Lecter.

O texto é estruturado em três momentos da vida de Armin, sendo o último a narrativa do encontro entre os dois homens. Antes, tomamos contato com um episódio da infância do protagonista (sua festa de aniversário de oito anos), onde detalhes de sua relação afetiva com a mãe, dentre outros elementos simbólicos, são revelados. Em seguida, passamos bruscamente para o velório da mãe e a solidão da perda, que abre espaço para a imersão total de Armin no universo do sexo virtual.

Nenhuma destas passagens que antecedem o clímax da peça servem, contudo, a psicologismos baratos ou oferecem justificativas patológicas para o desejo, digamos, estranho de Armin ou, ainda,  pretendem simplesmente absolvê-lo. O texto, organizado na forma de memórias, escapa a estes enquadramentos reducionistas principalmente pelo seu tom seco, metódico. O cenário, composto por alguns objetos que ocupam funções variadas (um espelho, uma cadeira de barbeiro, um notebook) e que interagem com a iluminação, o figurino preto, os vídeos projetados nas paredes, a voz em off do personagem que ora é acompanhada em uníssono por Gilberto Gawronski em cena, ora em descompasso, formam em conjunto uma caixa de ressonância um tanto sombria e intimista da vida daquele homem. Aliás, a interpretação de Gilberto é precisa, contida e passa longe da tentação expressionista que ronda este tipo de personagem. Ele é louco? Ele é lúcido? Estas não parecem ser questões formais decisivas tanto para o intérprete quanto para a montagem em geral e, por isto, a peça se torna mais significativa e reflexiva, sem sair do registro trágico e sem cair na espetacularização do tema. 

Deste modo, a complexidade de Armin é preservada. Um homem aparentemente comum, que viu no canibalismo a possibilidade de satisfazer uma fantasia que o acompanhou durante toda a vida e que encontrou na internet a metade que lhe faltava: Bern, alguém que tinha obsessão em ser comido. Numa entrevista dada já na cadeia, após ser condenado a prisão perpétua, Armin disse que gostava quando a mãe lia a história de João e Maria e que a parte em que a bruxa se prepara para comer João era a mais interessante. E completou, para o entrevistador: "Você não imagina quantos Joãos estão circulando aí pela internet".

Obs.: Os espetáculos da curta temporada no Teatro Glaúcio Gil comportam um público de 30 pessoas apenas.

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