quinta-feira, 11 de agosto de 2011

R&J de Shakespeare - Juventude Interrrompida: Brincando com o clássico


Na Panela: R&J de Shakespeare - Juventude interrompida [Direção: João Fonseca; Adaptação: Joe Calarco; Tradução: Geraldo Carneiro; Com: Rodrigo Pandolfo, Pablo Sanábio, Felipe Lima e João Gabriel Vasconcellos]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro

A peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, embora eu nunca tenha visto alguém a lendo no ônibus ou encontrado um exemplar na bolsa da minha mãe, tem um dos enredos mais conhecidos de todos os tempos e, sem dúvida, é um dos clássicos do teatro e da literatura que mais penetrou no imaginário popular e na cultura pop. É quase impossível encontrar alguém que não consiga contar em três ou quatro frases a história dos dois jovens apaixonados de Verona, nascidos em famílias rivais, que termina em morte depois de um malfadado desencontro. Mas essas referências vem de meios como a TV, o cinema e das inúmeras apropriações dessa trama de amor que pipocaram aqui e acolá nestes séculos afora desde o seu aparecimento nos anos de 1590 quando o dramaturgo inglês, trabalhando também sobre material pré-existente, a tornou definitivamente sua.

Assim, quando se decide montá-la, parece que há uma demanda por equilíbrio implícita. O jogo parece estar ganho de antemão devido ao apelo afetivo inegável da história, mas como recontá-la com frescor, para que o público possa de bom grado renovar seu pacto com ela? E como fazer justiça ao texto e à poesia de Shakespeare, que foram preteridos pelo poder dos próprios personagens, que parecem vagar por aí, independentes? São vários os testemunhos: a bela e delicada abordagem do Romeu e Julieta (1968) de Franco Zeffirelli, o modernoso Romeu e Julieta (1996) de Baz Luhrmann, a singeleza arrebatadora de Romeu e Julieta (1992) do Grupo Galpão, montagem antológica que restituiu o texto a uma outra dimensão popular, o teatro de rua. Eis aí a grandeza dos clássicos, incessantemente férteis e, ao mesmo tempo, fornecedores primários de obstáculos para aqueles que pretendem trazê-los à cena.

R&J de Shakespeare - Juventude interrompida, passa no teste com louvor. Na adaptação metalinguística  do texto original feita por Joe Calarco (um sucesso por mais de um ano no circuito Off-Broadway), traduzida para o português por Geraldo Carneiro, quatro rapazes estudantes de uma escola religiosa esperam o cair da noite para jogar o jogo de Shakespeare. No tom da brincadeira, eles se revezam nos principais personagens de Romeu e Julieta, encenando com o que eles tem à disposição (cadeiras, mesas, as próprias roupas) a sequência de episódios que vai desde o baile onde o casal se conhece até a famosa cena final do suicídio, incorporando citações sutis  (a canção Flor, minha flor, do Galpão; A Time For Us, da trilha do filme de Zeffirelli; ou até mesmo o sucesso Rapunzel, de Daniella Mercury) . Se o humor marca a primeira metade deste R&J, o tom dramático é espantosamente sincero na segunda metade. Sim, porque a brincadeira fica séria, inevitavelmente. E porque Rodrigo Pandolfo, que faz as vezes de Julieta, nunca cai no ridículo quando não deve. Já as outras personagens femininas, a ama (Pablo Sanábio, excelente) e a mãe (Felipe Lima), tendem predominantemente para o cômico, com exceção, claro, nos momentos finais.

Aliás, um dos pontos fortes dessa adaptação é justamente o fato de Romeu e Julieta serem interpretados por dois homens, cujos personagens (os estudantes), mesmo cientes do jogo, não se furtam ao despudor que os seus papéis dentro dele (Romeu e Julieta) exigem. Daí resultam cenas de romance sinceras e, para os olhos maliciosos (os meus, por exemplo), também de alta voltagem homoerótica (João Gabriel Vasconcellos, o Romeu, já é, por si só, uma tentação do Diabo. Mas todos eles são muy guapos...). 

Resumindo: é um trabalho surpreendente, que faz jus ao texto de Shakespeare ao mesmo tempo em que coloca em cena o próprio teatro enquanto jogo e, por isso, enquanto atividade liberadora. Palmas para todo o elenco e pro diretor João Fonseca, esse nome onipresente nas fichas técnicas cariocas.  

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