sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Adultério: não é crime, mas tem o seu preço


Na Panela: Adultério [Direção: Daniel Herz; Texto e Interpretação: Cia Atores de Laura - Ana Paula Secco, Anderson Mello, Leandro Castilho, Márcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro.

Segundo o depoimento dos integrantes da Cia. Atores de Laura (http://www.atoresdelaura.com.br), criada em 1992, o objetivo da companhia é pensar o ator como força principal do jogo cênico, base onde se assentam posteriormente os trabalhos da direção, da cenografia etc. Adultério, espetáculo que encerra sua temporada nos próximos dias, é um fruto inteligente desta proposta de criação coletiva.

São duas as suas linhas de força: (1) o tema do adultério, que se desdobra nas suas mais variadas faces (dos dilemas matrimoniais inevitáveis, tanto dos casais heterossexuais quanto gays, até personagens que escapam do controle do autor traído) por meio de (2) uma narrativa fragmentada, onde um episódio desgarra-se do outro continuamente, num jogo ininterrupto onde a estrutura ficcional do que está sendo representado acaba sempre por ficar à mostra. 

Essas "realidades" que se descolam uma da outra ou se sobrepõem nos diversos planos do palco ecoam a inspiração básica do texto em Pirandello, que aparece ora enquanto questão metafísica subjacente à cena (o que é ilusório e o que não é?), ora enquanto citação da obra mais famosa do dramaturgo italiano, Seis personagens à procura de um autor, no modo como alguns personagens se tornam autônomos e enxergam a si próprios como potências ativadas indefinidamente pela imaginação do espectador.

Parece tudo muito complexo, mas não é, embora a mulher que estava sentada ao meu lado com uma bolsa Vuitton tenha dito ao marido que não estava entendendo nada ... É um espetáculo muito bem humorado, com elenco afinado e equilibrado, cujo êxito, mesmo considerando que o processo criativo tenha se concentrado no trabalho do ator e na valorização da coletividade, também depende em larga escala do ótimo trabalho de direção que alinhavou tudo isso. A absurdamente bem marcada sequência final do espetáculo, que consegue a proeza de rebobinar em  alguns minutinhos tudo que vimos desde o início, é sensacional.

Saldo: Adultério é de uma promiscuidade teatral saborosíssima.

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