sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sem mim: O caleidoscópio do Grupo Corpo


Na Panela: Grupo Corpo - sem mim [Coreografia: Rodrigo Pederneiras; Iluminação e Cenário: Paulo Pederneiras; Figurinos: Freuza Zechmeister]
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Segundo o dicionário, caleidoscópio é um aparelho óptico formado por um tubo de cartão ou de metal, com pequenos fragmentos de vidro colorido que se refletem em pequenos espelhos inclinados, apresentando, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis. Eu só tinha colocado o olho num desses uma única vez na vida, até perceber que o espetáculo sem mim, do Grupo Corpo, pode, de algum modo, se enquadrar na mesma categoria.

Eu achava que Onqotô (2005), espetáculo que celebrou os 35 anos da companhia, era uma espécie de currículo do Rodrigo Pederneiras, um resumo da sua obra. Na série de coreografias dos anos 90, parecem ser lentos os avanços no vocabulário dos movimentos e a concepção geral dos espetáculos se repete (mesmo com o acabamento de altíssimo nível que deu fama ao Grupo, com cenários e luz de Paulo Pederneiras e figurinos da Freuza Zechmeister), com exceção de Bach (1996, com releituras de obras do compositor alemão feitas pelo Uakti na trilha sonora, cujo tom sublime e religioso contamina a coreografia), espetáculo  bastante conciso que parece romper com a lógica dos antecedentes e que possui alguns dos melhores pas-de-deux criados pelo coreógrafo21 (1991) é um marco e uma espécie de carta de intenções do Grupo Corpo, com trilha do Uakti (Tema em Sete é inesquecível); Nazareth (1993), com trilha do Zé Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth, envelheceu mal; e Sete ou Oito Peças para um Ballet (1994), à reboque da trilha sonora sensacional do Philip Glass interpretada pelo Uakti, é uma espécie de 21 Reloaded, porém melhor e com um dos desfechos mais arrebatadores do repertório. Depois de Bach, a estrutura básica de 21 é retomada em Parabelo (1997), com trilha de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, que explode no final em Xique-Xique, música arrasadora que torna a ovação algo inevitável, embora a coreografia tenha poucos grandes momentos (como em Baião Velho, onde se destaca um solo masculino ótimo). Se a estrutura herdada de 21 pareceu dar sinais de cansaço, nota-se, contudo, que os movimentos tornaram-se mais complexos e mais expansivos. Benguelê (1998), que possui talvez a melhor trilha sonora daquela década, composta por João Bosco, abre um leque mais variado de dinâmicas e aparecem regiões antes não exploradas por Pederneiras, como é o caso das brincadeiras com a gravidade tanto nos troncos torcidos dos bailarinos em direção ao chão quanto nos braços soltos e ondulantes. Além disso, o espetáculo tem climas variados, ao contrário do tom uniforme de Parabelo. O saldo, no final das contas, é evidentemente positivo: que outra companhia de dança brasileira pôs no bolso no mínimo 3 grandes obras durante a década?


O Corpo (2000) é um divisor de águas, não apenas porque inicia uma nova etapa e tenta se desvincular do tom regionalista e “brasileiro” dos espetáculos anteriores, mas porque é o um dos mais redundantes do Grupo. A trilha de Arnaldo Antunes é boa, urbana, diferente das outras, mas pesa. E Rodrigo construiu o balé com um naipe restrito de movimentos, alguns isoladamente interessantes, mas que soam repetitivos ao longo dos seus pouco mais de 40 min. Nem a concepção visual geral surpreende aqui.

Eis que então começa uma espécie de revolução. De 2002 pra cá, ano de Santagustin, com trilha de Tom Zé e Gilberto Assis, a linguagem coreográfica e o estilo de Rodrigo Pederneiras atingiram uma dimensão, digamos, autofágica assustadora. Em Lecuona (2004), ele provou (o que já sabíamos desde Bach) ser mestre da composição de pas-de-deux. E em Onqotô (2005), com trilha de Wisnik novamente e Caetano Veloso, fez um resumo da sua obra e deu um passo adiante. Foi nesse ponto que começamos.

Eu disse que achava que Onqotô era uma espécie de resumo da obra de Pederneiras, porque é uma obra madura, que reúne as características do estilo que ele carrega desde 21 (movimentos centrados nos quadris, a maneira como ele agrupa os bailarinos etc.) por meio de uma espécie de reciclagem das outras coreografias, mas algo que não sei explicar mudou. Não é mais repetição. É aquilo que já vimos sendo recombinado, reprocessado, aparecendo, enfim, como algo novo. Não é picaretagem não, é um modo de fazer dança. Tanto que no meio desses procedimentos está Mortal loucura (dois casais em dinâmicas sexuais no chão, algo nunca visto antes em seus trabalhos), um dos ápices da criatividade do Rodrigo.

Eu disse que achava, mas não é só Onqotô, hoje, que pode ocupar essa posição. Porque depois dele veio Breu (2007), com uma trilha acachapante e “escura” do Lenine, mote para o espetáculo mais denso da companhia, radicalizando os procedimentos do espetáculo anterior. Se este  resumia tudo e ainda explorava o chão, então Breu resumia tudo, explorava o chão de maneira mais expressiva, torcia e contorcia a lógica dos pas-de-deux criados anteriormente e, ainda por cima, dava um passo adiante mostrando que o Grupo Corpo não vivia somente da reprodução do passado. Uma obra obra-prima.

Em Ímã (2009), com trilha completamente instrumental de Domenico, Moreno Veloso e Kassin (deliciosa, por sinal), Rodrigo Pederneiras resumiu tudo, explorou construções de pas-de-deux no chão e dinâmicas aéreas curiosas, propôs vários solos e, como se não bastasse, tudo isto debaixo de uma luz impressionante, tátil, volumétrica, onde seus bailarinos se moviam como partículas livres sem compromisso algum com narrativas, num jogo de cores de tirar o fôlego.

Todo esse blablabla é pra dizer que eu estava pessimista em relação à sem mim. Reparei que a trilha demorou pra ficar pronta e matérias lacônicas foram publicadas nos jornais em julho, onde Paulo Pederneiras parecia ainda não ter finalizado o processo de criação do cenário. Quando o espetáculo finalmente estreou em São Paulo, Helena Katz, uma das poucas críticas de dança que prestam, teceu mil elogios à sua concepção visual geral e, em relação à coreografia, disse que o Rodrigo tinha sido bem sucedido ao propor movimentos ondulados a partir dos pés dos bailarinos e que ele havia aproveitado trechos inteiros de outros balés, num procedimento de criação que merecia atenção. Ora, deduzi logo: Rodrigo não teve tempo para criar e fez uma colagem.

Que tolo eu sou.

Sob o som de uma trilha mestiça, delicada, ora empolgante, ora introspectiva (de Carlos Nuñez e Wisnik a partir de cantigas de Martin Codax, do século XIII), o que se revela desde o instante em que o tecido que compõe o cenário é erguido para dar passagem aos bailarinos (momento tão belo e tão simples) é um dos melhores espetáculos do Grupo Corpo. sem mim equilibra perfeitamente a pura felicidade dos requebrados com o corpo tenso da bailarina solitária. E são 20 anos que se fazem presentes no palco. Há referências coreográficas claras, por exemplo, de Benguelê (os saltinhos de “marionete”), 21, Parabelo, O Corpo. A fluidez que acompanha os solos de Mariana do Rosário, por exemplo, já estavam em Onqotô e reapareceu em Ímã. Um trecho inteiro de Bach foi utilizado, sugerido pela própria trilha (que se apropria do Prelúdio da Suite I para cello, em ritmo contagiante) e até mesmo Seis Instantes de Solidão, solo de Jacqueline Gimenes coreografado pelo Rodrigo, nitidamente se faz presente no solo de Cassilene Abranches e na dinâmica que antecede o belíssimo pas-de-deux dançado debaixo do tecido do cenário. Mas o que surpreende mesmo é que todas as dinâmicas de grupo da coreografia são complexas (e também complexificadas pelas informações que os figurinos acrescentam), quando percebemos os padrões, eles já mudaram, num jogo incessante. Se em Ímã alguns bailarinos tinham mais espaço que outros, em sem mim todos brilham. É como se tudo o que foi criado até então por essa equipe excepcional tivesse sido fragmentado e inserido no aparelho ótico do palco, apresentando, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis

Genial.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Adultério: não é crime, mas tem o seu preço


Na Panela: Adultério [Direção: Daniel Herz; Texto e Interpretação: Cia Atores de Laura - Ana Paula Secco, Anderson Mello, Leandro Castilho, Márcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro.

Segundo o depoimento dos integrantes da Cia. Atores de Laura (http://www.atoresdelaura.com.br), criada em 1992, o objetivo da companhia é pensar o ator como força principal do jogo cênico, base onde se assentam posteriormente os trabalhos da direção, da cenografia etc. Adultério, espetáculo que encerra sua temporada nos próximos dias, é um fruto inteligente desta proposta de criação coletiva.

São duas as suas linhas de força: (1) o tema do adultério, que se desdobra nas suas mais variadas faces (dos dilemas matrimoniais inevitáveis, tanto dos casais heterossexuais quanto gays, até personagens que escapam do controle do autor traído) por meio de (2) uma narrativa fragmentada, onde um episódio desgarra-se do outro continuamente, num jogo ininterrupto onde a estrutura ficcional do que está sendo representado acaba sempre por ficar à mostra. 

Essas "realidades" que se descolam uma da outra ou se sobrepõem nos diversos planos do palco ecoam a inspiração básica do texto em Pirandello, que aparece ora enquanto questão metafísica subjacente à cena (o que é ilusório e o que não é?), ora enquanto citação da obra mais famosa do dramaturgo italiano, Seis personagens à procura de um autor, no modo como alguns personagens se tornam autônomos e enxergam a si próprios como potências ativadas indefinidamente pela imaginação do espectador.

Parece tudo muito complexo, mas não é, embora a mulher que estava sentada ao meu lado com uma bolsa Vuitton tenha dito ao marido que não estava entendendo nada ... É um espetáculo muito bem humorado, com elenco afinado e equilibrado, cujo êxito, mesmo considerando que o processo criativo tenha se concentrado no trabalho do ator e na valorização da coletividade, também depende em larga escala do ótimo trabalho de direção que alinhavou tudo isso. A absurdamente bem marcada sequência final do espetáculo, que consegue a proeza de rebobinar em  alguns minutinhos tudo que vimos desde o início, é sensacional.

Saldo: Adultério é de uma promiscuidade teatral saborosíssima.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

R&J de Shakespeare - Juventude Interrrompida: Brincando com o clássico


Na Panela: R&J de Shakespeare - Juventude interrompida [Direção: João Fonseca; Adaptação: Joe Calarco; Tradução: Geraldo Carneiro; Com: Rodrigo Pandolfo, Pablo Sanábio, Felipe Lima e João Gabriel Vasconcellos]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro

A peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, embora eu nunca tenha visto alguém a lendo no ônibus ou encontrado um exemplar na bolsa da minha mãe, tem um dos enredos mais conhecidos de todos os tempos e, sem dúvida, é um dos clássicos do teatro e da literatura que mais penetrou no imaginário popular e na cultura pop. É quase impossível encontrar alguém que não consiga contar em três ou quatro frases a história dos dois jovens apaixonados de Verona, nascidos em famílias rivais, que termina em morte depois de um malfadado desencontro. Mas essas referências vem de meios como a TV, o cinema e das inúmeras apropriações dessa trama de amor que pipocaram aqui e acolá nestes séculos afora desde o seu aparecimento nos anos de 1590 quando o dramaturgo inglês, trabalhando também sobre material pré-existente, a tornou definitivamente sua.

Assim, quando se decide montá-la, parece que há uma demanda por equilíbrio implícita. O jogo parece estar ganho de antemão devido ao apelo afetivo inegável da história, mas como recontá-la com frescor, para que o público possa de bom grado renovar seu pacto com ela? E como fazer justiça ao texto e à poesia de Shakespeare, que foram preteridos pelo poder dos próprios personagens, que parecem vagar por aí, independentes? São vários os testemunhos: a bela e delicada abordagem do Romeu e Julieta (1968) de Franco Zeffirelli, o modernoso Romeu e Julieta (1996) de Baz Luhrmann, a singeleza arrebatadora de Romeu e Julieta (1992) do Grupo Galpão, montagem antológica que restituiu o texto a uma outra dimensão popular, o teatro de rua. Eis aí a grandeza dos clássicos, incessantemente férteis e, ao mesmo tempo, fornecedores primários de obstáculos para aqueles que pretendem trazê-los à cena.

R&J de Shakespeare - Juventude interrompida, passa no teste com louvor. Na adaptação metalinguística  do texto original feita por Joe Calarco (um sucesso por mais de um ano no circuito Off-Broadway), traduzida para o português por Geraldo Carneiro, quatro rapazes estudantes de uma escola religiosa esperam o cair da noite para jogar o jogo de Shakespeare. No tom da brincadeira, eles se revezam nos principais personagens de Romeu e Julieta, encenando com o que eles tem à disposição (cadeiras, mesas, as próprias roupas) a sequência de episódios que vai desde o baile onde o casal se conhece até a famosa cena final do suicídio, incorporando citações sutis  (a canção Flor, minha flor, do Galpão; A Time For Us, da trilha do filme de Zeffirelli; ou até mesmo o sucesso Rapunzel, de Daniella Mercury) . Se o humor marca a primeira metade deste R&J, o tom dramático é espantosamente sincero na segunda metade. Sim, porque a brincadeira fica séria, inevitavelmente. E porque Rodrigo Pandolfo, que faz as vezes de Julieta, nunca cai no ridículo quando não deve. Já as outras personagens femininas, a ama (Pablo Sanábio, excelente) e a mãe (Felipe Lima), tendem predominantemente para o cômico, com exceção, claro, nos momentos finais.

Aliás, um dos pontos fortes dessa adaptação é justamente o fato de Romeu e Julieta serem interpretados por dois homens, cujos personagens (os estudantes), mesmo cientes do jogo, não se furtam ao despudor que os seus papéis dentro dele (Romeu e Julieta) exigem. Daí resultam cenas de romance sinceras e, para os olhos maliciosos (os meus, por exemplo), também de alta voltagem homoerótica (João Gabriel Vasconcellos, o Romeu, já é, por si só, uma tentação do Diabo. Mas todos eles são muy guapos...). 

Resumindo: é um trabalho surpreendente, que faz jus ao texto de Shakespeare ao mesmo tempo em que coloca em cena o próprio teatro enquanto jogo e, por isso, enquanto atividade liberadora. Palmas para todo o elenco e pro diretor João Fonseca, esse nome onipresente nas fichas técnicas cariocas.  

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O Filho Eterno: Menos é sempre mais


Na Panela: O Filho Eterno [Direção: Daniel Herz; Texto: Cristovão Tezza; Adaptação: Bruno Lara Resende; Com: Charles Fricks]
Onde: Oi Futuro - Flamengo

Um ator excelente, um belo texto, duas cadeiras como cenário e uma boa iluminação compõem a receita econômica e eficiente do monólogo O Filho Eterno, adaptação do livro do paranaense Cristovão Tezza lançado em 2007. Sozinho em cena, Charles Fricks desdobra-se brilhantemente na pele de um escritor (o próprio Tezza) cujo filho nasce com Síndrome de Down, ora narrando, do ponto de vista distanciado de quem olha para o tempo que ficou para atrás, ora presentificando momentos-chave dessa paternidade que se constituiu dolorosamente sob o signo da vergonha numa época em que crianças com a síndrome ainda eram chamadas comumente de mongoloides.

Um filho é sempre a ideia de um filho, como diz o pai logo no início da peça. Uma imagem. Uma promessa de alegria que, naquele caso, se desfez diante de uma sentença irrevogável: a responsabilidade sobre uma criança que não seria nunca como as outras. É esse o tom, não há meias palavras para o desespero em O Filho Eterno. O amor paterno? Uma epifania no cotidiano de quem, de tanto rejeitar  por anos a fio a diferença, acaba por ceder à potência afetiva do abraço da cria.

Ser pai é sempre a ideia da paternidade. Ou seja, é um risco.