quarta-feira, 22 de junho de 2011

Hell


Na Panela: Hell [Direção: Hector Babenco; Adaptação: Hector Babenco e Marco Antônio Braz; Com: Bárbara Paz e Paulo Azevedo]
Onde: Teatro dos 4 - Gávea

Baseado no livro homônimo de Lolita Pille, Hell me atraiu duplamente: pela oportunidade de ver Bárbara Paz atuar e de conferir o rendimento de Hector Babenco como diretor de teatro. Considerando que, à despeito do seu sucesso no cinema, ele se considera essencialmente um homem do palco (como declara no programa da peça), a expectativa era alta. Porém, ela não se confirmou, pelo menos em parte.

Hell, a peça, narra por meio de quadros (demarcados principalmente pela luz e num procedimento que evoca os cortes de cinema) a história de uma garota muito, muita rica, rodeada de amigas igualmente ricas, que vaga por uma Paris de sexo, drogas e... boutiques. À certa altura, a personagem lança na cara do público um dos seus petardos mais lúcidos: como julgá-la por sua futilidade, se tudo o que ela poderia desejar e lutar para obter já estava garantido de antemão pelo dinheiro dos pais antes dela nascer? 

O resultado é uma rotina que oscila entre o vazio, o glamour e a auto-destruição. A adaptação favorece a dimensão trágica da personagem ao confrontá-la com a chance redentora (tanto quanto impossível) do amor despertado por Andrea, um jovem tão rico, bonito e anestesiado quanto ela. E com um material tão explosivo nas mãos, é até desculpável que o resultado, tanto do elenco quanto da direção, não seja equilibrado. Bárbara Paz brilha principalmente na segunda metade do espetáculo, mais dramática e centrada na desintegração psicológica de Hell, mas às vezes perde o tom na primeira metade, deixando de saborear, devido à uma dicção aceleradíssima, o fino sarcasmo da personagem. Já Paulo Azevedo (que estava em Por Elise, na cena em que me emocionei pela primeira vez com o teatro), contrapondo-se ao furacão, compõe um tipo mais racional que soa plano demais, quando deveria ser tão complexo quanto a Hell de Bárbara.

Assim, o veredicto é que, mesmo sendo uma experiência vigorosa pela alta voltagem de seu conteúdo, Hell tem problemas de ritmo originados no formato espacialmente fragmentado da narrativa, que cria por meio da luz belos efeitos estéticos, mas que também prejudica os espectadores que não ocupam lugares com ponto de vista frontal do palco. Com material visceral e instável a cada apresentação, Babendo acaba escorregando como maestro nos pequenos detalhes.

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