domingo, 29 de maio de 2011

Tatyana: Uma aposta de Deborah Colker


Na Panela: Tatyana - Cia de Dança Deborah Colker
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro



Sabe quando bate aquela vontade de ir embora no intervalo entre um ato e outro de um espetáculo? Foi o meu caso em Tatyana, a nova coreografia da Cia de Dança Deborah Colker, que encerrou a sua temporada carioca de estreia neste domingo. Se você procurar informações sobre a obra no Google, vai descobrir que ela é inspirada num livro do russo Alexandr Púchkin, que narra uma história de amor que se transforma ao passar do cenário rural para o cenário urbano. Esqueça isso. Pra quem não conhece o livro(eu, por exemplo), é quase impossível identificar qualquer narrativa do tipo A+B+C construída por meio da coreografia. Há sugestões, imagens possivelmente conectáveis pela imaginação do espectador. E a dança sempre sofre com esses releases malditos que impõem um ponto de vista literário como chave de interpretação da coreografia! Daquele esquema atribuído ao livro do Púchkin, sobram: uma estrutura-árvore de madeira que ocupa o centro do palco no primeito ato e o espaço diáfano e sombrio no segundo ato. E todo o primeiro ato é de uma chatíce surpreendente, soando mera exibição técnica dos bailarinos. Mas esta má impressão é apagada logo nos primeiros instantes do segundo ato. O palco é seccionado constantemente em vários planos, seja horizontalmente pela luz ou verticalmente por duas telas semi-transparentes, criando belos efeitos (a projeção de formas geométricas ou a ilusão de imagens refletidas num espelho quando dois grupos de dançarinos posicionam-se em planos opostos). E no meio do aparato cenográfico que, no fundo, é simples (contrariando o histórico da Companhia), a coreografia  flui orgânica, mesmo explorando movimentos de base clássica. Ali podemos ver uma coreógrafa madura afirmando seu talento para além do exotismo atlético que fez sua fama nos anos 90.  Tatyana é, sem dúvida, uma aposta de Deborah Colker feita no tabuleiro da dança internacional.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Rio não é São Paulo




As versões eletrônicas de jornais e revistas botam em circulação na internet informações sobre eventos copiadas sem nenhum pudor de releases dos produtores. No site da RioTur, a "Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro", o texto de divulgação do Viradão Carioca (o nome já condena, pois não se trata de uma jornada ininterrupta de shows) começava da seguinte maneira: "Com mais de 50 horas de programação totalmente gratuita, em três grandes palcos ao ar livre espalhados pela cidade (Quinta da Boa Vista, na Praça das Juras em Bangu, Vigário Geral e Arpoador), a Riotur e a Globo Rio apresentam nos próximos dias 20, 21 e 22 de maio a 3ª Edição do Viradão Carioca." Mesmo texto divulgado na página da Rolling Stone, por exemplo. Não há problema algum nessa prática, desde que ela não reproduza a armadilha contida na passagem "grandes palcos ao ar livre espalhados pela cidade". Grandes. Ar livre. Qualidades que evocam a matriz desse evento que o Rio pôs na rua: a Virada Cultural de São Paulo. Se a capital paulista abre o seu Centro anualmente para a livre circulação de pessoas durante 24 horas de shows e outras atividades artísticas plurais, além de levar a programação até os bairros (SESC's, etc), a iniciativa do Rio é mais modesta. E numa cidade onde tudo parece acontecer nos bairros da zona sul (que, em seu conjunto no mapa, é muito menor que bairros inteiros da zona norte), é louvável que exista um palco em Realengo (não foi em Bangu, como divulgado) ou que novamente a Quinta da Boa Vista, tão maltratada, volte a ser apropriada pelos que moram na região central. Mesmo que a programação não tenha o menor conceito e junte o Nicolas Krassik e Blitz, Velha Guarda da Portela e Fresno, Belo e Bangalafumenga, Céu e NX Zero, não necessariamente nessa ordem e intercalados com "acrobacias aéreas". O que não dá pra fazer vista grossa, mesmo com essa atmosfera de coisa mal planejada, é o que ficou escancarado com o Palco Arpoador, que homenageava o Circo Voador, aquele local mítico, onde artistas iniciantes começaram as suas carreiras numa cidade palpitante dos anos 80, onde tudo acontecia e tudo brilhava! (Hoje o Circo é um empreendimento localizado ali debaixo dos Arcos da Lapa, salvando a cidade do seu deficit de palcos para shows, principalmente de bandas indie internacionais que só nele são viáveis.) Mas vejam bem... o evento não era ao ar livre? Os palcos não eram grandes? Eis que todos aqueles que saíram de suas casas esperando curtir momentos agradáveis sob o vento cool do Arpoador (lembra da música do Cazuza?) deram de cara com uma lona cafona, com capacidade reduzida de público (ocupava metade de uma praça que já é pequena), incluídos aí os convidados, é claro (esses sempre tem o seu lugar). Quem não conseguiu entrar? Ora, veja os shows no telão instalado do lado de fora! Esquema de trânsito? Que nada! Os carros já estão acostumados a desviar das pessoas que atravessam as ruas com imprudência no dia a dia. Ou avançar sobre elas. É risível que exista a pretensão de estabelecer este tipo de evento no calendário cultural de uma cidade onde todos os preços são exorbitantes justamente por ela ser "global", estar no mapa do mundo. No fundo, no fundo, a ideia parece ser sempre reproduzir uma imagem hiperbólica do passado (como no caso da homenagem ao Circo) que não se sabe bem quando foi projetada pela primeira vez, mas que não pára mais de circular como os textos das releases. Rio, quando é que você vai olhar pro futuro e criar algo novo, meu bem?