quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ten Chi - Pina Bausch Tanztheater Wuppertal


Na Panela: Ten Chi (2004) - Pina Bausch Tanztheater Wuppertal
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.



Em 2009 tive o privilégio de ver a primeira apresentação internacional da Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, após a morte da coreógrafa, no Teatro Alfa em São Paulo. Obviamente, foi um momento de grande emoção não só para o público, como também para os bailarinos da companhia. E o programa não colaborava com a leveza: Café Müller (1978) e A Sagração da Primavera (1975), dois marcos emocionalmente carregadíssimos da carreira de Pina. Inesquecível.

Dois anos depois, a companhia retorna ao país, desta vez passando também pelo Rio, que tinha ficado de fora na última visita. O momento é realmente outro. Ten Chi (2004), uma coreografia de quase 3 horas "inspirada" no Japão, do mesmo modo como Água (2001) tinha como ponto de partida impressões sobre o Brasil, vai em direção contrária ao peso de A Sagração da Primavera ou da melancolia de Café Müller ao apostar no humor, embora compartilhe com essas peças o estilo inconfundível da dança de Pina: o uso expressivo dos tecidos, dos cabelos, os movimentos ágeis e toda aquela dinâmica corporal que parece às vezes comandada pelos braços.

Ten Chi é uma sucessão de imagens curtas, fugazes, às vezes repetitivas, entremeadas com conversas bem humoradas (algumas nem tanto) com o público (algumas em português) e sequências coreográficas um pouco mais longas. Percebe-se aqui e acolá ecos de nonsense e tudo flui sem a necessidade de um nexo causal, sem transições rígidas, como é perceptível na neve que começa a cair no palco passados uns trinta minutos do início do espetáculo e que não pára mais, nem no intervalo. Ou seja, ela apenas cai, não está rigidamente dividindo nada em antes e depois, sequer muda o ritmo do conjunto, etc..

E o surpreendente nisso tudo é: e o Japão? Esta é a questão. É apenas um ponto de partida, uma referência, do mesmo modo como a cauda de baleia presente no cenário é um eco dos clichês sobre o país oriental. Nem a trilha sonora prioriza temas locais, reforçando essa idéia. O que vemos não é como uma cultura pode ser trabalhada sobre o olhar de uma coreógrafa que detém uma lingugem estabelecida, mas como aquela cultura pode fornecer um ponto de partida para que essa linguagem possa novamente ser apresentada como nova.

Ten Chi é Pina Bausch, enfim. E o desfecho fantástico do espetáculo, onde uma bailarina dança freneticamente e cita o gestual emblemático de A sagração da primavera (mãos unidas, braços esticados, movimento violento em direção ao ventre, pernas flexionadas), não deixa a menor dúvida sobre isto.

P.S.: Com exceção dos momentos finais do espetáculo, achei o trabalho de iluminação fraco, mas talvez meu ponto de vista (de cima pra baixo) tenha me prejudicado. Ou talvez haja a intenção explícita de não espetacularizar o movimento ou o cenário, tirando o nosso foco dos bailarinos. Ora, mas precisamos, em primeiro lugar, vê-los com clareza, ainda mais num teatro grande. A luz tem um papel preponderante na dança, mesmo não sendo a estrela da noite... Esta é uma questão para refletir, não tenho uma resposta em relação a este caso, já que falo a partir de outro paradigma que é o trabalho de iluminação (o suprassumo!) desenvolvido no Grupo Corpo.

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