domingo, 10 de abril de 2011

Sábado no Circo Voador: Noite de Festival


Na Panela: Marcelo Jeneci, Karina Buhr, Arnaldo Antunes
Onde: Circo Voador - Arcos da Lapa.



Nenhum anúncio deixava claro se seria um show conjunto ou três shows individuais. De qualquer modo, qualquer configuração seria imperdível. Já falei do Marcelo há pouco tempo, comentando um show no Oi Futuro Ipanema. Karina Buhr tem na manga um disco excelente, Eu menti pra você, cheio de temas inesperados, ironias e humor ácido. Arnaldo é Arnaldo, aquele que tem uma das carreiras musicais solo mais dignas dentre os colegas dos anos 90 pra cá.

Eis que o enigma foi desvendado, por volta de meia-noite e meia, já no domingo, quando Marcelo Jeneci subiu ao palco com sua banda. Seriam três shows individuais! Ou seja, quase uma noite de festival de música no Circo Voador.

Marcelo perfilou suas canções fofas em show que rendeu menos que o de Ipanema, devido a problemas de som que atrapalharam a audição de sua voz, além de várias microfonias que se confundiam frequentemente com o som dos teclados. Passemos, então, para Karina, a grande surpresa da noite.

Nunca me preocupei em ver vídeos de perfomances de Karina Buhr, apesar de ter ouvido muito o seu disco. Logo, eu não esperava que a dona daquela voz meiga, com sotaque forte do nordeste, mesmo destilando veneno em quase todas as faixas, fosse o furacão que é no palco. Vestida com um macacão cheio de brilhos que deu a ela uma estatura poderosa bem além do seus presumíveis 1,65 metros, Karina bateu cabelo, se enrolou na fiação do microfone, correu, dançou, rolou no chão, brincou com os intrumentos dos músicos da sua banda (incrível), num coquetel que caiu como uma luva em Ciranda do Incentivo ("Eu vou fazer uma ciranda pra botar o disco na Lei de Incentivo à Cultura"). Um dos pontos altos do show, esta canção, cujo arranjo evoca o universo dos bailes funks, deu o tom para que Karina se esbaldasse como uma legítima poposuda ao cantar os seus versos sarcásticos. Se houve um defeito, este resultou da própria postura de Karina. É de se esperar que alguém que se movimenta freneticamente enquanto canta esqueça de respirar, de atentar-se para a clareza da emissão e, por falhas de dicção decorrentes disso, boa parte das letras preciosas soou ininteligível, pro azar de quem não conhecia o disco. Da bizarra canção de ninar Nassiria e Najaf, só restou audível o essencial: "Dorme logo antes que você morra/Essa é pras criancinhas de Nassiria, Najaf, em Bagdá".

Pra fechar a noite, Sr. Arnaldo Antunes e as canções do disco Iê Iê Iê, que eu subestimei quando foi lançado, mas que o show tratou logo de mostrar o quanto eu estava equivocado, salpicadas por canções de outros discos como a bela Consumado (numa versão bem melhor).  Nem tenho mais o que dizer. Procurem por Iê Iê Iê, Vem cá e a linda linda linda Meu coração. Basta.

Resultado: Pernas doendo e sorriso na cara.

Soraya Ravenle: Uma senhora cantriz


Na Panela: Soraya Ravenle - Arco do tempo
Onde: SESC Copacabana



Pois é, voltei. Quarta-feira, último show da curta temporada de Soraya Ravenle na arena do SESC Copacabana, desta vez decorada com tecidos leves e translúcidos que pendiam do teto, compondo uma colcha de retalhos tal qual o vestido da cantriz. Palavrinha ridícula, mas Soraya é mesmo uma excelente cantora e atriz que, nesse show, são duas dimensões fundidas em uma só.

As canções de Paulo César Pinheiro que compõem o repertório do CD Arco do Tempo, ganham aqui o reforço de interpretações que valorizam não apenas os desenhos melódicos, mas a poesia de Paulo, suas palavras, como fica evidente em Minha missão (E a cigarra quando canta morre/E a madeira quando morre canta), à capella. Se Senhorá (Roque Ferreira) é puro deleite (Os sonhos que eu sonhei, senhorá/Eu quero sonhar de novo, senhora, ô, senhorá), tal como o frevo Ninho de Vespa (Dori Caymmi), Cristal Lilás (Maurício Carrilho) surge tensa em clima de tango, com letra pugente sobre o amor,  e Carta Branca (Baden Powell) é delicioso samba de dor de cotovelo no melhor estilo de Vou deitar e rolar (um clássico da dupla Baden e Paulo). Por fim, um dueto afetivo com a filha Júlia fechou o espetáculo, comovente.

Tudo isto em sintonia com uma presença luminosa, de quem há mais de 20 anos frequenta os palcos do Rio, figura recorrente no elenco de musicais. Pena que o futuro deste tipo de espetáculo seja incerto, quando merecia rodar o país, levando as canções primorosas de Paulo (e seus parceiros) e a competência de Soraya Ravenle à ouvidos atentos de outras regiões.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ten Chi - Pina Bausch Tanztheater Wuppertal


Na Panela: Ten Chi (2004) - Pina Bausch Tanztheater Wuppertal
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.



Em 2009 tive o privilégio de ver a primeira apresentação internacional da Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, após a morte da coreógrafa, no Teatro Alfa em São Paulo. Obviamente, foi um momento de grande emoção não só para o público, como também para os bailarinos da companhia. E o programa não colaborava com a leveza: Café Müller (1978) e A Sagração da Primavera (1975), dois marcos emocionalmente carregadíssimos da carreira de Pina. Inesquecível.

Dois anos depois, a companhia retorna ao país, desta vez passando também pelo Rio, que tinha ficado de fora na última visita. O momento é realmente outro. Ten Chi (2004), uma coreografia de quase 3 horas "inspirada" no Japão, do mesmo modo como Água (2001) tinha como ponto de partida impressões sobre o Brasil, vai em direção contrária ao peso de A Sagração da Primavera ou da melancolia de Café Müller ao apostar no humor, embora compartilhe com essas peças o estilo inconfundível da dança de Pina: o uso expressivo dos tecidos, dos cabelos, os movimentos ágeis e toda aquela dinâmica corporal que parece às vezes comandada pelos braços.

Ten Chi é uma sucessão de imagens curtas, fugazes, às vezes repetitivas, entremeadas com conversas bem humoradas (algumas nem tanto) com o público (algumas em português) e sequências coreográficas um pouco mais longas. Percebe-se aqui e acolá ecos de nonsense e tudo flui sem a necessidade de um nexo causal, sem transições rígidas, como é perceptível na neve que começa a cair no palco passados uns trinta minutos do início do espetáculo e que não pára mais, nem no intervalo. Ou seja, ela apenas cai, não está rigidamente dividindo nada em antes e depois, sequer muda o ritmo do conjunto, etc..

E o surpreendente nisso tudo é: e o Japão? Esta é a questão. É apenas um ponto de partida, uma referência, do mesmo modo como a cauda de baleia presente no cenário é um eco dos clichês sobre o país oriental. Nem a trilha sonora prioriza temas locais, reforçando essa idéia. O que vemos não é como uma cultura pode ser trabalhada sobre o olhar de uma coreógrafa que detém uma lingugem estabelecida, mas como aquela cultura pode fornecer um ponto de partida para que essa linguagem possa novamente ser apresentada como nova.

Ten Chi é Pina Bausch, enfim. E o desfecho fantástico do espetáculo, onde uma bailarina dança freneticamente e cita o gestual emblemático de A sagração da primavera (mãos unidas, braços esticados, movimento violento em direção ao ventre, pernas flexionadas), não deixa a menor dúvida sobre isto.

P.S.: Com exceção dos momentos finais do espetáculo, achei o trabalho de iluminação fraco, mas talvez meu ponto de vista (de cima pra baixo) tenha me prejudicado. Ou talvez haja a intenção explícita de não espetacularizar o movimento ou o cenário, tirando o nosso foco dos bailarinos. Ora, mas precisamos, em primeiro lugar, vê-los com clareza, ainda mais num teatro grande. A luz tem um papel preponderante na dança, mesmo não sendo a estrela da noite... Esta é uma questão para refletir, não tenho uma resposta em relação a este caso, já que falo a partir de outro paradigma que é o trabalho de iluminação (o suprassumo!) desenvolvido no Grupo Corpo.

Arícia Mess: Sábado em Copacabana


Na Panela: Arícia Mess - Onde mora o segredo
Onde: SESC Copacabana



Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite (mesmo chuvoso), ainda que seja apenas a surpresa de um bom show na charmosíssima arena do SESC Copacabana. Não conhecia a cantora Arícia Mess, mas depois de ler coisas boas por aí, resolvi conferir.

A sua entrada em cena, saindo das escadas do subsolo da arena sob forte luz vermelha, como se incorporasse uma entidade,deu logo as cartas. O que se seguiu foi uma sequência vibrante de canções com acentuado peso black, onde se destacam Hora Boa e Onde mora o segredo, que dá nome ao último CD da cantora, cuja divulgação foi o mote do show.

Mas gaiatos como eu não ficaram totalmente à deriva. Fizeram parte do roteiro uma versão excelente e (quase) intimista de Black is beautiful, clássica na voz de Elis Regina, Clariô, do disco Caras e Bocas da Gal (um dos mais legais, inclusive), Interesse, da lavra de Pedro Luís, e O homem dos olhos de raio-x, de Lenine. Esta última se destacou não somente pelo fraseado novo que Arícia imprimiu à letra da canção, mas pelo efeito simples e impactante dos seus olhos iluminados por um foco de luz, em contraponto ao restante do ambiente escuro.

Palmas também pra banda, em especial ao baterista (sentei logo atrás, então prestei muuuuita atenção...ops!). Enfim, a noite passa tão depressa, mas vou voltar lá pra semana... se houver um novo show, Copacabana.