quinta-feira, 10 de março de 2011

Bruna Surfistinha: Poderia ser pior, poderia ser melhor


Na Panela: Bruna Surfistinha [Direção: Marcus Baldini; Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino; Com: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Guta Ruiz]
Ano: 2011 (Brasil)




Não conheço o livro O doce veneno do escorpião e só soube mesmo do tal blog da Bruna Surfistinha/Raquel Pacheco (onde a moça divulgava suas experiências sexuais com os clientes e os instigava ainda mais) quando o livro entrou para as listas dos mais vendidos do país. Coisa que, aliás, não entendia. Usar a plataforma da internet a seu favor foi uma jogada super interessante, já que a pornografia é consumida maciçamente hoje em dia pela tela do computador. Mas por que aquele reboliço todo no mercado editorial por causa de um relato de uma menina de classe média que decide virar garota de programa? Uma possível resposta: não era esse o foco de atenção (o mais interessante, até), mas novamente o interesse que os detalhes picantes daquela vida proibida despertam. Se não fosse assim, o livro não teria aparecido misteriosamente na bolsa da minha própria mãe. Para atingir a todos, O doce veneno precisava mesmo ser publicado em papel.

Mas e o filme? Surpreendentemente, não é apelativo como se poderia esperar. Mas também não é uma obra expressiva como poderia, surpreendentemente, ser. As opções do roteiro são primárias em momentos decisivos, jogam o filme no buraco e prejudicam o seu principal trunfo: Deborah Secco, linda e esforçada no papel de Raquel/Bruna.

Raquel é adotada, desajeitada (e como é óbvia a caracterização por meio de roupas largas e cabelo seco somados à postura retraída da Deborah), não se comunica com os pais, é rejeitada pelo irmão mais velho, sofre bulling na escola, rouba jóias da mãe e foge de casa. Enfim... Uma introdução fraca e psicologizante que tenta justificar o que é o mais fascinante na história da menina que tinha uma vida desejável e de repente decide ser garota de programa num “privê” da periferia: nenhum moralismo barato pode dar conta do significado deste ato de Raquel. Não há justificativas a serem dadas, não precisamos absolvê-la. Bastava que o filme a mostrasse em suas fissuras, contradições. Nessa direção, teríamos talvez uma obra provocativa, incômoda e muito mais relevante enquanto documento de uma época altamente marcada por um comportamento sexual pornográfico e machista, que ainda divide as mulheres entre putas e donas-de-casa. E o faria por meio de uma personagem complexa em sua superficialidade.

As motivações simplórias que em vão o roteiro tenta nos fazer engolir apagam os mais variados matizes dessa história e quem sai perdendo é Deborah Secco, já que a câmera não desgruda dela. Sua interpretação perde credibilidade todas as vezes que tem que dar vida às exigências morais falsas do roteiro. Também é bizarro que o diretor não tenha podado clichês excessivos utilizados por Deborah na composição da personagem, como o sentar-se de pernas abertas ou a cadência “marrenta” inorgânica da fala em alguns momentos. Em compensação, ela mostra a boa atriz que é nas variadas cenas de sexo (é emblemático o olhar que ela lança ao espectador durante o seu primeiro programa) e nas cenas de humor particularmente deliciosas que, infelizmente, duram pouco.

De menina feia à bela e desejada prostituta sob o codinome Bruna Surfistinha (hit virtual após cair fora do subúrbio e entrar para rodas mais altas), saltamos para o seu naufrágio na cocaína que a leva aos mais baixos níveis da profissão, até reerguer-se num edificante “Rastejei na lama, porém venci no final!”. Era para ser um filme sobre sexo, prazer (das drogas, inclusive) e repulsa, afinal, até filmes pornôs a Raquel real estrelou. Porém a opção por um filme clean, acessível a platéias mais amplas, vaza do roteiro para todos os outros segmentos. Há uma sequência específica no segundo terço do filme, quando Raquel vai trabalhar em um pardieiro, que é exemplar, pois fecha um ciclo com a cena de abertura. Vemos uma fila de homens comuns, grosseiros, aguardando para serem atendidos. Mas a montagem é tão pobre (um modelo de videoclipe de quinta categoria), a fotografia tão sem personalidade e participa tão pouco da sugestão do quanto aquele espaço é desprezível, o elenco de apoio tão mal dirigido e mal incorporado na composição da cena, que não há mesmo esperanças artísticas que sobrevivam até o final desse Bruna Surfistinha.

Sim, esse é o primeiro longa do Marcos Baldini, ele pode evoluir. Mas eu tenho síndrome de obra-prima e ela não me deixa esquecer que Madame Satã foi o primeiro longa de Karim Ainouz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário