domingo, 20 de fevereiro de 2011

"A saída do museu é pela loja de souvenirs, senhor."


Na Panela: Exit through the gift shop [Direção: Banksy]
Ano: 2010 (Inglaterra)
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Dos dois documentários sobre arte indicados ao Oscar deste ano, Exit through the gift shop é o mais bem sucedido, embora os catadores de material reciclável de Lixo extraordinário sejam comoventes. Mas enquanto a linguagem do segundo é errática e perde para a grandeza dos personagens, a do primeiro é tão precisa que até se dá ao luxo de misturar fidelidade jornalística com ficção, sem perder o foco duplo de prestar um tributo a street art e de ironizar o mercado de arte.

Exit foi dirigido por Banksy (que nunca revelou a sua identidade e que ninguém sabe se é um artista ou um coletivo), embora eu tenha dúvidas em relação a veracidade do crédito devido a algumas informações que o filme deixa cair como que sem querer. Voltarei a esse assunto no final do texto.

A estrutura é a seguinte:

Logo no início, Banksy revela que o mote é mostrar como um documentarista que queria fazer um filme sobre ele se tornou o personagem documentado. Trata-se de Thierry Guetta, um francês que mora na Califórnia viciado em filmar. Sem querer, Thierry entra no círculo da street art ao registrar o trabalho de um primo, conhecido como Space Invader, e acaba recolhendo material de um leque enorme de artistas cujas ações clandestinas em espaços públicos ainda eram lançadas na vala comum do vandalismo, mas que pouco a pouco ganharam notoriedade. É o caso de Shepard Fairey, autor de uma famosa imagem de Obama que rodou os Estados Unidos e caiu na internet, ainda na época das eleições presidenciais. Ou seja, contar a história do material de Guetta, no seu olhar amador, é também contar a história recente da street art sem didatismos maçantes, o que é uma estratégia narrativa bem interessante.

E como Banksy entra nessa roda? Ora, depois de registrar tanta gente em ação, ele era o único que faltava no arquivo de Guetta, que desejava ardentemente o encontro quase impossível com o misterioso artista. Quase impossível, porque um dia Banksy precisou de apoio para algumas de suas intervenções em Los Angeles e acabou chegando, por meio de Space Invader, ao nome confiável de Guetta, a quem concedeu gravar imagens sem que aparecesse seu rosto.

Até aí, somos convencidos pelo fascinante percurso de coincidências que levaram àquele estado de coisas. Os artistas da rua estavam indo parar nas galerias, o próprio Banksy se tornou um expoente nesse processo ao conquistar cifras altíssimas no mercado de arte. Estava na hora, portanto, de mostrar a certidão de nascimento da street art e nada mais oportuno que construir um documentário a partir do material inigualável de Guetta. Mas ele não tinha competência nenhuma como editor, de modo que Banksy assume a tarefa de selecionar o material e incentiva Guetta a seguir outros rumos, quem sabe até entrar para o time dos artistas.

É o que ele faz. Cria um codinome (Mr. Brainwash, Sr. Lavagem Cerebral), cria um ícone que possibilita identificar inequivocamente intervenções urbanas como suas, contrata pessoas para realizar o trabalho gráfico, etc. Ora, o filme começa a descortinar as engrenagens técnicas nas quais Guetta desenvolve seu trabalho. A questão não é talento ou vivacidade das idéias, mas o modo como as operacionaliza, até chegar ao ápice de realizar uma exposição solo cheia de pastiches da street art e da pop art, um sucesso comercial e de crítica devido ao hype. A promoção extrema do nome de Guetta na imprensa e o apoio dado a ele por gente consagrada como o próprio Banksy o transformaram num artista de sucesso fabricado. Está dado o outro lado da moeda: após prestar o tributo aos artistas de rua, Banksy utiliza Guetta para ironizar o mercado e a crítica irresponsável de arte.

Aí vem a pulga atrás da orelha... Tudo é tão eficiente, tudo é tão perfeito, Guetta é tão extravagante e engraçado que parece ser um personagem criado para os propósitos de Banksy. Um documentário quadrado é tudo que não se espera de um artista como ele, que adora confundir. Partindo desse ponto, não dá para ignorar que podemos estar diante de uma das obras mais provocativas dele. Em certo momento, Guetta diz que não precisa fazer nada, basta contratar pessoas para realizar tecnicamente as obras, assim como gente importante como Damien Hirst faz. Exit through the gift shop é tão bem elaborado, que nos faz perguntar: Se a arte contemporânea permite tal procedimento, o que impede Banksy de ter contratado um bom cineasta para realizar o documentário a partir de uma idéia sua e apenas assinar a direção? Se as artes plásticas já absorveram essa prática, o cinema ainda presa muito a “assinatura” do criador. Banksy estraga a festa e, como punição, caso ganhe o Oscar no próximo dia 27, não poderá subir ao palco para receber a premiação sem se identificar, como determinou a Academia. Uma pena, pois seria delicioso ver alguém vestido com uma máscara de macaco fazer o discurso de agradecimento. Ou dois. Ou três. Ou seis macacos. "Ele" é quem decide.

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