segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Inverno da Alma: O lado sombrio da América


Na Panela: Inverno da Alma [Direção: Debra Granik; Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini, Daniel Woodrell; Com: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Sheryl Lee]
Ano: 2010 (EUA)
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Eu particularmente gosto de filmes americanos que deslocam a visão cosmopolita que geralmente ligamos aos Estados Unidos para a periferia. Mais precisamente, para o interior do país, em regiões desconhecidas e distantes dos grandes centros urbanos costeiros. Se no cinema brasileiro essa temática é constante, no cinema americano ela aparece geralmente em produções independentes, que dependem do sucesso de crítica e de público em festivais como Sundance para chegar ao circuito comercial mundial. Nesse processo, a temporada de premiações é importante não só para que Hollywood mostre o que pensa ter feito de melhor, mas por dar espaço àquelas produções pequenas que, pela qualidade inegável, merecem figurar entre as produções convencionais. No caso específico do Oscar, esta tem sido uma tendência nos últimos anos, com Transamérica, Pequena Miss SunshinePreciosa, por exemplo. Os dois primeiros apresentando o quanto a América é brega e jeca. O último, o quanto ela também é atrasada.

Este ano é a vez de Inverno na Alma.

Ree (Jennifer Lawrence), uma garota de 17 anos, (sobre)vive numa região inóspita não identificada no filme por nenhum nome (sabe-se por outras vias que é o Missouri). Seu pai foi preso por envolvimento com tráfico de drogas, a mãe tem problemas psiquiátricos e seus dois irmãos menores estão sob a sua responsabilidade. A coisa piora quando ela recebe uma notificação da justiça. Seu pai ofereceu a casa como garantia de fiança e desapareceu. Caso não se apresentasse numa próxima audiência marcada, todos seriam despejados. Não há alternativas para Ree a não ser encontrar o pai, vivo ou morto, para que não perca o próprio teto.

A narrativa decola quando encontra a rota de um thriller. A dificuldade não está nas possíveis distâncias a serem percorridas por Ree, mas em obter informações na própria vizinhança. Todos na região têm as mãos enfiadas na produção de drogas em laboratórios domésticos, o que instaurou um código de silêncio como forma de blindagem contra as autoridades. O filme acompanha esse calvário da personagem, que esbarra em tipos assustadores e não encontra segurança nem mesmo no que ainda pode considerar sua família, como é o caso do seu tio (John Hawkes), um tipo sombrio que tenta dissuadi-la do propósito de encontrar o pai para resguardar a segurança da sobrinha. Hawkes, aliás, nos brinda com uma interpretação brilhante e o seu olhar no primeiro encontro com Ree é um dos grandes momentos do filme.

A trama caminha em direção a esse improvável encontro da garota com o pai, a partir de fragmentos de informações e por uma via ascendente de tensão que só tem trégua no desfecho desconcertante. A diretora Debra Granik fez um filme seco, áspero, e tem a seu favor um elenco impecável que se esconde debaixo de roupas pesadas e sujas quase todo o tempo, exibindo faces envelhecidas e duras que testemunham aquela vida de cão. Os poucos exemplares de beleza física vem de mulheres jovens como Ree, das crianças e de duas mulheres mais velhas que se preservam à margem daquela vida clandestina. Aliás, as mulheres de Inverno da Alma são tão duras como os maridos, como evidencia uma cena de espancamento onde nenhum homem se faz presente.

Ree é uma fortaleza por dentro e para que seu corpo torne isto público, é questão de tempo. Não há esperanças, embora isto não seja motivo para lamúrias. Daí advém todo embrutecimento.

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