domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lixo Extraordinário: Gente extraordinária


Na Panela: Lixo Extraordinário [Direção: Lucy Walker; Co-direção: João Jardim, Karen Harley]
Ano: 2010 (EUA/Brasil)
@@@

Entre 2007 e 2009, o artista plástico brasileiro Vik Muniz trabalhou em conjunto com catadores de material reciclável do aterro sanitário Jardim Gramacho, que recebe boa parte do lixo da cidade do Rio de Janeiro e da baixada fluminense. Todo o processo foi captado em vídeo, dando origem a Lixo Extraordinário, documentário que ganhou destaque na imprensa nacional após ter sido indicado ao Oscar 2011. O filme foi exibido em diversos festivais internacionais no último ano, conquistando prêmios nas votações de preferência do público, mas foram raros os prêmios da crítica. Isto diz muito.

Todos os defeitos de Lixo Extraordinário são imediatamente perceptíveis. A estrutura dramática do documentário parte do lugar-comum do artista descontente, buscando inspiração num momento de paralisia após o reconhecimento internacional maciço de seu trabalho e do trânsito fácil conquistado no mercado de arte desde a maravilhosa série Crianças de Açúcar. Nela, Vik retratou crianças cortadoras de cana na América Central, construindo as imagens com o mesmo açúcar que retirou delas o futuro. De algum modo, ele desejava que seu trabalho pudesse novamente ser construído numa perspectiva humanista e política, de modo que a idéia de retratar trabalhadores de Jardim Gramacho usando lixo como material expressivo, somada à idéia de reverter a renda da venda de algumas obras em benfeitorias cai como uma luva. Ora, o problema é que essa introdução é forçada e artificial pela insistência do artista em mostrar o seu engajamento.

Tudo fica muito mais interessante quando são os catadores que assumem o centro da tela e deslocam o ponto de vista inicial do artista, que parecia até mesmo desejar encontrar um ambiente desolador e chocante no qual pudesse doar alguma dignidade a quem lá encontrasse. Acontece que em Gramacho, a despeito do fato de que a manipulação do lixo é algo repulsivo para quase todo mundo que não tem que tirar dele o ganha pão, é um lugar organizado. E quem trabalha lá, por mais degradante que seja conviver com o cheiro horrível e com a sujeira, além de vez ou outra se deparar com um corpo em decomposição, o faz por ser uma solução viável em termos financeiros, devido à crescente demanda pela reciclagem de materiais como o plástico.

Vik então seleciona alguns “personagens” de Gramacho, dá voz a eles, deixa que contem suas histórias, os fotografa e os contrata para recolher o material necessário para a reconstrução das imagens em estúdio. E são os próprios catadores, orientados por ele e sua equipe, que realizam as obras. Eis que aí está outra fissura: Vik tenta o tempo todo costurar um discurso de que a arte pode mudar a vida das pessoas e que o processo que ele propôs pode exemplificar essa idéia, a ponto de a edição inserir um debate pseudo-exaltado onde uma mulher defende, com razão, que tirar pessoas do lixão, lhes mostrar uma vida mais interessante numa área menos degradada da cidade e depois devolvê-las ao lugar de origem com a consciência tranqüila não é ético.

Fato é que Vik Muniz não sabe se a arte tem o poder de mudar alguém. É inegável que a participação em um processo artístico (uma das mais altas realizações do espírito, como diria Hegel) dignifica aquelas pessoas, recupera a auto-estima delas, mas e daí? Foi a arte ou o mundo criativo de um artista bem sucedido (cercado de pessoas bacanas, dinheiro para bancar suas idéias, colecionadores loucos para adquiri-las, exposições lotadas) que abriu o horizonte de pessoas como Tião, o presidente da Associação de Catadores que teve sua imagem comprada num leilão em Londres? A preocupação em dar enfoque ao poder transformador da arte é tão grande que os catadores são questionados, a certa altura, sobre o que mudou na vida deles após aquela experiência. Óbvio que algo terá mudado. Mas até que ponto as obras de arte resultantes desse percurso são um índice daquela mudança? É essa resposta que Lixo Extraordinário não consegue nos dar, mas dá a pensar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário