domingo, 20 de fevereiro de 2011

127 Horas: Nervos de aço


Na Panela: 127 Horas [Direção: Danny Boyle; Com: James Franco, Lizzy Caplan, Kate Burton]
Ano: 2010 (EUA)
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Um site inglês postou uma brincadeira com os cartazes dos filmes indicados ao Oscar 2011: “Se os cartazes dos filmes indicados contassem a verdade”. No caso de 127 horas, o que deveria ser revelado era algo do tipo “Você tem 85 minutos antes que ele corte o braço fora”. Tem spoiler melhor que esse?

Que o personagem Aron Ralston (interpretado por James Franco), ao explorar sozinho um cânion em Utah, fica preso 127 horas numa fenda depois do deslocamento de uma rocha que prende o seu braço e, para se salvar, acaba tendo que cortá-lo, não é nenhum segredo. Mas sinopses não oferecem premissas para a dedução de um filme, nunca se sabe como argumentos como esse, que, sinceramente, é até batido, vão ser desenvolvidos na tela.

Todo o mérito de 127 horas está no caminho escolhido pelo diretor Danny Boyle para contar essa história. Na introdução orquestrada deslumbrantemente, vemos Ralston se preparando para deixar a sua casa rumo à natureza, apresentada num ritmo alucinante em toda a sua exuberância. Ele tem com ela uma relação totalmente sensual, como fica claro nas sequências onde encontra duas turistas perdidas e as leva às delícias que um salto em queda livre por uma fenda que termina num lago de tom azul pode proporcionar. Logo em seguida, pouco depois de se despedir das moças, num descuido, acontece o que todo mundo sabe que vai acontecer.

Por mais que seja um filme sobre o velho tema da superação, ou da relação perigosa entre homem e natureza, o roteiro de Simon Beaufoy (baseado no relato biográfico do próprio Ralston) valoriza o prazer de estar acolhido no meio natural e também o prazer que se recebe em troca ao desafiá-lo. A estética publicitária de Boyle nesse filme realça essa dimensão, as imagens precisam ser desejáveis, como num comercial, para que captemos aquela atmosfera luxuriante. O crítico Marcelo Janot, do Globo, encontrou nessa estética um defeito grave, principalmente pelo que ele julga ser um constrangedor merchandising de marcas como Gatorade. Ralston, quando está com sede, se lembra constantemente de imagens de garrafas molhadas sendo abertas com estardalhaço, refrigerantes borbulhantes, etc.. Ora, essas imagens publicitárias operam como signos dos nossos desejos o tempo todo. Quem nunca pensou numa Coca-Cola num dia de calor escaldante que atire a primeira pedra!

Quase todas as lembranças de Ralston na solidão daquele buraco são sensoriais. Corpos nus na neve, a cama da namorada. Esse ponto de vista retira o filme da rota do dramalhão que ele poderia seguir, dão ritmo e oferece a James Franco a chance de brilhar absoluto pela primeira vez em sua carreira, ao sustentar sozinho um filme inteiro sem cansar o espectador. Ele grava vídeos para a família, tenta deslocar a pedra com o material que tem, tira fotos, ri, se desespera e quando beira o descontrole, toma a decisão fatídica.

127 horas tem, no fundo, uma dimensão trágica. Mesmo o sujeito mais autoconfiante do mundo não pode pretender ter o controle total sobre a resultante de cada passo que dá, nem que uma rocha solta, como que à sua espera, tenha que lhe mostrar isso da pior maneira possível.

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