sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sílvia Machete: Eu adoro cantoras inteligentes


Na Panela:  Festival Sonoridades - Sílvia Machete [Com participações de Erasmo Carlos, Domenico Lancellotti, Marcelo Lobato]
Onde: Oi Futuro Ipanema
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Programas como Ídolos fazem aqueles pobres garotos e garotas acreditarem na ilusão de que uma grande voz e movimentos, digamos, enfáticos no palco darão a eles algum lugar ao sol na música brasileira. Coitados, sem os meios para formatar uma "obra", ninguém vai muito longe. Existem por aí cantoras muito melhores que Sílvia Machete no quesito vocal. Não se pode dizer que ela tenha uma voz especial, um timbre particularmente bonito, ou coisa do tipo. É competente, tem boa técnica, nada excepcional. Mas ela tem no bolso um álbum chamado Extravaganza, cujo repertório formou a base do show apresentado no Festival Sonoridades, com curadoria de Nelson Motta. Curiosamente, Noite Torta, talvez a melhor gravação brasileira do ano passado, resultou menos arrebatadora no palco. No entanto, canções como Meu Carnaval e A Cigarra cresceram, seja pela competência da ótima banda que agregou o baterista Domenico Lancellotti (só pra lembrar, Domenico+2 é o melhor dos três títulos do trio formado com Kassin e Moreno Veloso) e o tecladista Marcelo Lobato, seja pela performance bem humorada e segura de Machete. Já Sábado e Domingo e Underneath the mango tree soaram como no disco: deliciosas. Erasmo Carlos, compositor parceiro da cantora em Femino Frágil e super espirituoso a ponto de fazer as vezes de caubói com chapéu e arma fake na ótima Panorama Ecológico (composta junto com Você-Sabe-Quem), foi a cereja do bolo. Enfim, noite feliz, apesar de ter que esperar um ingresso incerto por mais de uma hora na bilheteria, já que o Oi Futuro reserva um número exorbitante de convites para toda a sorte de "vips" e esquece que o teatro é pequeno. Haja paciência.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Inverno da Alma: O lado sombrio da América


Na Panela: Inverno da Alma [Direção: Debra Granik; Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini, Daniel Woodrell; Com: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Sheryl Lee]
Ano: 2010 (EUA)
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Eu particularmente gosto de filmes americanos que deslocam a visão cosmopolita que geralmente ligamos aos Estados Unidos para a periferia. Mais precisamente, para o interior do país, em regiões desconhecidas e distantes dos grandes centros urbanos costeiros. Se no cinema brasileiro essa temática é constante, no cinema americano ela aparece geralmente em produções independentes, que dependem do sucesso de crítica e de público em festivais como Sundance para chegar ao circuito comercial mundial. Nesse processo, a temporada de premiações é importante não só para que Hollywood mostre o que pensa ter feito de melhor, mas por dar espaço àquelas produções pequenas que, pela qualidade inegável, merecem figurar entre as produções convencionais. No caso específico do Oscar, esta tem sido uma tendência nos últimos anos, com Transamérica, Pequena Miss SunshinePreciosa, por exemplo. Os dois primeiros apresentando o quanto a América é brega e jeca. O último, o quanto ela também é atrasada.

Este ano é a vez de Inverno na Alma.

Ree (Jennifer Lawrence), uma garota de 17 anos, (sobre)vive numa região inóspita não identificada no filme por nenhum nome (sabe-se por outras vias que é o Missouri). Seu pai foi preso por envolvimento com tráfico de drogas, a mãe tem problemas psiquiátricos e seus dois irmãos menores estão sob a sua responsabilidade. A coisa piora quando ela recebe uma notificação da justiça. Seu pai ofereceu a casa como garantia de fiança e desapareceu. Caso não se apresentasse numa próxima audiência marcada, todos seriam despejados. Não há alternativas para Ree a não ser encontrar o pai, vivo ou morto, para que não perca o próprio teto.

A narrativa decola quando encontra a rota de um thriller. A dificuldade não está nas possíveis distâncias a serem percorridas por Ree, mas em obter informações na própria vizinhança. Todos na região têm as mãos enfiadas na produção de drogas em laboratórios domésticos, o que instaurou um código de silêncio como forma de blindagem contra as autoridades. O filme acompanha esse calvário da personagem, que esbarra em tipos assustadores e não encontra segurança nem mesmo no que ainda pode considerar sua família, como é o caso do seu tio (John Hawkes), um tipo sombrio que tenta dissuadi-la do propósito de encontrar o pai para resguardar a segurança da sobrinha. Hawkes, aliás, nos brinda com uma interpretação brilhante e o seu olhar no primeiro encontro com Ree é um dos grandes momentos do filme.

A trama caminha em direção a esse improvável encontro da garota com o pai, a partir de fragmentos de informações e por uma via ascendente de tensão que só tem trégua no desfecho desconcertante. A diretora Debra Granik fez um filme seco, áspero, e tem a seu favor um elenco impecável que se esconde debaixo de roupas pesadas e sujas quase todo o tempo, exibindo faces envelhecidas e duras que testemunham aquela vida de cão. Os poucos exemplares de beleza física vem de mulheres jovens como Ree, das crianças e de duas mulheres mais velhas que se preservam à margem daquela vida clandestina. Aliás, as mulheres de Inverno da Alma são tão duras como os maridos, como evidencia uma cena de espancamento onde nenhum homem se faz presente.

Ree é uma fortaleza por dentro e para que seu corpo torne isto público, é questão de tempo. Não há esperanças, embora isto não seja motivo para lamúrias. Daí advém todo embrutecimento.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

127 Horas: Nervos de aço


Na Panela: 127 Horas [Direção: Danny Boyle; Com: James Franco, Lizzy Caplan, Kate Burton]
Ano: 2010 (EUA)
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Um site inglês postou uma brincadeira com os cartazes dos filmes indicados ao Oscar 2011: “Se os cartazes dos filmes indicados contassem a verdade”. No caso de 127 horas, o que deveria ser revelado era algo do tipo “Você tem 85 minutos antes que ele corte o braço fora”. Tem spoiler melhor que esse?

Que o personagem Aron Ralston (interpretado por James Franco), ao explorar sozinho um cânion em Utah, fica preso 127 horas numa fenda depois do deslocamento de uma rocha que prende o seu braço e, para se salvar, acaba tendo que cortá-lo, não é nenhum segredo. Mas sinopses não oferecem premissas para a dedução de um filme, nunca se sabe como argumentos como esse, que, sinceramente, é até batido, vão ser desenvolvidos na tela.

Todo o mérito de 127 horas está no caminho escolhido pelo diretor Danny Boyle para contar essa história. Na introdução orquestrada deslumbrantemente, vemos Ralston se preparando para deixar a sua casa rumo à natureza, apresentada num ritmo alucinante em toda a sua exuberância. Ele tem com ela uma relação totalmente sensual, como fica claro nas sequências onde encontra duas turistas perdidas e as leva às delícias que um salto em queda livre por uma fenda que termina num lago de tom azul pode proporcionar. Logo em seguida, pouco depois de se despedir das moças, num descuido, acontece o que todo mundo sabe que vai acontecer.

Por mais que seja um filme sobre o velho tema da superação, ou da relação perigosa entre homem e natureza, o roteiro de Simon Beaufoy (baseado no relato biográfico do próprio Ralston) valoriza o prazer de estar acolhido no meio natural e também o prazer que se recebe em troca ao desafiá-lo. A estética publicitária de Boyle nesse filme realça essa dimensão, as imagens precisam ser desejáveis, como num comercial, para que captemos aquela atmosfera luxuriante. O crítico Marcelo Janot, do Globo, encontrou nessa estética um defeito grave, principalmente pelo que ele julga ser um constrangedor merchandising de marcas como Gatorade. Ralston, quando está com sede, se lembra constantemente de imagens de garrafas molhadas sendo abertas com estardalhaço, refrigerantes borbulhantes, etc.. Ora, essas imagens publicitárias operam como signos dos nossos desejos o tempo todo. Quem nunca pensou numa Coca-Cola num dia de calor escaldante que atire a primeira pedra!

Quase todas as lembranças de Ralston na solidão daquele buraco são sensoriais. Corpos nus na neve, a cama da namorada. Esse ponto de vista retira o filme da rota do dramalhão que ele poderia seguir, dão ritmo e oferece a James Franco a chance de brilhar absoluto pela primeira vez em sua carreira, ao sustentar sozinho um filme inteiro sem cansar o espectador. Ele grava vídeos para a família, tenta deslocar a pedra com o material que tem, tira fotos, ri, se desespera e quando beira o descontrole, toma a decisão fatídica.

127 horas tem, no fundo, uma dimensão trágica. Mesmo o sujeito mais autoconfiante do mundo não pode pretender ter o controle total sobre a resultante de cada passo que dá, nem que uma rocha solta, como que à sua espera, tenha que lhe mostrar isso da pior maneira possível.

"A saída do museu é pela loja de souvenirs, senhor."


Na Panela: Exit through the gift shop [Direção: Banksy]
Ano: 2010 (Inglaterra)
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Dos dois documentários sobre arte indicados ao Oscar deste ano, Exit through the gift shop é o mais bem sucedido, embora os catadores de material reciclável de Lixo extraordinário sejam comoventes. Mas enquanto a linguagem do segundo é errática e perde para a grandeza dos personagens, a do primeiro é tão precisa que até se dá ao luxo de misturar fidelidade jornalística com ficção, sem perder o foco duplo de prestar um tributo a street art e de ironizar o mercado de arte.

Exit foi dirigido por Banksy (que nunca revelou a sua identidade e que ninguém sabe se é um artista ou um coletivo), embora eu tenha dúvidas em relação a veracidade do crédito devido a algumas informações que o filme deixa cair como que sem querer. Voltarei a esse assunto no final do texto.

A estrutura é a seguinte:

Logo no início, Banksy revela que o mote é mostrar como um documentarista que queria fazer um filme sobre ele se tornou o personagem documentado. Trata-se de Thierry Guetta, um francês que mora na Califórnia viciado em filmar. Sem querer, Thierry entra no círculo da street art ao registrar o trabalho de um primo, conhecido como Space Invader, e acaba recolhendo material de um leque enorme de artistas cujas ações clandestinas em espaços públicos ainda eram lançadas na vala comum do vandalismo, mas que pouco a pouco ganharam notoriedade. É o caso de Shepard Fairey, autor de uma famosa imagem de Obama que rodou os Estados Unidos e caiu na internet, ainda na época das eleições presidenciais. Ou seja, contar a história do material de Guetta, no seu olhar amador, é também contar a história recente da street art sem didatismos maçantes, o que é uma estratégia narrativa bem interessante.

E como Banksy entra nessa roda? Ora, depois de registrar tanta gente em ação, ele era o único que faltava no arquivo de Guetta, que desejava ardentemente o encontro quase impossível com o misterioso artista. Quase impossível, porque um dia Banksy precisou de apoio para algumas de suas intervenções em Los Angeles e acabou chegando, por meio de Space Invader, ao nome confiável de Guetta, a quem concedeu gravar imagens sem que aparecesse seu rosto.

Até aí, somos convencidos pelo fascinante percurso de coincidências que levaram àquele estado de coisas. Os artistas da rua estavam indo parar nas galerias, o próprio Banksy se tornou um expoente nesse processo ao conquistar cifras altíssimas no mercado de arte. Estava na hora, portanto, de mostrar a certidão de nascimento da street art e nada mais oportuno que construir um documentário a partir do material inigualável de Guetta. Mas ele não tinha competência nenhuma como editor, de modo que Banksy assume a tarefa de selecionar o material e incentiva Guetta a seguir outros rumos, quem sabe até entrar para o time dos artistas.

É o que ele faz. Cria um codinome (Mr. Brainwash, Sr. Lavagem Cerebral), cria um ícone que possibilita identificar inequivocamente intervenções urbanas como suas, contrata pessoas para realizar o trabalho gráfico, etc. Ora, o filme começa a descortinar as engrenagens técnicas nas quais Guetta desenvolve seu trabalho. A questão não é talento ou vivacidade das idéias, mas o modo como as operacionaliza, até chegar ao ápice de realizar uma exposição solo cheia de pastiches da street art e da pop art, um sucesso comercial e de crítica devido ao hype. A promoção extrema do nome de Guetta na imprensa e o apoio dado a ele por gente consagrada como o próprio Banksy o transformaram num artista de sucesso fabricado. Está dado o outro lado da moeda: após prestar o tributo aos artistas de rua, Banksy utiliza Guetta para ironizar o mercado e a crítica irresponsável de arte.

Aí vem a pulga atrás da orelha... Tudo é tão eficiente, tudo é tão perfeito, Guetta é tão extravagante e engraçado que parece ser um personagem criado para os propósitos de Banksy. Um documentário quadrado é tudo que não se espera de um artista como ele, que adora confundir. Partindo desse ponto, não dá para ignorar que podemos estar diante de uma das obras mais provocativas dele. Em certo momento, Guetta diz que não precisa fazer nada, basta contratar pessoas para realizar tecnicamente as obras, assim como gente importante como Damien Hirst faz. Exit through the gift shop é tão bem elaborado, que nos faz perguntar: Se a arte contemporânea permite tal procedimento, o que impede Banksy de ter contratado um bom cineasta para realizar o documentário a partir de uma idéia sua e apenas assinar a direção? Se as artes plásticas já absorveram essa prática, o cinema ainda presa muito a “assinatura” do criador. Banksy estraga a festa e, como punição, caso ganhe o Oscar no próximo dia 27, não poderá subir ao palco para receber a premiação sem se identificar, como determinou a Academia. Uma pena, pois seria delicioso ver alguém vestido com uma máscara de macaco fazer o discurso de agradecimento. Ou dois. Ou três. Ou seis macacos. "Ele" é quem decide.

Lixo Extraordinário: Gente extraordinária


Na Panela: Lixo Extraordinário [Direção: Lucy Walker; Co-direção: João Jardim, Karen Harley]
Ano: 2010 (EUA/Brasil)
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Entre 2007 e 2009, o artista plástico brasileiro Vik Muniz trabalhou em conjunto com catadores de material reciclável do aterro sanitário Jardim Gramacho, que recebe boa parte do lixo da cidade do Rio de Janeiro e da baixada fluminense. Todo o processo foi captado em vídeo, dando origem a Lixo Extraordinário, documentário que ganhou destaque na imprensa nacional após ter sido indicado ao Oscar 2011. O filme foi exibido em diversos festivais internacionais no último ano, conquistando prêmios nas votações de preferência do público, mas foram raros os prêmios da crítica. Isto diz muito.

Todos os defeitos de Lixo Extraordinário são imediatamente perceptíveis. A estrutura dramática do documentário parte do lugar-comum do artista descontente, buscando inspiração num momento de paralisia após o reconhecimento internacional maciço de seu trabalho e do trânsito fácil conquistado no mercado de arte desde a maravilhosa série Crianças de Açúcar. Nela, Vik retratou crianças cortadoras de cana na América Central, construindo as imagens com o mesmo açúcar que retirou delas o futuro. De algum modo, ele desejava que seu trabalho pudesse novamente ser construído numa perspectiva humanista e política, de modo que a idéia de retratar trabalhadores de Jardim Gramacho usando lixo como material expressivo, somada à idéia de reverter a renda da venda de algumas obras em benfeitorias cai como uma luva. Ora, o problema é que essa introdução é forçada e artificial pela insistência do artista em mostrar o seu engajamento.

Tudo fica muito mais interessante quando são os catadores que assumem o centro da tela e deslocam o ponto de vista inicial do artista, que parecia até mesmo desejar encontrar um ambiente desolador e chocante no qual pudesse doar alguma dignidade a quem lá encontrasse. Acontece que em Gramacho, a despeito do fato de que a manipulação do lixo é algo repulsivo para quase todo mundo que não tem que tirar dele o ganha pão, é um lugar organizado. E quem trabalha lá, por mais degradante que seja conviver com o cheiro horrível e com a sujeira, além de vez ou outra se deparar com um corpo em decomposição, o faz por ser uma solução viável em termos financeiros, devido à crescente demanda pela reciclagem de materiais como o plástico.

Vik então seleciona alguns “personagens” de Gramacho, dá voz a eles, deixa que contem suas histórias, os fotografa e os contrata para recolher o material necessário para a reconstrução das imagens em estúdio. E são os próprios catadores, orientados por ele e sua equipe, que realizam as obras. Eis que aí está outra fissura: Vik tenta o tempo todo costurar um discurso de que a arte pode mudar a vida das pessoas e que o processo que ele propôs pode exemplificar essa idéia, a ponto de a edição inserir um debate pseudo-exaltado onde uma mulher defende, com razão, que tirar pessoas do lixão, lhes mostrar uma vida mais interessante numa área menos degradada da cidade e depois devolvê-las ao lugar de origem com a consciência tranqüila não é ético.

Fato é que Vik Muniz não sabe se a arte tem o poder de mudar alguém. É inegável que a participação em um processo artístico (uma das mais altas realizações do espírito, como diria Hegel) dignifica aquelas pessoas, recupera a auto-estima delas, mas e daí? Foi a arte ou o mundo criativo de um artista bem sucedido (cercado de pessoas bacanas, dinheiro para bancar suas idéias, colecionadores loucos para adquiri-las, exposições lotadas) que abriu o horizonte de pessoas como Tião, o presidente da Associação de Catadores que teve sua imagem comprada num leilão em Londres? A preocupação em dar enfoque ao poder transformador da arte é tão grande que os catadores são questionados, a certa altura, sobre o que mudou na vida deles após aquela experiência. Óbvio que algo terá mudado. Mas até que ponto as obras de arte resultantes desse percurso são um índice daquela mudança? É essa resposta que Lixo Extraordinário não consegue nos dar, mas dá a pensar.