terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mariana Aydar: Cantora inteligente, aqui te sigo


Na Panela: Show Mariana Aydar - Cavaleiro Selvagem, Aqui Te Sigo
Onde: Teatro SESC Ginástico - Centro.

Cavaleiro selvagem, aqui te sigo, lançado em outubro, é o disco brasileiro pelo qual passei o ano inteiro esperando. Não, não sou um fã xiita da Mariana Aydar, apesar de acompanhá-la com atenção (e com gosto...) desde que ela apareceu no início da última década junto com uma verdadeira enxurrada de novas cantoras. Ou seja, minha espera não tem nada de pessoal. Apenas fico sempre à espreita daquela obra que, logo na primeira audição, dará o seu recado musical fora da mesmice que assola a tal emepebê. Não, também não sou admirador inveterado de experimentalismos modernosos feitos dentro do velho e bom formato da canção brasileira e que, apesar da pose, não levam a lugar nenhum. Eu gosto mesmo é de quem consegue, por meio do filtro da ousadia sonora, oferecer ainda assim o núcleo duro da canção popular. Não apenas a palavra cantada, mas a palavra deliciosamente cantada. Afinal, "aquela música se não se canta não é popular", como já dizia Haroldo de Campos.

O terceiro e novo disco da Mariana Aydar é um verdadeiro combo musical e atinge, na maioria de suas faixas, o prazer da canção. Mas o mercado ainda não a sancionou, como fez com Roberta Sá, outra cantora surgida na mesma época, e talvez seja isso que permitiu a Mariana se dedicar ao projeto de um disco que, embora artisticamente bem sucedido, não é simples ou fácil.  Por outro lado, se não compartilha da popularidade de Roberta, Mariana tem em comum com ela a exigência básica que se faz a toda intérprete, de toda cantora que não pretende gravar unicamente obra autoral: a inteligência na escolha do repertório, a capacidade de tornar irrevogavelmente seu aquilo que decide gravar. 

Essa é uma tradição sólida da música brasileira (Elis, Gal, Bethânia, Nana, Clara, Beth, Alcione, Simone, Zizi,   Cássia, sem contar as grandes divas da era pré-bossa), diluída a partir do final dos anos 80 com o aparecimento de cantoras-compositoras que, por questões mercadológicas, gravam majoritariamente em seus discos qualquer esboço de canção desde que seja seu e que não são herdeiras da excelência de artistas como Rita Lee e Marina Lima, para ficarmos apenas no terreno do pop. E na atual cena, onde a cada minuto aparece uma nova cantora, acredito que só a inteligência que está por detrás da seleção do repertório, do conceito do disco que reverbera na construção dos arranjos, é o que pode separar o joio do trigo. Cavaleiro selvagem, aqui te sigo mostra de que lado da trincheira Mariana está e retira dela o rótulo insípido e insuportável de "cantora de sambas" que se espalhou feito viral nos últimos anos no Brasil  e que serviu a tanta gente e para os mais diversos objetivos.


Não foi em vão (Thalma de Freitas) é emblemática. A melhor gravação brasileira do ano, talvez. Arranjo excepcional, como não se encontra facilmente por aí, em total simbiose com o canto, para se ouvir bem alto e cantando junto. Na mesma linhagem está Os passionais (Dante Ozzetti/Luiz Tatit), outra canção obscura que vem a luz neste disco. Na outra ponta, temos canções conhecidíssimas na voz de seus intérpretes originais, embora não tenham sido incessantemente regravadas por outros artistas, e que ganham releituras improváveis. É o caso de Vai vadiar (Alcino Correa/Monarco) do Zeca Pagodinho, que ressurge mais soturna e passional, Nine out of ten (Caetano Veloso), uma das melhores do antológico álbum Transa (1972), e, por fim, a mais surpreendente e acachapante de todas as abordagens, Galope rasante (Zé Ramalho). Essa última ganha uma levada pop contagiante e é um dos ápices do disco. A compositora Mariana Aydar também comparece com muita competência em Solitude, parceria com Luisa Maitá (outra boa compositora da cena paulistana) e Jwala. 

Todas estas canções, com exceção de Nine out of ten, foram apresentadas no primeiro show do disco em solo carioca, que foi gravado para o programa Palco MPB, da MPB FM. O show também incluiu músicas como a deliciosa Tá? (Carlos Rennó/Pedro Luis/Roberta Sá), Aqui em casa (Mariana e Duani) e interpretações densas de Zé do Caroço (Leci Brandão), e Peixes (Nenung), o precioso achado do disco anterior, Peixes, Pássaros, Pessoas (2009). No bis, que começou em clima meio improvisado somente ao som de um cavaquinho e depois cresceu com o auxílio da percussão, a canção Florindo (Duani), um dos sambas mais bonitos do Peixes, foi conectada com Minha missão (João Nogueira), que é, por si só, uma verdadeira paulada poética ("Quando eu canto, a morte me percorre").

As ressalvas à apresentação não são estritamente musicais.O único equívoco do roteiro foi a inclusão de Palavras não falam, música da lavra da Mariana que tem letra fraquíssima, apesar do relativo sucesso. Em seu lugar, seria mais eficiente Deixa o verão (Rodrigo Amarante), do primeiro disco. No geral, fica a impressão que a performance da cantora pode ser lapidada por um bom preparador vocal (para uma maior qualidade nos seus graves) e um diretor de palco seria providencial para orientá-la, pois ela se move ao acaso e não raro termina as canções de costas para o público. Além disso, um gestual mais bem construído pode enfatizar as  intenções de suas interpretações.

Mas alguém que tem nas mãos um material musical tão sólido não merece ser condenado por padecer de uma falha que, de Marisa Monte a Vanessa da Mata, de Ana Carolina a Roberta Sá, quase toda cantora brasileira possui. A maioria, com exceção de Maria Rita, Sílvia Machete e Karina Buhr (para ficarmos somente nas relativamente "novatas"), não sabe usar o corpo no palco.

Palmas para Mariana Aydar, que já tem um tesouro do qual poucas intérpretes brasileiras de sua geração podem se gabar: repertório. Quem tem voz e não tem repertório não tem nada. Cantora inteligente, aqui te sigo. E sempre em frente.

***

E as vaias? Vaias para Maria Rita, que lançou um disco preguiçoso chamado Elo

Na capa, a pose sensual contra a luz já entrega o conteúdo. A intérprete que tem a maior voz surgida nos anos 2000 mostra, pelo que se deduz a partir do seu segundo disco, nenhum conhecimento dos baús da música brasileira (tanto a feita hoje quanto a que se fez), tampouco é assessorada por quem o tem (como é o caso de Roberta Sá, orientada pelo marido Pedro Luis). Nas entrevistas, ela disse que a gravadora a pressionou pelo sucessor de Samba meu (2007) e, como já estava na estrada com um show de transição, resolveu gravá-lo. Elo não é, verdadeiramente, um elo em sentido forte. Em termos de repertório, ele recupera o começo da carreira de Maria Rita, mas não faz síntese alguma entre o passado e o presente, pois, em termos de som, reitera a opção por arranjos de piano-baixo-bateria que perseguem invariavelmente um clima jazzy que tanto se identifica aos primeiros discos da cantora quanto a engessa.


Elo é composto por canções que foram preteridas no disco de estreia (2003) ou em Segundo (2005), e acena para alguns sambinhas que sequer roçam o balanço das melhores faixas do disco anterior. Por fim, não aponta para futuro algum. Foram 4 anos de intervalo entre um disco e outro e, apesar disso, Maria Rita parece não ter tido tempo para pesquisas. 

A única coisa que amarra todas as canções agrupadas em Elo é a voz de Maria Rita e o desejo dela de cantá-las. No entanto, Santana (Junio Barreto/Joao Carlos Araujo) não acrescenta nada à gravação da Gal Costa no disco Hoje (2005), assim como Conceição dos Coqueiros (Lula Queiroga/Lulu Oliveira/Alexandre Bicudo) não acrescenta nada à gravação de Elba Ramalho em Qual o assunto que mais lhe interessa (2007). Só um arranjo absurdamente genial poderia tirar A história de Lily Braun (Chico/Edu Lobo) do mar de regravações dessa canção e que também não acrescentaram nenhuma informação nova à gravação da Gal em O grande circo místico (1983). Vide a versão medíocre de Maria Gadu feita recentemente. Já a gravação de Menino do Rio segue de perto o tom lânguido e sensual da versão de Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental (1979). As únicas gravações realmente relevantes do disco e aptas a ser identificadas à Maria Rita e que se incluem no grupo de canções que ela pode, mesmo não sendo compositora, chamar de suas, são a bela Perfeitamente (Francisco Bosco/Fred Martins) e Só de você (Rita Lee).

Aquilo que Cavaleiro selvagem, aqui te sigo tem de sobra, é o que falta a Elo e o faz um álbum sem cara: uma proposta musical consistente. É um disco ruim? Não. Mas também não é relevante. Na era da internet, do youtube, dos downloads, como pode um artista justificar a existência de um disco que não tem o peso de uma obra de carreira? Que não tem conceito? Realmente, somente interesses comerciais da gravadora respondem à pergunta. 

Maria Rita se justificou afirmando que este é um álbum para fã. Não considero o gesto uma demonstração de carinho com o público, pois fã sempre aceita qualquer coisa, inclusive porcarias. E diante de tantas cantoras disputando espaço, pouco custa abandonar quem demora para dizer a que veio.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Jardim: no palácio das memórias


Na Panela: O Jardim [Direção e Texto: Leonardo Moreira; Com: Cia Hiato - Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli, Thiago Amaral, Edison Simão]
Onde: Caixa Cultural - Centro.

Em O Jardim, cuja montagem exige um teatro de arena, o público se vê logo incomodado pelo distribuição espacial dos atores e do cenário composto por caixas de papelão, enquanto procura deduzir qual lugar oferecerá o melhor ponto de vista para assistir ao espetáculo. Os últimos a entrar não tardam a lamentar os lugares laterais que lhes sobraram e que aparentemente limitarão o contato visual com a cena, que insinua, estranhamente, uma concepção que privilegiaria aqueles que conseguiram lugares frontais. No entanto, essa impressão é dissipada quando o jogo começa e a ação, apoiada por uma revolução na disposição do cenário (que cria barreiras físicas), é dividida em três, cuja unidade só será recuperada no desfecho.

Ou seja: dependendo do lugar onde você se senta, são três os começos possíveis para o espetáculo e três são as dinâmicas de compreensão do significado das outras duas ações que lhes sucedem. Eu, por exemplo, acompanhei ações sucessivas e lineares no tempo, enquanto os outros dois grupos em que o público é dividido as acompanharam  numa sequência não-linear. 

Diante de tanta riqueza semântica e de uma polifonia literal (ouvimos todas as vozes o tempo todo, embora não consigamos compreender o que se passa para além da cena que transcorre diante de nós), não é licito oferecer uma sinopse fiel do conteúdo de O Jardim. Para falar da memória e do esquecimento, o dramaturgo e diretor Leonardo Moreira criou um mosaico onde três momentos se comunicam: a crise de um homem e uma mulher no fim do casamento (em 1938), a última festa que duas irmãs preparam para o pai que sofre do mal de Alzheimer antes de mandá-lo para um asilo (em 1979), e uma mulher decadente e sua empregada, que gravam um vídeo antes de abandonar a casa onde sua família viveu por décadas, agora invadida por pessoas que reclamam a posse daquela propriedade (2011). Estas três ações lentamente começam a lançar luz uma sobre as outras e, por fim, todas as barreiras espaciais e temporais são rompidas num grande ápice emocional. 

O Jardim faz do tempo o seu tema e precisa, pela forma narrativa ousada, que a memória do espectador esteja constantemente ativa a afim de contribuir para a riqueza da experiência que o espetáculo põe em curso. O resultado é um teatro humanista e comovente, cuja linguagem sofisticada nunca é hermética. Pelo contrário, nos convida a construir, pelo exercício de pensamento, a solução de seu quebra-cabeças. O que resulta deste processo não é a pretensa autonomia da história daquelas personagens em relação à nós, espectadores passivos, mas as nossas versões narrativas particulares que conectam todos aqueles momentos num jogo muitíssimo frutífero. 

Esta é, sem dúvida, uma das melhores peças que passaram pelo Rio de Janeiro neste segundo semestre de 2011. Sensacional!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ato de Comunhão: A história de João (sem Maria)


Na Panela: Ato de Comunhão [Direção e Interpretação: Gilberto Gawronski; Co-Direção: Warley Goulart; Texto: Lauro Vilo; Tradução: Amir Harif]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.

Em 2002, veio a tona um caso bizarro. O alemão Armin Meiwes, então com 41 anos, havia canibalizado Bern Brandes, 42 anos, um engenheiro que ele havia encontrado por meio de um anúncio na internet. Tudo foi gravado e, o mais surpreendente, com o consentimento de Bern. É este o mote do monólogo Ato de Comunhão, escrito pelo argentino Lauro Vilo: Armin não é Hannibal Lecter.

O texto é estruturado em três momentos da vida de Armin, sendo o último a narrativa do encontro entre os dois homens. Antes, tomamos contato com um episódio da infância do protagonista (sua festa de aniversário de oito anos), onde detalhes de sua relação afetiva com a mãe, dentre outros elementos simbólicos, são revelados. Em seguida, passamos bruscamente para o velório da mãe e a solidão da perda, que abre espaço para a imersão total de Armin no universo do sexo virtual.

Nenhuma destas passagens que antecedem o clímax da peça servem, contudo, a psicologismos baratos ou oferecem justificativas patológicas para o desejo, digamos, estranho de Armin ou, ainda,  pretendem simplesmente absolvê-lo. O texto, organizado na forma de memórias, escapa a estes enquadramentos reducionistas principalmente pelo seu tom seco, metódico. O cenário, composto por alguns objetos que ocupam funções variadas (um espelho, uma cadeira de barbeiro, um notebook) e que interagem com a iluminação, o figurino preto, os vídeos projetados nas paredes, a voz em off do personagem que ora é acompanhada em uníssono por Gilberto Gawronski em cena, ora em descompasso, formam em conjunto uma caixa de ressonância um tanto sombria e intimista da vida daquele homem. Aliás, a interpretação de Gilberto é precisa, contida e passa longe da tentação expressionista que ronda este tipo de personagem. Ele é louco? Ele é lúcido? Estas não parecem ser questões formais decisivas tanto para o intérprete quanto para a montagem em geral e, por isto, a peça se torna mais significativa e reflexiva, sem sair do registro trágico e sem cair na espetacularização do tema. 

Deste modo, a complexidade de Armin é preservada. Um homem aparentemente comum, que viu no canibalismo a possibilidade de satisfazer uma fantasia que o acompanhou durante toda a vida e que encontrou na internet a metade que lhe faltava: Bern, alguém que tinha obsessão em ser comido. Numa entrevista dada já na cadeia, após ser condenado a prisão perpétua, Armin disse que gostava quando a mãe lia a história de João e Maria e que a parte em que a bruxa se prepara para comer João era a mais interessante. E completou, para o entrevistador: "Você não imagina quantos Joãos estão circulando aí pela internet".

Obs.: Os espetáculos da curta temporada no Teatro Glaúcio Gil comportam um público de 30 pessoas apenas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sem mim: O caleidoscópio do Grupo Corpo


Na Panela: Grupo Corpo - sem mim [Coreografia: Rodrigo Pederneiras; Iluminação e Cenário: Paulo Pederneiras; Figurinos: Freuza Zechmeister]
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Segundo o dicionário, caleidoscópio é um aparelho óptico formado por um tubo de cartão ou de metal, com pequenos fragmentos de vidro colorido que se refletem em pequenos espelhos inclinados, apresentando, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis. Eu só tinha colocado o olho num desses uma única vez na vida, até perceber que o espetáculo sem mim, do Grupo Corpo, pode, de algum modo, se enquadrar na mesma categoria.

Eu achava que Onqotô (2005), espetáculo que celebrou os 35 anos da companhia, era uma espécie de currículo do Rodrigo Pederneiras, um resumo da sua obra. Na série de coreografias dos anos 90, parecem ser lentos os avanços no vocabulário dos movimentos e a concepção geral dos espetáculos se repete (mesmo com o acabamento de altíssimo nível que deu fama ao Grupo, com cenários e luz de Paulo Pederneiras e figurinos da Freuza Zechmeister), com exceção de Bach (1996, com releituras de obras do compositor alemão feitas pelo Uakti na trilha sonora, cujo tom sublime e religioso contamina a coreografia), espetáculo  bastante conciso que parece romper com a lógica dos antecedentes e que possui alguns dos melhores pas-de-deux criados pelo coreógrafo21 (1991) é um marco e uma espécie de carta de intenções do Grupo Corpo, com trilha do Uakti (Tema em Sete é inesquecível); Nazareth (1993), com trilha do Zé Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth, envelheceu mal; e Sete ou Oito Peças para um Ballet (1994), à reboque da trilha sonora sensacional do Philip Glass interpretada pelo Uakti, é uma espécie de 21 Reloaded, porém melhor e com um dos desfechos mais arrebatadores do repertório. Depois de Bach, a estrutura básica de 21 é retomada em Parabelo (1997), com trilha de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, que explode no final em Xique-Xique, música arrasadora que torna a ovação algo inevitável, embora a coreografia tenha poucos grandes momentos (como em Baião Velho, onde se destaca um solo masculino ótimo). Se a estrutura herdada de 21 pareceu dar sinais de cansaço, nota-se, contudo, que os movimentos tornaram-se mais complexos e mais expansivos. Benguelê (1998), que possui talvez a melhor trilha sonora daquela década, composta por João Bosco, abre um leque mais variado de dinâmicas e aparecem regiões antes não exploradas por Pederneiras, como é o caso das brincadeiras com a gravidade tanto nos troncos torcidos dos bailarinos em direção ao chão quanto nos braços soltos e ondulantes. Além disso, o espetáculo tem climas variados, ao contrário do tom uniforme de Parabelo. O saldo, no final das contas, é evidentemente positivo: que outra companhia de dança brasileira pôs no bolso no mínimo 3 grandes obras durante a década?


O Corpo (2000) é um divisor de águas, não apenas porque inicia uma nova etapa e tenta se desvincular do tom regionalista e “brasileiro” dos espetáculos anteriores, mas porque é o um dos mais redundantes do Grupo. A trilha de Arnaldo Antunes é boa, urbana, diferente das outras, mas pesa. E Rodrigo construiu o balé com um naipe restrito de movimentos, alguns isoladamente interessantes, mas que soam repetitivos ao longo dos seus pouco mais de 40 min. Nem a concepção visual geral surpreende aqui.

Eis que então começa uma espécie de revolução. De 2002 pra cá, ano de Santagustin, com trilha de Tom Zé e Gilberto Assis, a linguagem coreográfica e o estilo de Rodrigo Pederneiras atingiram uma dimensão, digamos, autofágica assustadora. Em Lecuona (2004), ele provou (o que já sabíamos desde Bach) ser mestre da composição de pas-de-deux. E em Onqotô (2005), com trilha de Wisnik novamente e Caetano Veloso, fez um resumo da sua obra e deu um passo adiante. Foi nesse ponto que começamos.

Eu disse que achava que Onqotô era uma espécie de resumo da obra de Pederneiras, porque é uma obra madura, que reúne as características do estilo que ele carrega desde 21 (movimentos centrados nos quadris, a maneira como ele agrupa os bailarinos etc.) por meio de uma espécie de reciclagem das outras coreografias, mas algo que não sei explicar mudou. Não é mais repetição. É aquilo que já vimos sendo recombinado, reprocessado, aparecendo, enfim, como algo novo. Não é picaretagem não, é um modo de fazer dança. Tanto que no meio desses procedimentos está Mortal loucura (dois casais em dinâmicas sexuais no chão, algo nunca visto antes em seus trabalhos), um dos ápices da criatividade do Rodrigo.

Eu disse que achava, mas não é só Onqotô, hoje, que pode ocupar essa posição. Porque depois dele veio Breu (2007), com uma trilha acachapante e “escura” do Lenine, mote para o espetáculo mais denso da companhia, radicalizando os procedimentos do espetáculo anterior. Se este  resumia tudo e ainda explorava o chão, então Breu resumia tudo, explorava o chão de maneira mais expressiva, torcia e contorcia a lógica dos pas-de-deux criados anteriormente e, ainda por cima, dava um passo adiante mostrando que o Grupo Corpo não vivia somente da reprodução do passado. Uma obra obra-prima.

Em Ímã (2009), com trilha completamente instrumental de Domenico, Moreno Veloso e Kassin (deliciosa, por sinal), Rodrigo Pederneiras resumiu tudo, explorou construções de pas-de-deux no chão e dinâmicas aéreas curiosas, propôs vários solos e, como se não bastasse, tudo isto debaixo de uma luz impressionante, tátil, volumétrica, onde seus bailarinos se moviam como partículas livres sem compromisso algum com narrativas, num jogo de cores de tirar o fôlego.

Todo esse blablabla é pra dizer que eu estava pessimista em relação à sem mim. Reparei que a trilha demorou pra ficar pronta e matérias lacônicas foram publicadas nos jornais em julho, onde Paulo Pederneiras parecia ainda não ter finalizado o processo de criação do cenário. Quando o espetáculo finalmente estreou em São Paulo, Helena Katz, uma das poucas críticas de dança que prestam, teceu mil elogios à sua concepção visual geral e, em relação à coreografia, disse que o Rodrigo tinha sido bem sucedido ao propor movimentos ondulados a partir dos pés dos bailarinos e que ele havia aproveitado trechos inteiros de outros balés, num procedimento de criação que merecia atenção. Ora, deduzi logo: Rodrigo não teve tempo para criar e fez uma colagem.

Que tolo eu sou.

Sob o som de uma trilha mestiça, delicada, ora empolgante, ora introspectiva (de Carlos Nuñez e Wisnik a partir de cantigas de Martin Codax, do século XIII), o que se revela desde o instante em que o tecido que compõe o cenário é erguido para dar passagem aos bailarinos (momento tão belo e tão simples) é um dos melhores espetáculos do Grupo Corpo. sem mim equilibra perfeitamente a pura felicidade dos requebrados com o corpo tenso da bailarina solitária. E são 20 anos que se fazem presentes no palco. Há referências coreográficas claras, por exemplo, de Benguelê (os saltinhos de “marionete”), 21, Parabelo, O Corpo. A fluidez que acompanha os solos de Mariana do Rosário, por exemplo, já estavam em Onqotô e reapareceu em Ímã. Um trecho inteiro de Bach foi utilizado, sugerido pela própria trilha (que se apropria do Prelúdio da Suite I para cello, em ritmo contagiante) e até mesmo Seis Instantes de Solidão, solo de Jacqueline Gimenes coreografado pelo Rodrigo, nitidamente se faz presente no solo de Cassilene Abranches e na dinâmica que antecede o belíssimo pas-de-deux dançado debaixo do tecido do cenário. Mas o que surpreende mesmo é que todas as dinâmicas de grupo da coreografia são complexas (e também complexificadas pelas informações que os figurinos acrescentam), quando percebemos os padrões, eles já mudaram, num jogo incessante. Se em Ímã alguns bailarinos tinham mais espaço que outros, em sem mim todos brilham. É como se tudo o que foi criado até então por essa equipe excepcional tivesse sido fragmentado e inserido no aparelho ótico do palco, apresentando, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis

Genial.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Adultério: não é crime, mas tem o seu preço


Na Panela: Adultério [Direção: Daniel Herz; Texto e Interpretação: Cia Atores de Laura - Ana Paula Secco, Anderson Mello, Leandro Castilho, Márcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro.

Segundo o depoimento dos integrantes da Cia. Atores de Laura (http://www.atoresdelaura.com.br), criada em 1992, o objetivo da companhia é pensar o ator como força principal do jogo cênico, base onde se assentam posteriormente os trabalhos da direção, da cenografia etc. Adultério, espetáculo que encerra sua temporada nos próximos dias, é um fruto inteligente desta proposta de criação coletiva.

São duas as suas linhas de força: (1) o tema do adultério, que se desdobra nas suas mais variadas faces (dos dilemas matrimoniais inevitáveis, tanto dos casais heterossexuais quanto gays, até personagens que escapam do controle do autor traído) por meio de (2) uma narrativa fragmentada, onde um episódio desgarra-se do outro continuamente, num jogo ininterrupto onde a estrutura ficcional do que está sendo representado acaba sempre por ficar à mostra. 

Essas "realidades" que se descolam uma da outra ou se sobrepõem nos diversos planos do palco ecoam a inspiração básica do texto em Pirandello, que aparece ora enquanto questão metafísica subjacente à cena (o que é ilusório e o que não é?), ora enquanto citação da obra mais famosa do dramaturgo italiano, Seis personagens à procura de um autor, no modo como alguns personagens se tornam autônomos e enxergam a si próprios como potências ativadas indefinidamente pela imaginação do espectador.

Parece tudo muito complexo, mas não é, embora a mulher que estava sentada ao meu lado com uma bolsa Vuitton tenha dito ao marido que não estava entendendo nada ... É um espetáculo muito bem humorado, com elenco afinado e equilibrado, cujo êxito, mesmo considerando que o processo criativo tenha se concentrado no trabalho do ator e na valorização da coletividade, também depende em larga escala do ótimo trabalho de direção que alinhavou tudo isso. A absurdamente bem marcada sequência final do espetáculo, que consegue a proeza de rebobinar em  alguns minutinhos tudo que vimos desde o início, é sensacional.

Saldo: Adultério é de uma promiscuidade teatral saborosíssima.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

R&J de Shakespeare - Juventude Interrrompida: Brincando com o clássico


Na Panela: R&J de Shakespeare - Juventude interrompida [Direção: João Fonseca; Adaptação: Joe Calarco; Tradução: Geraldo Carneiro; Com: Rodrigo Pandolfo, Pablo Sanábio, Felipe Lima e João Gabriel Vasconcellos]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro

A peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, embora eu nunca tenha visto alguém a lendo no ônibus ou encontrado um exemplar na bolsa da minha mãe, tem um dos enredos mais conhecidos de todos os tempos e, sem dúvida, é um dos clássicos do teatro e da literatura que mais penetrou no imaginário popular e na cultura pop. É quase impossível encontrar alguém que não consiga contar em três ou quatro frases a história dos dois jovens apaixonados de Verona, nascidos em famílias rivais, que termina em morte depois de um malfadado desencontro. Mas essas referências vem de meios como a TV, o cinema e das inúmeras apropriações dessa trama de amor que pipocaram aqui e acolá nestes séculos afora desde o seu aparecimento nos anos de 1590 quando o dramaturgo inglês, trabalhando também sobre material pré-existente, a tornou definitivamente sua.

Assim, quando se decide montá-la, parece que há uma demanda por equilíbrio implícita. O jogo parece estar ganho de antemão devido ao apelo afetivo inegável da história, mas como recontá-la com frescor, para que o público possa de bom grado renovar seu pacto com ela? E como fazer justiça ao texto e à poesia de Shakespeare, que foram preteridos pelo poder dos próprios personagens, que parecem vagar por aí, independentes? São vários os testemunhos: a bela e delicada abordagem do Romeu e Julieta (1968) de Franco Zeffirelli, o modernoso Romeu e Julieta (1996) de Baz Luhrmann, a singeleza arrebatadora de Romeu e Julieta (1992) do Grupo Galpão, montagem antológica que restituiu o texto a uma outra dimensão popular, o teatro de rua. Eis aí a grandeza dos clássicos, incessantemente férteis e, ao mesmo tempo, fornecedores primários de obstáculos para aqueles que pretendem trazê-los à cena.

R&J de Shakespeare - Juventude interrompida, passa no teste com louvor. Na adaptação metalinguística  do texto original feita por Joe Calarco (um sucesso por mais de um ano no circuito Off-Broadway), traduzida para o português por Geraldo Carneiro, quatro rapazes estudantes de uma escola religiosa esperam o cair da noite para jogar o jogo de Shakespeare. No tom da brincadeira, eles se revezam nos principais personagens de Romeu e Julieta, encenando com o que eles tem à disposição (cadeiras, mesas, as próprias roupas) a sequência de episódios que vai desde o baile onde o casal se conhece até a famosa cena final do suicídio, incorporando citações sutis  (a canção Flor, minha flor, do Galpão; A Time For Us, da trilha do filme de Zeffirelli; ou até mesmo o sucesso Rapunzel, de Daniella Mercury) . Se o humor marca a primeira metade deste R&J, o tom dramático é espantosamente sincero na segunda metade. Sim, porque a brincadeira fica séria, inevitavelmente. E porque Rodrigo Pandolfo, que faz as vezes de Julieta, nunca cai no ridículo quando não deve. Já as outras personagens femininas, a ama (Pablo Sanábio, excelente) e a mãe (Felipe Lima), tendem predominantemente para o cômico, com exceção, claro, nos momentos finais.

Aliás, um dos pontos fortes dessa adaptação é justamente o fato de Romeu e Julieta serem interpretados por dois homens, cujos personagens (os estudantes), mesmo cientes do jogo, não se furtam ao despudor que os seus papéis dentro dele (Romeu e Julieta) exigem. Daí resultam cenas de romance sinceras e, para os olhos maliciosos (os meus, por exemplo), também de alta voltagem homoerótica (João Gabriel Vasconcellos, o Romeu, já é, por si só, uma tentação do Diabo. Mas todos eles são muy guapos...). 

Resumindo: é um trabalho surpreendente, que faz jus ao texto de Shakespeare ao mesmo tempo em que coloca em cena o próprio teatro enquanto jogo e, por isso, enquanto atividade liberadora. Palmas para todo o elenco e pro diretor João Fonseca, esse nome onipresente nas fichas técnicas cariocas.  

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O Filho Eterno: Menos é sempre mais


Na Panela: O Filho Eterno [Direção: Daniel Herz; Texto: Cristovão Tezza; Adaptação: Bruno Lara Resende; Com: Charles Fricks]
Onde: Oi Futuro - Flamengo

Um ator excelente, um belo texto, duas cadeiras como cenário e uma boa iluminação compõem a receita econômica e eficiente do monólogo O Filho Eterno, adaptação do livro do paranaense Cristovão Tezza lançado em 2007. Sozinho em cena, Charles Fricks desdobra-se brilhantemente na pele de um escritor (o próprio Tezza) cujo filho nasce com Síndrome de Down, ora narrando, do ponto de vista distanciado de quem olha para o tempo que ficou para atrás, ora presentificando momentos-chave dessa paternidade que se constituiu dolorosamente sob o signo da vergonha numa época em que crianças com a síndrome ainda eram chamadas comumente de mongoloides.

Um filho é sempre a ideia de um filho, como diz o pai logo no início da peça. Uma imagem. Uma promessa de alegria que, naquele caso, se desfez diante de uma sentença irrevogável: a responsabilidade sobre uma criança que não seria nunca como as outras. É esse o tom, não há meias palavras para o desespero em O Filho Eterno. O amor paterno? Uma epifania no cotidiano de quem, de tanto rejeitar  por anos a fio a diferença, acaba por ceder à potência afetiva do abraço da cria.

Ser pai é sempre a ideia da paternidade. Ou seja, é um risco.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Hell


Na Panela: Hell [Direção: Hector Babenco; Adaptação: Hector Babenco e Marco Antônio Braz; Com: Bárbara Paz e Paulo Azevedo]
Onde: Teatro dos 4 - Gávea

Baseado no livro homônimo de Lolita Pille, Hell me atraiu duplamente: pela oportunidade de ver Bárbara Paz atuar e de conferir o rendimento de Hector Babenco como diretor de teatro. Considerando que, à despeito do seu sucesso no cinema, ele se considera essencialmente um homem do palco (como declara no programa da peça), a expectativa era alta. Porém, ela não se confirmou, pelo menos em parte.

Hell, a peça, narra por meio de quadros (demarcados principalmente pela luz e num procedimento que evoca os cortes de cinema) a história de uma garota muito, muita rica, rodeada de amigas igualmente ricas, que vaga por uma Paris de sexo, drogas e... boutiques. À certa altura, a personagem lança na cara do público um dos seus petardos mais lúcidos: como julgá-la por sua futilidade, se tudo o que ela poderia desejar e lutar para obter já estava garantido de antemão pelo dinheiro dos pais antes dela nascer? 

O resultado é uma rotina que oscila entre o vazio, o glamour e a auto-destruição. A adaptação favorece a dimensão trágica da personagem ao confrontá-la com a chance redentora (tanto quanto impossível) do amor despertado por Andrea, um jovem tão rico, bonito e anestesiado quanto ela. E com um material tão explosivo nas mãos, é até desculpável que o resultado, tanto do elenco quanto da direção, não seja equilibrado. Bárbara Paz brilha principalmente na segunda metade do espetáculo, mais dramática e centrada na desintegração psicológica de Hell, mas às vezes perde o tom na primeira metade, deixando de saborear, devido à uma dicção aceleradíssima, o fino sarcasmo da personagem. Já Paulo Azevedo (que estava em Por Elise, na cena em que me emocionei pela primeira vez com o teatro), contrapondo-se ao furacão, compõe um tipo mais racional que soa plano demais, quando deveria ser tão complexo quanto a Hell de Bárbara.

Assim, o veredicto é que, mesmo sendo uma experiência vigorosa pela alta voltagem de seu conteúdo, Hell tem problemas de ritmo originados no formato espacialmente fragmentado da narrativa, que cria por meio da luz belos efeitos estéticos, mas que também prejudica os espectadores que não ocupam lugares com ponto de vista frontal do palco. Com material visceral e instável a cada apresentação, Babendo acaba escorregando como maestro nos pequenos detalhes.

domingo, 29 de maio de 2011

Tatyana: Uma aposta de Deborah Colker


Na Panela: Tatyana - Cia de Dança Deborah Colker
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro



Sabe quando bate aquela vontade de ir embora no intervalo entre um ato e outro de um espetáculo? Foi o meu caso em Tatyana, a nova coreografia da Cia de Dança Deborah Colker, que encerrou a sua temporada carioca de estreia neste domingo. Se você procurar informações sobre a obra no Google, vai descobrir que ela é inspirada num livro do russo Alexandr Púchkin, que narra uma história de amor que se transforma ao passar do cenário rural para o cenário urbano. Esqueça isso. Pra quem não conhece o livro(eu, por exemplo), é quase impossível identificar qualquer narrativa do tipo A+B+C construída por meio da coreografia. Há sugestões, imagens possivelmente conectáveis pela imaginação do espectador. E a dança sempre sofre com esses releases malditos que impõem um ponto de vista literário como chave de interpretação da coreografia! Daquele esquema atribuído ao livro do Púchkin, sobram: uma estrutura-árvore de madeira que ocupa o centro do palco no primeito ato e o espaço diáfano e sombrio no segundo ato. E todo o primeiro ato é de uma chatíce surpreendente, soando mera exibição técnica dos bailarinos. Mas esta má impressão é apagada logo nos primeiros instantes do segundo ato. O palco é seccionado constantemente em vários planos, seja horizontalmente pela luz ou verticalmente por duas telas semi-transparentes, criando belos efeitos (a projeção de formas geométricas ou a ilusão de imagens refletidas num espelho quando dois grupos de dançarinos posicionam-se em planos opostos). E no meio do aparato cenográfico que, no fundo, é simples (contrariando o histórico da Companhia), a coreografia  flui orgânica, mesmo explorando movimentos de base clássica. Ali podemos ver uma coreógrafa madura afirmando seu talento para além do exotismo atlético que fez sua fama nos anos 90.  Tatyana é, sem dúvida, uma aposta de Deborah Colker feita no tabuleiro da dança internacional.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Rio não é São Paulo




As versões eletrônicas de jornais e revistas botam em circulação na internet informações sobre eventos copiadas sem nenhum pudor de releases dos produtores. No site da RioTur, a "Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro", o texto de divulgação do Viradão Carioca (o nome já condena, pois não se trata de uma jornada ininterrupta de shows) começava da seguinte maneira: "Com mais de 50 horas de programação totalmente gratuita, em três grandes palcos ao ar livre espalhados pela cidade (Quinta da Boa Vista, na Praça das Juras em Bangu, Vigário Geral e Arpoador), a Riotur e a Globo Rio apresentam nos próximos dias 20, 21 e 22 de maio a 3ª Edição do Viradão Carioca." Mesmo texto divulgado na página da Rolling Stone, por exemplo. Não há problema algum nessa prática, desde que ela não reproduza a armadilha contida na passagem "grandes palcos ao ar livre espalhados pela cidade". Grandes. Ar livre. Qualidades que evocam a matriz desse evento que o Rio pôs na rua: a Virada Cultural de São Paulo. Se a capital paulista abre o seu Centro anualmente para a livre circulação de pessoas durante 24 horas de shows e outras atividades artísticas plurais, além de levar a programação até os bairros (SESC's, etc), a iniciativa do Rio é mais modesta. E numa cidade onde tudo parece acontecer nos bairros da zona sul (que, em seu conjunto no mapa, é muito menor que bairros inteiros da zona norte), é louvável que exista um palco em Realengo (não foi em Bangu, como divulgado) ou que novamente a Quinta da Boa Vista, tão maltratada, volte a ser apropriada pelos que moram na região central. Mesmo que a programação não tenha o menor conceito e junte o Nicolas Krassik e Blitz, Velha Guarda da Portela e Fresno, Belo e Bangalafumenga, Céu e NX Zero, não necessariamente nessa ordem e intercalados com "acrobacias aéreas". O que não dá pra fazer vista grossa, mesmo com essa atmosfera de coisa mal planejada, é o que ficou escancarado com o Palco Arpoador, que homenageava o Circo Voador, aquele local mítico, onde artistas iniciantes começaram as suas carreiras numa cidade palpitante dos anos 80, onde tudo acontecia e tudo brilhava! (Hoje o Circo é um empreendimento localizado ali debaixo dos Arcos da Lapa, salvando a cidade do seu deficit de palcos para shows, principalmente de bandas indie internacionais que só nele são viáveis.) Mas vejam bem... o evento não era ao ar livre? Os palcos não eram grandes? Eis que todos aqueles que saíram de suas casas esperando curtir momentos agradáveis sob o vento cool do Arpoador (lembra da música do Cazuza?) deram de cara com uma lona cafona, com capacidade reduzida de público (ocupava metade de uma praça que já é pequena), incluídos aí os convidados, é claro (esses sempre tem o seu lugar). Quem não conseguiu entrar? Ora, veja os shows no telão instalado do lado de fora! Esquema de trânsito? Que nada! Os carros já estão acostumados a desviar das pessoas que atravessam as ruas com imprudência no dia a dia. Ou avançar sobre elas. É risível que exista a pretensão de estabelecer este tipo de evento no calendário cultural de uma cidade onde todos os preços são exorbitantes justamente por ela ser "global", estar no mapa do mundo. No fundo, no fundo, a ideia parece ser sempre reproduzir uma imagem hiperbólica do passado (como no caso da homenagem ao Circo) que não se sabe bem quando foi projetada pela primeira vez, mas que não pára mais de circular como os textos das releases. Rio, quando é que você vai olhar pro futuro e criar algo novo, meu bem?

domingo, 10 de abril de 2011

Sábado no Circo Voador: Noite de Festival


Na Panela: Marcelo Jeneci, Karina Buhr, Arnaldo Antunes
Onde: Circo Voador - Arcos da Lapa.



Nenhum anúncio deixava claro se seria um show conjunto ou três shows individuais. De qualquer modo, qualquer configuração seria imperdível. Já falei do Marcelo há pouco tempo, comentando um show no Oi Futuro Ipanema. Karina Buhr tem na manga um disco excelente, Eu menti pra você, cheio de temas inesperados, ironias e humor ácido. Arnaldo é Arnaldo, aquele que tem uma das carreiras musicais solo mais dignas dentre os colegas dos anos 90 pra cá.

Eis que o enigma foi desvendado, por volta de meia-noite e meia, já no domingo, quando Marcelo Jeneci subiu ao palco com sua banda. Seriam três shows individuais! Ou seja, quase uma noite de festival de música no Circo Voador.

Marcelo perfilou suas canções fofas em show que rendeu menos que o de Ipanema, devido a problemas de som que atrapalharam a audição de sua voz, além de várias microfonias que se confundiam frequentemente com o som dos teclados. Passemos, então, para Karina, a grande surpresa da noite.

Nunca me preocupei em ver vídeos de perfomances de Karina Buhr, apesar de ter ouvido muito o seu disco. Logo, eu não esperava que a dona daquela voz meiga, com sotaque forte do nordeste, mesmo destilando veneno em quase todas as faixas, fosse o furacão que é no palco. Vestida com um macacão cheio de brilhos que deu a ela uma estatura poderosa bem além do seus presumíveis 1,65 metros, Karina bateu cabelo, se enrolou na fiação do microfone, correu, dançou, rolou no chão, brincou com os intrumentos dos músicos da sua banda (incrível), num coquetel que caiu como uma luva em Ciranda do Incentivo ("Eu vou fazer uma ciranda pra botar o disco na Lei de Incentivo à Cultura"). Um dos pontos altos do show, esta canção, cujo arranjo evoca o universo dos bailes funks, deu o tom para que Karina se esbaldasse como uma legítima poposuda ao cantar os seus versos sarcásticos. Se houve um defeito, este resultou da própria postura de Karina. É de se esperar que alguém que se movimenta freneticamente enquanto canta esqueça de respirar, de atentar-se para a clareza da emissão e, por falhas de dicção decorrentes disso, boa parte das letras preciosas soou ininteligível, pro azar de quem não conhecia o disco. Da bizarra canção de ninar Nassiria e Najaf, só restou audível o essencial: "Dorme logo antes que você morra/Essa é pras criancinhas de Nassiria, Najaf, em Bagdá".

Pra fechar a noite, Sr. Arnaldo Antunes e as canções do disco Iê Iê Iê, que eu subestimei quando foi lançado, mas que o show tratou logo de mostrar o quanto eu estava equivocado, salpicadas por canções de outros discos como a bela Consumado (numa versão bem melhor).  Nem tenho mais o que dizer. Procurem por Iê Iê Iê, Vem cá e a linda linda linda Meu coração. Basta.

Resultado: Pernas doendo e sorriso na cara.

Soraya Ravenle: Uma senhora cantriz


Na Panela: Soraya Ravenle - Arco do tempo
Onde: SESC Copacabana



Pois é, voltei. Quarta-feira, último show da curta temporada de Soraya Ravenle na arena do SESC Copacabana, desta vez decorada com tecidos leves e translúcidos que pendiam do teto, compondo uma colcha de retalhos tal qual o vestido da cantriz. Palavrinha ridícula, mas Soraya é mesmo uma excelente cantora e atriz que, nesse show, são duas dimensões fundidas em uma só.

As canções de Paulo César Pinheiro que compõem o repertório do CD Arco do Tempo, ganham aqui o reforço de interpretações que valorizam não apenas os desenhos melódicos, mas a poesia de Paulo, suas palavras, como fica evidente em Minha missão (E a cigarra quando canta morre/E a madeira quando morre canta), à capella. Se Senhorá (Roque Ferreira) é puro deleite (Os sonhos que eu sonhei, senhorá/Eu quero sonhar de novo, senhora, ô, senhorá), tal como o frevo Ninho de Vespa (Dori Caymmi), Cristal Lilás (Maurício Carrilho) surge tensa em clima de tango, com letra pugente sobre o amor,  e Carta Branca (Baden Powell) é delicioso samba de dor de cotovelo no melhor estilo de Vou deitar e rolar (um clássico da dupla Baden e Paulo). Por fim, um dueto afetivo com a filha Júlia fechou o espetáculo, comovente.

Tudo isto em sintonia com uma presença luminosa, de quem há mais de 20 anos frequenta os palcos do Rio, figura recorrente no elenco de musicais. Pena que o futuro deste tipo de espetáculo seja incerto, quando merecia rodar o país, levando as canções primorosas de Paulo (e seus parceiros) e a competência de Soraya Ravenle à ouvidos atentos de outras regiões.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ten Chi - Pina Bausch Tanztheater Wuppertal


Na Panela: Ten Chi (2004) - Pina Bausch Tanztheater Wuppertal
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.



Em 2009 tive o privilégio de ver a primeira apresentação internacional da Pina Bausch Tanztheater Wuppertal, após a morte da coreógrafa, no Teatro Alfa em São Paulo. Obviamente, foi um momento de grande emoção não só para o público, como também para os bailarinos da companhia. E o programa não colaborava com a leveza: Café Müller (1978) e A Sagração da Primavera (1975), dois marcos emocionalmente carregadíssimos da carreira de Pina. Inesquecível.

Dois anos depois, a companhia retorna ao país, desta vez passando também pelo Rio, que tinha ficado de fora na última visita. O momento é realmente outro. Ten Chi (2004), uma coreografia de quase 3 horas "inspirada" no Japão, do mesmo modo como Água (2001) tinha como ponto de partida impressões sobre o Brasil, vai em direção contrária ao peso de A Sagração da Primavera ou da melancolia de Café Müller ao apostar no humor, embora compartilhe com essas peças o estilo inconfundível da dança de Pina: o uso expressivo dos tecidos, dos cabelos, os movimentos ágeis e toda aquela dinâmica corporal que parece às vezes comandada pelos braços.

Ten Chi é uma sucessão de imagens curtas, fugazes, às vezes repetitivas, entremeadas com conversas bem humoradas (algumas nem tanto) com o público (algumas em português) e sequências coreográficas um pouco mais longas. Percebe-se aqui e acolá ecos de nonsense e tudo flui sem a necessidade de um nexo causal, sem transições rígidas, como é perceptível na neve que começa a cair no palco passados uns trinta minutos do início do espetáculo e que não pára mais, nem no intervalo. Ou seja, ela apenas cai, não está rigidamente dividindo nada em antes e depois, sequer muda o ritmo do conjunto, etc..

E o surpreendente nisso tudo é: e o Japão? Esta é a questão. É apenas um ponto de partida, uma referência, do mesmo modo como a cauda de baleia presente no cenário é um eco dos clichês sobre o país oriental. Nem a trilha sonora prioriza temas locais, reforçando essa idéia. O que vemos não é como uma cultura pode ser trabalhada sobre o olhar de uma coreógrafa que detém uma lingugem estabelecida, mas como aquela cultura pode fornecer um ponto de partida para que essa linguagem possa novamente ser apresentada como nova.

Ten Chi é Pina Bausch, enfim. E o desfecho fantástico do espetáculo, onde uma bailarina dança freneticamente e cita o gestual emblemático de A sagração da primavera (mãos unidas, braços esticados, movimento violento em direção ao ventre, pernas flexionadas), não deixa a menor dúvida sobre isto.

P.S.: Com exceção dos momentos finais do espetáculo, achei o trabalho de iluminação fraco, mas talvez meu ponto de vista (de cima pra baixo) tenha me prejudicado. Ou talvez haja a intenção explícita de não espetacularizar o movimento ou o cenário, tirando o nosso foco dos bailarinos. Ora, mas precisamos, em primeiro lugar, vê-los com clareza, ainda mais num teatro grande. A luz tem um papel preponderante na dança, mesmo não sendo a estrela da noite... Esta é uma questão para refletir, não tenho uma resposta em relação a este caso, já que falo a partir de outro paradigma que é o trabalho de iluminação (o suprassumo!) desenvolvido no Grupo Corpo.

Arícia Mess: Sábado em Copacabana


Na Panela: Arícia Mess - Onde mora o segredo
Onde: SESC Copacabana



Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite (mesmo chuvoso), ainda que seja apenas a surpresa de um bom show na charmosíssima arena do SESC Copacabana. Não conhecia a cantora Arícia Mess, mas depois de ler coisas boas por aí, resolvi conferir.

A sua entrada em cena, saindo das escadas do subsolo da arena sob forte luz vermelha, como se incorporasse uma entidade,deu logo as cartas. O que se seguiu foi uma sequência vibrante de canções com acentuado peso black, onde se destacam Hora Boa e Onde mora o segredo, que dá nome ao último CD da cantora, cuja divulgação foi o mote do show.

Mas gaiatos como eu não ficaram totalmente à deriva. Fizeram parte do roteiro uma versão excelente e (quase) intimista de Black is beautiful, clássica na voz de Elis Regina, Clariô, do disco Caras e Bocas da Gal (um dos mais legais, inclusive), Interesse, da lavra de Pedro Luís, e O homem dos olhos de raio-x, de Lenine. Esta última se destacou não somente pelo fraseado novo que Arícia imprimiu à letra da canção, mas pelo efeito simples e impactante dos seus olhos iluminados por um foco de luz, em contraponto ao restante do ambiente escuro.

Palmas também pra banda, em especial ao baterista (sentei logo atrás, então prestei muuuuita atenção...ops!). Enfim, a noite passa tão depressa, mas vou voltar lá pra semana... se houver um novo show, Copacabana.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A exposição do Escher no CCBB


Outro dia rolou uma discussão meio besta na sala de aula, o que motiva este comentário. Alguém implicou com o fato de que era quase impossível transitar em silêncio entre as salas lotadas da exposição O mundo mágico de Escher no CCBB - Centro Cultural do Banco do Brasil, que saiu de cartaz agora no último dia 27. Eram muitos estudantes, muito ruído, quase um insulto à idéia de um espectador civilizado e contemplativo. A outra reclamação era que a curadoria trouxe, além das obras de Escher, instalações tridimensionais e vídeos em 3D que espetacularizaram o ambiente, banalizando o trabalho do artista em favor de mais atrativos para o público. Ora bolas, que bobagem. A atração de um grande número de pessoas para um espaço que de algum modo tem uma aura tão elitista pode ser positiva, desde que exista uma ação educativa por detrás. E eu não estou querendo dizer com isso que as pessoas devam ser forçadas a ter uma relação religiosa com as artes. Olhem bem para o trabalho Belvedere, acima. É fato que você tem que dedicar alguns minutinhos para entender porque ele constrói um "espaço impossível", mas a sua lógica  é tão empolgante que mandar um grupo de garotos calar a boca enquanto a desvendam seria pedante. Se a exposição virou um hit, azar de quem deixou para ir até lá nos últimos dias. Quanto aos elementos "espetacularizantes", eu considero todos positivos, porque são desdobramentos das obras de Escher, um artista tão genial que, valendo-se principalmente da xilogravura e do espaço bidimensional da impressão, propunha imagens que nos remetem imediatamente a seqüencias de filmes como A Origem (do Chris Nolan) que impressionaram a tantos no cinema. A relação de Escher com outras mídias é legítima. Como já dizia Benjamin, naquele ensaio sobre a obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, algumas linguagens artísticas tentam dar conta de uma demanda que força os seus próprios limites e abre caminho para a criação de novas manifestações mais adequadas a ela, como foi o caso da fixação do Futurismo pelo movimento, que só teria abrigo pleno na linguagem do cinema. O que surpreende em Escher é que, mesmo que seus temas tenham vazado para outras linguagens, as suas imagens continuam sendo foco incessante de interesse e admiração.

domingo, 20 de março de 2011

In On It: Teatro dentro do teatro


Na Panela: In On It [Direção: Enrique Diaz; Texto: Danel Macivor; Tradução: Danielle Ávila; Com: Fernando Eiras e Emílio de Mello]
Onde: Teatro Maria Clara Machado - Gávea


In On It tem alguma relação de parentesco com dois espetáculos que estiveram em cartaz no Rio de Janeiro ano passado, Corte Seco e Hamelin. São peças que de algum modo deixam a sua própria estrutura aparente. Se Corte Seco radicalizava esse procedimento revelando inclusive aspectos técnicos da construção das cenas e da composição dos personagens, abrindo espaço para imprevistos e improvisos, Hamelin sobrepunha na sua narrativa o discurso dos atores e a ficção propriamente dita. Mas essa sobreposição era condicionada essencialmente pelo texto, quando Corte Seco dependia muito mais das intervenções da direção em tempo real.

Em In On It, o jogo está mais próximo ao de Hamelin. Fernando Eiras e Emílio de Mello surgem em cena efetivamente como atores que se revezam ao dar vida aos personagens de um drama familiar, mas aos poucos percebemos que a vida desses dois atores também constitui um outro plano narrativo e não se trata mais de Fernando e Emílio, mas de dois personagens que enfrentam dificuldades conjugais. In on It, teatro dentro do teatro.

Mas se em Hamelin a balança pendia para o lado do texto (e sofria com interpretações cerebrais condicionadas por ele) e se em Corte Seco para a consciência do caráter de jogo do espetáculo (e todo jogo oferece suas regras antes de começar), In On It retira sua força principalmente da qualidade das interpretações dos dois atores. A montagem flui orgânica, equilibrando a demanda emocional com os planos metalinguísticos das cenas, cama perfeita para que Fernando e Emílio brilhem.

Interessante: mesmo com as estruturas aparentes, nos informando todo o tempo de que "Isto é teatro!", cedemos imediatamente ao conteúdo humano da história, jogando voluntariamente aquele alerta para debaixo do tapete, até que cheguem os aplausos finais.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Em um mundo melhor: Dogville ao contrário?


Na Panela: Em um mundo melhor [Direção: Susanne Bier; Roteiro: Susanne Bier, Anders Thomas Jensen; Com: Ulrich Thomsen, Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, William Jøhnk Nielsen, Markus Rygaard]
Ano: 2010 (Dinamarca/Suécia)


Pra variar, o título brasileiro desse longa dinamarquês que ganhou o Oscar de filme estrangeiro fornece uma chave de leitura que não é das melhores e nos força a buscar a espinha dorsal da narrativa numa tese ética que não é nem um pouco unificadora. É certo que há no filme lições do tipo "Violência gera violência" ou "Não faça justiça com as próprias mãos", mas o modo como elas se relacionam com os conflitos privados dos personagens não é muito claro e também deixam inconclusiva uma incursão na geopolítica totalmente diversa do Sudão.

Anton é médico voluntário numa região árida e desolada daquele país africano e convive diariamente com vítimas da violência. Na Dinamarca, seu filho adolescente Elias enfrenta diariamente a hostilidade gratuita de alunos da escola onde estuda, num caso clássico de bullying. Tudo muda quando aparece Christian, um garoto novo na cidade, que se torna amigo de Elias e passa também a ser alvo de violência. Mas ele não é do tipo que leva desaforo para casa.

Quando Anton volta para casa, começam a ser articulados dois campos de força: Christian, que defende com vigor (e que rende ao ator uma das melhores interpretações do filme) a necessidade de sempre revidar com força redobrada os atos de violência que se sofre como um meio de manter a ordem, e Anton, que vê na lei do olho por olho e dente por dente o principio de toda guerra e desordem social. Os dois serão testados.

Anton, ao passear com os meninos, envolve-se sem querer numa confusão, é agredido por um homem violento e se nega a acionar a polícia ou dar importância ao caso. Eis que Christian levanta um plano de vingança de consequências trágicas que o farão reavaliar as suas convicções. Já de volta ao Sudão, Anton socorre com frequência mulheres grávidas vítimas de um mesmo criminoso que as violenta brutalmente por motivos totalmente banais. Eis que um belo dia o tal homem precisa de ajuda e testa os princípios morais do médico, o que também leva a consequências imprevistas.

A dimensão macropolítica do abuso do poder e da violência podem ser originariamente comparadas a pequenos atos como o de Christian na escola. Sim, violência gera violência. Mas quando efetivamente se tem a integridade física ameaçada por um ato insensato alheio, a quem recorrer? Na Dinamarca, há pelo menos a confiança na polícia. Mas e no Sudão? A ausência da força do Estado abre campo para a lei do mais forte e ... Em um mundo melhor não é um filme-tese, esta é a questão. Não encontraremos nele respostas, melhor deixá-las para a sala de aula.

Todos os personagens estão envolvidos em dramas familiares que se sobrepõem a esta outra dinâmica que mencionamos acima. São separações, relacionamentos conturbados entre pais e filhos, ressentimentos e o que interessa mesmo no final das contas é como aquelas circunstâncias violentas, pouco explicadas pela dimensão privada dos conflitos, compõe o quadro geral do drama.

Mas afinal, que mundo melhor é esse que o título sugere? Um mundo onde todos são sensatos? Aham, Susanne Bier, senta lá. O reverso do seu filme é Dogville, do também dinamarquês Lars von Trier, tão antididático a ponto de propor que, no meio de tanta corrupção, matar todos é medida mais eficaz.

domingo, 13 de março de 2011

Marcelo Jeneci: Feito pra acabar?


Na Panela: Marcelo Jeneci
Onde: Oi Futuro - Ipanema



Mesmo sabendo da odisséia que é conseguir um ingresso no Oi Futuro Ipanema (teatro pequeno + artistas que você pensa que ninguém conhece, mas igual a você existe um monte de gente), meu domingo cinza merecia Marcelo Jeneci e as delícias do seu álbum Feito pra acabar, um dos destaques do ano passado. Destaque afetivo, inclusive. Jeneci faz música pop redonda do tipo que a gente se apropria e quando nos damos conta já somos co-autores, digamos assim. Quase que  volto para casa mais uma vez sem conseguir entrar no maldito teatro, mas minha cara de piedade me valeu um ingresso.

O show é azeitado, apesar de que os arranjos perdem ao vivo algumas nuances. Em compensação, outros ganham peso, como é o caso de Copo D'água, mais roqueira, logo na abertura, ou da maravilhosa música que batiza o disco alocada no meio do roteiro. Jeneci (excelente instrumentista, domina vários instrumentos em cena além do seu característico acordeon) é um cantor limitado, mas conta também no show com o apoio sedutor de Laura Lavieri, a misteriosa voz feminina onipresente no disco.

Sabe a cara do personagem Marco de Fale com ela nas platéias de espetáculos de dança no início e no final do filme? Então, deve ter sido daquele jeito que eu ouvi Pra sonhar (Quando te vi passar fiquei paralisado/Tremi até o chão como um terremoto no Japão), Tempestade emocional (Vai chover desilusão), Felicidade (Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser) e Longe (Não dá mais pra voltar/E eu nem me despedi).

A música de Jeneci não é feita para acabar. Nós é que somos, depois de carregá-las na memória, quiçá por toda uma vida.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Bruna Surfistinha: Poderia ser pior, poderia ser melhor


Na Panela: Bruna Surfistinha [Direção: Marcus Baldini; Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino; Com: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Guta Ruiz]
Ano: 2011 (Brasil)




Não conheço o livro O doce veneno do escorpião e só soube mesmo do tal blog da Bruna Surfistinha/Raquel Pacheco (onde a moça divulgava suas experiências sexuais com os clientes e os instigava ainda mais) quando o livro entrou para as listas dos mais vendidos do país. Coisa que, aliás, não entendia. Usar a plataforma da internet a seu favor foi uma jogada super interessante, já que a pornografia é consumida maciçamente hoje em dia pela tela do computador. Mas por que aquele reboliço todo no mercado editorial por causa de um relato de uma menina de classe média que decide virar garota de programa? Uma possível resposta: não era esse o foco de atenção (o mais interessante, até), mas novamente o interesse que os detalhes picantes daquela vida proibida despertam. Se não fosse assim, o livro não teria aparecido misteriosamente na bolsa da minha própria mãe. Para atingir a todos, O doce veneno precisava mesmo ser publicado em papel.

Mas e o filme? Surpreendentemente, não é apelativo como se poderia esperar. Mas também não é uma obra expressiva como poderia, surpreendentemente, ser. As opções do roteiro são primárias em momentos decisivos, jogam o filme no buraco e prejudicam o seu principal trunfo: Deborah Secco, linda e esforçada no papel de Raquel/Bruna.

Raquel é adotada, desajeitada (e como é óbvia a caracterização por meio de roupas largas e cabelo seco somados à postura retraída da Deborah), não se comunica com os pais, é rejeitada pelo irmão mais velho, sofre bulling na escola, rouba jóias da mãe e foge de casa. Enfim... Uma introdução fraca e psicologizante que tenta justificar o que é o mais fascinante na história da menina que tinha uma vida desejável e de repente decide ser garota de programa num “privê” da periferia: nenhum moralismo barato pode dar conta do significado deste ato de Raquel. Não há justificativas a serem dadas, não precisamos absolvê-la. Bastava que o filme a mostrasse em suas fissuras, contradições. Nessa direção, teríamos talvez uma obra provocativa, incômoda e muito mais relevante enquanto documento de uma época altamente marcada por um comportamento sexual pornográfico e machista, que ainda divide as mulheres entre putas e donas-de-casa. E o faria por meio de uma personagem complexa em sua superficialidade.

As motivações simplórias que em vão o roteiro tenta nos fazer engolir apagam os mais variados matizes dessa história e quem sai perdendo é Deborah Secco, já que a câmera não desgruda dela. Sua interpretação perde credibilidade todas as vezes que tem que dar vida às exigências morais falsas do roteiro. Também é bizarro que o diretor não tenha podado clichês excessivos utilizados por Deborah na composição da personagem, como o sentar-se de pernas abertas ou a cadência “marrenta” inorgânica da fala em alguns momentos. Em compensação, ela mostra a boa atriz que é nas variadas cenas de sexo (é emblemático o olhar que ela lança ao espectador durante o seu primeiro programa) e nas cenas de humor particularmente deliciosas que, infelizmente, duram pouco.

De menina feia à bela e desejada prostituta sob o codinome Bruna Surfistinha (hit virtual após cair fora do subúrbio e entrar para rodas mais altas), saltamos para o seu naufrágio na cocaína que a leva aos mais baixos níveis da profissão, até reerguer-se num edificante “Rastejei na lama, porém venci no final!”. Era para ser um filme sobre sexo, prazer (das drogas, inclusive) e repulsa, afinal, até filmes pornôs a Raquel real estrelou. Porém a opção por um filme clean, acessível a platéias mais amplas, vaza do roteiro para todos os outros segmentos. Há uma sequência específica no segundo terço do filme, quando Raquel vai trabalhar em um pardieiro, que é exemplar, pois fecha um ciclo com a cena de abertura. Vemos uma fila de homens comuns, grosseiros, aguardando para serem atendidos. Mas a montagem é tão pobre (um modelo de videoclipe de quinta categoria), a fotografia tão sem personalidade e participa tão pouco da sugestão do quanto aquele espaço é desprezível, o elenco de apoio tão mal dirigido e mal incorporado na composição da cena, que não há mesmo esperanças artísticas que sobrevivam até o final desse Bruna Surfistinha.

Sim, esse é o primeiro longa do Marcos Baldini, ele pode evoluir. Mas eu tenho síndrome de obra-prima e ela não me deixa esquecer que Madame Satã foi o primeiro longa de Karim Ainouz.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sílvia Machete: Eu adoro cantoras inteligentes


Na Panela:  Festival Sonoridades - Sílvia Machete [Com participações de Erasmo Carlos, Domenico Lancellotti, Marcelo Lobato]
Onde: Oi Futuro Ipanema
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Programas como Ídolos fazem aqueles pobres garotos e garotas acreditarem na ilusão de que uma grande voz e movimentos, digamos, enfáticos no palco darão a eles algum lugar ao sol na música brasileira. Coitados, sem os meios para formatar uma "obra", ninguém vai muito longe. Existem por aí cantoras muito melhores que Sílvia Machete no quesito vocal. Não se pode dizer que ela tenha uma voz especial, um timbre particularmente bonito, ou coisa do tipo. É competente, tem boa técnica, nada excepcional. Mas ela tem no bolso um álbum chamado Extravaganza, cujo repertório formou a base do show apresentado no Festival Sonoridades, com curadoria de Nelson Motta. Curiosamente, Noite Torta, talvez a melhor gravação brasileira do ano passado, resultou menos arrebatadora no palco. No entanto, canções como Meu Carnaval e A Cigarra cresceram, seja pela competência da ótima banda que agregou o baterista Domenico Lancellotti (só pra lembrar, Domenico+2 é o melhor dos três títulos do trio formado com Kassin e Moreno Veloso) e o tecladista Marcelo Lobato, seja pela performance bem humorada e segura de Machete. Já Sábado e Domingo e Underneath the mango tree soaram como no disco: deliciosas. Erasmo Carlos, compositor parceiro da cantora em Femino Frágil e super espirituoso a ponto de fazer as vezes de caubói com chapéu e arma fake na ótima Panorama Ecológico (composta junto com Você-Sabe-Quem), foi a cereja do bolo. Enfim, noite feliz, apesar de ter que esperar um ingresso incerto por mais de uma hora na bilheteria, já que o Oi Futuro reserva um número exorbitante de convites para toda a sorte de "vips" e esquece que o teatro é pequeno. Haja paciência.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Inverno da Alma: O lado sombrio da América


Na Panela: Inverno da Alma [Direção: Debra Granik; Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini, Daniel Woodrell; Com: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Sheryl Lee]
Ano: 2010 (EUA)
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Eu particularmente gosto de filmes americanos que deslocam a visão cosmopolita que geralmente ligamos aos Estados Unidos para a periferia. Mais precisamente, para o interior do país, em regiões desconhecidas e distantes dos grandes centros urbanos costeiros. Se no cinema brasileiro essa temática é constante, no cinema americano ela aparece geralmente em produções independentes, que dependem do sucesso de crítica e de público em festivais como Sundance para chegar ao circuito comercial mundial. Nesse processo, a temporada de premiações é importante não só para que Hollywood mostre o que pensa ter feito de melhor, mas por dar espaço àquelas produções pequenas que, pela qualidade inegável, merecem figurar entre as produções convencionais. No caso específico do Oscar, esta tem sido uma tendência nos últimos anos, com Transamérica, Pequena Miss SunshinePreciosa, por exemplo. Os dois primeiros apresentando o quanto a América é brega e jeca. O último, o quanto ela também é atrasada.

Este ano é a vez de Inverno na Alma.

Ree (Jennifer Lawrence), uma garota de 17 anos, (sobre)vive numa região inóspita não identificada no filme por nenhum nome (sabe-se por outras vias que é o Missouri). Seu pai foi preso por envolvimento com tráfico de drogas, a mãe tem problemas psiquiátricos e seus dois irmãos menores estão sob a sua responsabilidade. A coisa piora quando ela recebe uma notificação da justiça. Seu pai ofereceu a casa como garantia de fiança e desapareceu. Caso não se apresentasse numa próxima audiência marcada, todos seriam despejados. Não há alternativas para Ree a não ser encontrar o pai, vivo ou morto, para que não perca o próprio teto.

A narrativa decola quando encontra a rota de um thriller. A dificuldade não está nas possíveis distâncias a serem percorridas por Ree, mas em obter informações na própria vizinhança. Todos na região têm as mãos enfiadas na produção de drogas em laboratórios domésticos, o que instaurou um código de silêncio como forma de blindagem contra as autoridades. O filme acompanha esse calvário da personagem, que esbarra em tipos assustadores e não encontra segurança nem mesmo no que ainda pode considerar sua família, como é o caso do seu tio (John Hawkes), um tipo sombrio que tenta dissuadi-la do propósito de encontrar o pai para resguardar a segurança da sobrinha. Hawkes, aliás, nos brinda com uma interpretação brilhante e o seu olhar no primeiro encontro com Ree é um dos grandes momentos do filme.

A trama caminha em direção a esse improvável encontro da garota com o pai, a partir de fragmentos de informações e por uma via ascendente de tensão que só tem trégua no desfecho desconcertante. A diretora Debra Granik fez um filme seco, áspero, e tem a seu favor um elenco impecável que se esconde debaixo de roupas pesadas e sujas quase todo o tempo, exibindo faces envelhecidas e duras que testemunham aquela vida de cão. Os poucos exemplares de beleza física vem de mulheres jovens como Ree, das crianças e de duas mulheres mais velhas que se preservam à margem daquela vida clandestina. Aliás, as mulheres de Inverno da Alma são tão duras como os maridos, como evidencia uma cena de espancamento onde nenhum homem se faz presente.

Ree é uma fortaleza por dentro e para que seu corpo torne isto público, é questão de tempo. Não há esperanças, embora isto não seja motivo para lamúrias. Daí advém todo embrutecimento.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

127 Horas: Nervos de aço


Na Panela: 127 Horas [Direção: Danny Boyle; Com: James Franco, Lizzy Caplan, Kate Burton]
Ano: 2010 (EUA)
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Um site inglês postou uma brincadeira com os cartazes dos filmes indicados ao Oscar 2011: “Se os cartazes dos filmes indicados contassem a verdade”. No caso de 127 horas, o que deveria ser revelado era algo do tipo “Você tem 85 minutos antes que ele corte o braço fora”. Tem spoiler melhor que esse?

Que o personagem Aron Ralston (interpretado por James Franco), ao explorar sozinho um cânion em Utah, fica preso 127 horas numa fenda depois do deslocamento de uma rocha que prende o seu braço e, para se salvar, acaba tendo que cortá-lo, não é nenhum segredo. Mas sinopses não oferecem premissas para a dedução de um filme, nunca se sabe como argumentos como esse, que, sinceramente, é até batido, vão ser desenvolvidos na tela.

Todo o mérito de 127 horas está no caminho escolhido pelo diretor Danny Boyle para contar essa história. Na introdução orquestrada deslumbrantemente, vemos Ralston se preparando para deixar a sua casa rumo à natureza, apresentada num ritmo alucinante em toda a sua exuberância. Ele tem com ela uma relação totalmente sensual, como fica claro nas sequências onde encontra duas turistas perdidas e as leva às delícias que um salto em queda livre por uma fenda que termina num lago de tom azul pode proporcionar. Logo em seguida, pouco depois de se despedir das moças, num descuido, acontece o que todo mundo sabe que vai acontecer.

Por mais que seja um filme sobre o velho tema da superação, ou da relação perigosa entre homem e natureza, o roteiro de Simon Beaufoy (baseado no relato biográfico do próprio Ralston) valoriza o prazer de estar acolhido no meio natural e também o prazer que se recebe em troca ao desafiá-lo. A estética publicitária de Boyle nesse filme realça essa dimensão, as imagens precisam ser desejáveis, como num comercial, para que captemos aquela atmosfera luxuriante. O crítico Marcelo Janot, do Globo, encontrou nessa estética um defeito grave, principalmente pelo que ele julga ser um constrangedor merchandising de marcas como Gatorade. Ralston, quando está com sede, se lembra constantemente de imagens de garrafas molhadas sendo abertas com estardalhaço, refrigerantes borbulhantes, etc.. Ora, essas imagens publicitárias operam como signos dos nossos desejos o tempo todo. Quem nunca pensou numa Coca-Cola num dia de calor escaldante que atire a primeira pedra!

Quase todas as lembranças de Ralston na solidão daquele buraco são sensoriais. Corpos nus na neve, a cama da namorada. Esse ponto de vista retira o filme da rota do dramalhão que ele poderia seguir, dão ritmo e oferece a James Franco a chance de brilhar absoluto pela primeira vez em sua carreira, ao sustentar sozinho um filme inteiro sem cansar o espectador. Ele grava vídeos para a família, tenta deslocar a pedra com o material que tem, tira fotos, ri, se desespera e quando beira o descontrole, toma a decisão fatídica.

127 horas tem, no fundo, uma dimensão trágica. Mesmo o sujeito mais autoconfiante do mundo não pode pretender ter o controle total sobre a resultante de cada passo que dá, nem que uma rocha solta, como que à sua espera, tenha que lhe mostrar isso da pior maneira possível.

"A saída do museu é pela loja de souvenirs, senhor."


Na Panela: Exit through the gift shop [Direção: Banksy]
Ano: 2010 (Inglaterra)
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Dos dois documentários sobre arte indicados ao Oscar deste ano, Exit through the gift shop é o mais bem sucedido, embora os catadores de material reciclável de Lixo extraordinário sejam comoventes. Mas enquanto a linguagem do segundo é errática e perde para a grandeza dos personagens, a do primeiro é tão precisa que até se dá ao luxo de misturar fidelidade jornalística com ficção, sem perder o foco duplo de prestar um tributo a street art e de ironizar o mercado de arte.

Exit foi dirigido por Banksy (que nunca revelou a sua identidade e que ninguém sabe se é um artista ou um coletivo), embora eu tenha dúvidas em relação a veracidade do crédito devido a algumas informações que o filme deixa cair como que sem querer. Voltarei a esse assunto no final do texto.

A estrutura é a seguinte:

Logo no início, Banksy revela que o mote é mostrar como um documentarista que queria fazer um filme sobre ele se tornou o personagem documentado. Trata-se de Thierry Guetta, um francês que mora na Califórnia viciado em filmar. Sem querer, Thierry entra no círculo da street art ao registrar o trabalho de um primo, conhecido como Space Invader, e acaba recolhendo material de um leque enorme de artistas cujas ações clandestinas em espaços públicos ainda eram lançadas na vala comum do vandalismo, mas que pouco a pouco ganharam notoriedade. É o caso de Shepard Fairey, autor de uma famosa imagem de Obama que rodou os Estados Unidos e caiu na internet, ainda na época das eleições presidenciais. Ou seja, contar a história do material de Guetta, no seu olhar amador, é também contar a história recente da street art sem didatismos maçantes, o que é uma estratégia narrativa bem interessante.

E como Banksy entra nessa roda? Ora, depois de registrar tanta gente em ação, ele era o único que faltava no arquivo de Guetta, que desejava ardentemente o encontro quase impossível com o misterioso artista. Quase impossível, porque um dia Banksy precisou de apoio para algumas de suas intervenções em Los Angeles e acabou chegando, por meio de Space Invader, ao nome confiável de Guetta, a quem concedeu gravar imagens sem que aparecesse seu rosto.

Até aí, somos convencidos pelo fascinante percurso de coincidências que levaram àquele estado de coisas. Os artistas da rua estavam indo parar nas galerias, o próprio Banksy se tornou um expoente nesse processo ao conquistar cifras altíssimas no mercado de arte. Estava na hora, portanto, de mostrar a certidão de nascimento da street art e nada mais oportuno que construir um documentário a partir do material inigualável de Guetta. Mas ele não tinha competência nenhuma como editor, de modo que Banksy assume a tarefa de selecionar o material e incentiva Guetta a seguir outros rumos, quem sabe até entrar para o time dos artistas.

É o que ele faz. Cria um codinome (Mr. Brainwash, Sr. Lavagem Cerebral), cria um ícone que possibilita identificar inequivocamente intervenções urbanas como suas, contrata pessoas para realizar o trabalho gráfico, etc. Ora, o filme começa a descortinar as engrenagens técnicas nas quais Guetta desenvolve seu trabalho. A questão não é talento ou vivacidade das idéias, mas o modo como as operacionaliza, até chegar ao ápice de realizar uma exposição solo cheia de pastiches da street art e da pop art, um sucesso comercial e de crítica devido ao hype. A promoção extrema do nome de Guetta na imprensa e o apoio dado a ele por gente consagrada como o próprio Banksy o transformaram num artista de sucesso fabricado. Está dado o outro lado da moeda: após prestar o tributo aos artistas de rua, Banksy utiliza Guetta para ironizar o mercado e a crítica irresponsável de arte.

Aí vem a pulga atrás da orelha... Tudo é tão eficiente, tudo é tão perfeito, Guetta é tão extravagante e engraçado que parece ser um personagem criado para os propósitos de Banksy. Um documentário quadrado é tudo que não se espera de um artista como ele, que adora confundir. Partindo desse ponto, não dá para ignorar que podemos estar diante de uma das obras mais provocativas dele. Em certo momento, Guetta diz que não precisa fazer nada, basta contratar pessoas para realizar tecnicamente as obras, assim como gente importante como Damien Hirst faz. Exit through the gift shop é tão bem elaborado, que nos faz perguntar: Se a arte contemporânea permite tal procedimento, o que impede Banksy de ter contratado um bom cineasta para realizar o documentário a partir de uma idéia sua e apenas assinar a direção? Se as artes plásticas já absorveram essa prática, o cinema ainda presa muito a “assinatura” do criador. Banksy estraga a festa e, como punição, caso ganhe o Oscar no próximo dia 27, não poderá subir ao palco para receber a premiação sem se identificar, como determinou a Academia. Uma pena, pois seria delicioso ver alguém vestido com uma máscara de macaco fazer o discurso de agradecimento. Ou dois. Ou três. Ou seis macacos. "Ele" é quem decide.