quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Virgínia Rodrigues: Negrume da noite


Na Panela: Virgínia Rodrigues & Alex Mesquita. Participação de B-Negão.
Onde: Solar de Botafogo.
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Ainda não entendi o esquema de divulgação de eventos na Cidade Maravilhosa sem que se tenha que comprar o jornal O Globo. E por isto quase perdi o belíssimo recital de Virgínia Rodrigues, acompanhada pelo violonista Alex Mesquita, nesta noite super quente de terça-feira! Não me lembro bem como foi que o canto de Virgínia chegou até mim, só sei que o disco Nós, lançado em 2000, está entre os que eu colocaria numa grande cápsula e enterraria, pra quem sabe algum ser a encontrar num futuro distante, depois que a nossa civilização desaparecer. A voz dessa mulher assustava a minha mãe com razão. Tem algo de bruto, de primitivo, de inacabado no seu trato com os versos das canções,  mas aí vêm aqueles graves ancestrais, ou aqueles vocalises que transitam entre o erudito e o popular. E o recado está dado: Virgínia é uma grande cantora (o público europeu sabe disso e a sustentou durante esses últimos anos). Neste show, ela aborda majoritariamente em seu repertório os afro-sambas de Baden e Vinícius, gravados por ela no disco Mares Profundos. Canto de Ossanha, Canto de Xangô, Labareda, Berimbau e Consolação são antológicas por si só, porém me surpreenderam mesmo foram as abordagens de Virgínia para Melodia Sentimental (Villa-Lobos), Antonico (Ismael Silva - emblemática na voz de Gal),  e a participação de B-Negão em Noite de Temporal (Caymmi) e em Juízo Final (Nelson Cavaquinho). Essa última com o acréscimo de beatboxes de Negão. Mas a porrada no estômago veio com uma interpretação linda de doer de Amor, meu grande amor (um clássico de Ângela Ro Ro), que me fez sair do teatro preenchido por aqueles momentos frente a frente com essa baiana extraordinária, que resgatou nesta noite em seu canto um pouquinho da minha memória afetiva musical.

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