sábado, 18 de dezembro de 2010

Pterodátilos: Animais em extinção


Na Panela: Pterodátilos [Direção: Felipe Hirsch; Texto: Nicky Silver; Com: Marco Nanini, Mariana Lima, Álamo Facó e Felipe Abib]
Onde: Teatros das Artes - Gávea.
@@@@

No cartaz da peça Pterodátilos, duas coisas nos chamam a atenção: a figura central de um esqueleto com roupas femininas, tal como uma socialite loira, e o nome de Marco Nanini, escrito em tom de amarelo berrante e em caixa alta. Não podemos, no entanto, banalizar as intenções marqueteiras da arte gráfica. É óbvio que muita gente vai ao teatro para ver aquele ator famoso da TV, mas, nesse caso, bobo é quem acha que o Sr. Lineu,  para comemorar 45 anos de carreira,  vai oferecer ao espectador um coquetel de frutas leve e um pedaço de bolo.  Pteodátilos é uma comédia de humor negro de alto nível que capta uma família em processo de extinção na sala de estar. A mãe (Mariana Lima), alcóolatra e consumista, mal sabe o nome da filha de 15 anos (Marco Nanini), uma figura complicada que pretende se casar com um garçon enrustido (Felipe Abib) que acaba virando a empregada da casa. O pai ausente (Marco Nanini) finalmente aparece quando o filho gay retorna depois de anos fora. Com AIDS. É literalmente um desequilíbrio total, perfeitamente sintetizado no cenário incrível de Daniela Thomas, o chão da sala é móvel e é desmontado no decorrer da ação. E esse caos é totalmente risível. Deliciosamente risível. Sem culpa nenhuma, mesmo que o pano de fundo seja sombrio. O texto do Nicky Silver, absolutamente meticuloso em seu vocabulário, nunca resvala no besteirol e exige dos atores rigor na composição de seus personagens (todos muito interessantes e ricos), o que nos dá a sensação de que, mesmo naquele desastre, tudo está sob controle. Mariana Lima está fantástica, Felipe Abib tem seus momentos de destaque e o ponto fraco do quarteto é Álamo Facó, que ficou com o rojão na mão, já que seu personagem é o fio que costura o drama que está por baixo da comédia. Em alguns momentos, sua interpretação soa artificial e mecânica, talvez pelas marcas de direção que sublinham o caráter profético do personagem. E a estrela da festa, claro, é Marco Nanini, que interpreta dois personagens, mas brilha mesmo na pele da adolescente problemática. É um prazer ver esse grande ator em cena, oferecendo a nós o seu próprio presente de aniversário. Nem a súbita aceleração da narrativa em direção a um desfecho apocalíptico e "sério" tira de Pterodátilos o mérito de ser um dos melhores espetáculos que entraram em cartaz a partir de setembro no Rio, revigorando uma cena que andou a passos de tartaruga nos primeiros meses de 2010. Se o nome de Marco é sinônimo de teatro lotado, que ele seja escrito em letras garrafais nos cartazes quando se tratar de espetáculos como esse.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Comédia Russa: Pela metade


Na Panela: Comédia Russa [Cia Os Fodidos Privilegiados; Texto: Pedro Brício; Direção João Fonseca]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.
@@


Uma repartição pública russa inútil, cheia de funcionários que trabalham duro para perpetuar o ócio, é remexida pela chegada de um recém-concursado ingênuo. Tudo muito assim, digamos, russo. Imagina só se nós brasileiros temos alguma coisa a ver com isso! Pra completar, um crime envolvendo uma funcionária desencadeia o maior quiproquó e detetives entram na lona. Essa Comédia Russa, bem escrita, bem interpretada, com boas soluções em seu cenário composto por móbiles e com figurinos ótimos onde se destaca sempre a cor vermelha, só tem um problema: não me arrancou uma gargalhada sequer, embora seja um espetáculo muito bem humorado. Devo assumir uma parcela dessa dívida?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marlene Dietrich, as Pernas do Século: Joga no Google!


Na Panela: Marlene Dietrich - As pernas do século [Texto: Aimar Labaki; Direção: William Pereira; Direção Musical: Roberto Bahal. Com Sylvia Bandeira, José Mauro Brant, Marciah Luna Cabral e Sílvio Ferrari]
Onde: Solar de Botafogo.
@@@

Quem foi Marlene Dietrich? Joga no Google! Menos instantâneo e mais caloroso é o espetáculo musical em cartaz no Solar de Botafogo, que presta tributo a esta mulher que já era uma estrela do rock antes mesmo do rock existir (frase da peça). Dietrich morreu em 1992 aos 90 anos em Paris, trancada em seu apartamento. Só recebia a filha e a empregada. Madonna, super-blonde e sexualmente provocativa, ou seja, fã da diva alemã, já escandalizava meio mundo naquela época. E é uma conversa com um entregador de champagne (José Brant), conhecedor de Madonna que sequer havia ouvido falar nessa tal de Marlene, o mote para que a senhora, interpretada por Sylvia Bandeira, conte o seu passado de glórias à platéia que se faz representar na figura daquele jovem, numa simples e eficiente licença poética da dramaturgia. Da Berlim romântica e pobre dos anos 20 à Hollywood glamourosa dos anos 40, do ativismo de guerra à shows caríssimos em Las Vegas, a biografia deste mito do cinema e dos cabarés é descortinada também por meio das canções que fizeram sucesso em sua voz, com o apoio de Marciah Cabral e Sílvio Ferrari, que se desdobram em vários personagens e narradores. Daí vem grande parte do charme do espetáculo: todo o elenco canta muito bem e o passeio musical é harmonioso, discreto, sem grandes arroubos dramáticos (Destaco o medley que uniu Where have all the flowers gone, de Peter Seeger, e Blowing in the wind, de Bob Dylan). O saldo é o serviço prestado pelo espetáculo, que traz à lembrança algo que já se perdeu na nossa cultura pop: o glamour e a elegância inatingíveis onde se fabricavam e se equilibravam as estrelas do passado. E por isto tornaram-se mitos cruéis: nenhum dinheiro do mundo nos daria aquela aura. Nenhum. 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Virgínia Rodrigues: Negrume da noite


Na Panela: Virgínia Rodrigues & Alex Mesquita. Participação de B-Negão.
Onde: Solar de Botafogo.
@@@@@

 
Ainda não entendi o esquema de divulgação de eventos na Cidade Maravilhosa sem que se tenha que comprar o jornal O Globo. E por isto quase perdi o belíssimo recital de Virgínia Rodrigues, acompanhada pelo violonista Alex Mesquita, nesta noite super quente de terça-feira! Não me lembro bem como foi que o canto de Virgínia chegou até mim, só sei que o disco Nós, lançado em 2000, está entre os que eu colocaria numa grande cápsula e enterraria, pra quem sabe algum ser a encontrar num futuro distante, depois que a nossa civilização desaparecer. A voz dessa mulher assustava a minha mãe com razão. Tem algo de bruto, de primitivo, de inacabado no seu trato com os versos das canções,  mas aí vêm aqueles graves ancestrais, ou aqueles vocalises que transitam entre o erudito e o popular. E o recado está dado: Virgínia é uma grande cantora (o público europeu sabe disso e a sustentou durante esses últimos anos). Neste show, ela aborda majoritariamente em seu repertório os afro-sambas de Baden e Vinícius, gravados por ela no disco Mares Profundos. Canto de Ossanha, Canto de Xangô, Labareda, Berimbau e Consolação são antológicas por si só, porém me surpreenderam mesmo foram as abordagens de Virgínia para Melodia Sentimental (Villa-Lobos), Antonico (Ismael Silva - emblemática na voz de Gal),  e a participação de B-Negão em Noite de Temporal (Caymmi) e em Juízo Final (Nelson Cavaquinho). Essa última com o acréscimo de beatboxes de Negão. Mas a porrada no estômago veio com uma interpretação linda de doer de Amor, meu grande amor (um clássico de Ângela Ro Ro), que me fez sair do teatro preenchido por aqueles momentos frente a frente com essa baiana extraordinária, que resgatou nesta noite em seu canto um pouquinho da minha memória afetiva musical.