terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Banquete, de Zé Celso: O eterno retorno do Cu


Na Panela: O Banquete [Teatro Oficina - Direção Zé Celso Martinez Correa]
Onde: Terreirão do Samba - Marquês de Sapucaí.
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Dionisíacas em viagem é o nome do projeto que trouxe ao Rio quatro espetáculos do Teatro Oficina (não fiquei sabendo com antecedência, porque quem não compra o jornal O Globo na sexta-feira não fica sabendo de nada), entre eles As Bacantes e O Banquete, este último uma livre adaptação de uma das obras-primas literárias e filosóficas de Platão. Livre meeeeeesmo. Assim como o banquete (ou simpósio) grego que reúne atenienses ilustres para comemorar a vitória de Agatão no concurso de tragédias concentra-se no debate sobre a natureza do amor, o banquete antropofágico (o povo gosta desta palavra, coitada, tão estuprada) de Zé Celso é pretexto para o seu teatro carnavalesco, erótico e, no presente caso, prolixo e falacioso, sob o pano de fundo da louvação de Eros. Mas se o banquete de Platão é marcado pela variedade de pontos de vista, Zé Celso achata tudo numa única linha de viés sexual. Sinceramente, não esperava que o meu primeiro encontro com este criador fundamental para a história do teatro nacional fosse tão previsível. Estava tudo lá: a galerinha disposta a "interagir" a todo custo com o espetáculo (leia-se: tirar a roupa sem nenhum motivo), a poética ritualística que nem sempre dá certo (distribuir vinho e frutas à platéia não instaura necessariamente um ambiente "dionisíaco"), e o blablabla da liberação disso, liberação daquilo. Entre os itens, claro, como não podia faltar, o Cu. Essa ventosa tão menosprezada, como ele mesmo canta, não sai da boca de Zé Celso. É o símbolo da repressão e da liberação sexual e, por isto, deve haver um altar para este orifício-deus na sede do Oficina. No entanto, é o tradicional momento da apologia do Cu que resume bem o que este Banquete tem de criativo: um clima musical festivo sustentado por canções interessantes e pela excelente banda, uma certa manipulação do público (de boa vontade), por meio do discurso jocoso dos personagens, e o nonsense que é ver o diretor da festa, na pele de Sócrates, introduzindo os dedos no Olho Sagrado de um de seus atores, em imagem aumentada no telão. Nesta direção, também é impagável a sequência de interação com o público da personagem Afrodite/Iemanjá/Pomba-Gira, realmente engraçada e provocativa, culminando com um voluntário de quatro e sem calças pronto pra ser penetrado por um cacete dourado. Ou seja, o Dioniso opera pelo poder liberador do riso aqui. Para além disso, pouco se salva deste espetáculo muitas vezes arrastado em suas 4 horas de duração. São muitas as interpolações arbitrárias e falaciosas, geralmente comentários políticos ou teses capengas como a defesa da liberação das drogas para solucionar a guerra do narcotráfico ou uma crítica fora de lugar ao monólogo como forma de teatro caça-níquel, por exemplo. É claro que pro Zé Celso isso não é um problema para o seu teatro, pelo contrário, é constitutivo dele, ainda mais pra quem botava a boca no trombone em plena ditadura. Mas hoje, dar o cu e "pederastia" são coisas totalmente triviais para o público que lotou as arquibancadas do Terreirão do Samba e ficar pelado numa peça do Oficina é tão convencional como usar calça jeans. Carece de sentido, perdeu-se o lastro significativo. Paradoxalmente, o espírito dionisíaco que foi convocado para devolver ao teatro uma certa dimensão ritual onde as pessoas partilham uma experiência de cunho libertador sai pela porta dos fundos. Esse teatro rebolativo oferece apenas aquilo que todos querem dele e convenhamos, esse Dioniso também está nas boates e nos shows (não é à toa que Michael Jackson é citado à certa altura). Buscar o deus em suas outras moradas pode ser muito mais proveitoso, madrugada afora. Mas não esqueçamos: ele tem várias faces. Talvez o Oficina devesse recuperar aquele Dioniso aterrador que, depois do carnaval, oferece à contemplação a cabeça de Penteu. Mas aí teria que superar a sua própria identidade, ou seja, submeter-se ao poder destrutivo daquele a quem tanto cultua.

4 comentários:

  1. Ainda não assisti nada do Zé Celso (preciso ver antes que ele morra rsrs), nem aquela palestra-golpe que foi dada aqui em OP que culminou na dança do "trepe-trepe". Tenho respeito pela encenador que é, e pelo o que ele fez para o teatro nacional. Mas realmente, ele está preso no tempo. De nada adianta colocar um telão com imagens instantâneas, para se dizer atual, se todo o resto soa ultrapassado e obsoleto. As vezes os grandes nomes não passam de nomes do passado!

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  2. Pois é. Não sei até que ponto essa linguagem ainda pode ser atualizada, porque não vi Os Sertões, que lhe rendeu prêmios pela façanha de levar aos palcos a obra integral. Mas ele estava envolvido no projeto quando deu a palestra-golpe e a tal dança do trepe-trepe estava ligada à montagem. Reconheceu-se somente a façanha ou havia méritos? Só vendo o DVD, o que nos resta. No mais, concordo em número e grau. Ze Celso parece ser um nome do passado.

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  3. Se chamam esse lixo de arte, e se de fato tiverem razão, então a arte não passa de merda.

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  4. Avaliação precisa.
    Vi o módulo 'Bacantes' em Salvador, e a sensação foi a mesma. Um dos atores jovens presentes, amigo de um amigo ator, foi 'atacado' pelas personagens (?) e colocado nu no centro da arena. Desnecessário e...que cena constrangedora!

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