sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Deus da Carnificina: O Deus do Teatro


Na Panela: Deus da Carnificina [Direção: Emílio de Mello; Texto: Yasmina Reza; Com Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo, Paulo Betti]
Onde: Teatro Maison de France - Centro.
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1. São 20:11 e tudo é branco no Foyer do Teatro Maison de France, com exceção dos corrimãos prateados e das portas de madeira em tom claro. Perambulei pelas bibliotecas da universidade  até dar a hora de entrar no metrô e descer no Centro sujo. Odeio aquelas ruas à noite. Fedem, mesmo depois da chuva. Agora estou aqui, sentando num puff branco. Estava só, mas pessoas de meia idade e vários grupos de mulheres idosas bem vestidas começaram a chegar. Vi nos jornais que esta é uma das melhores peças em cartaz na cidade. Lá fora, os mendigos. Poxa, quem vai ao teatro numa quinta à noite (ingresso caro)? Pergunta idiota: todos os ingressos estão vendidos, pouco interessa.
2.  Deus da Carnificina documenta aquilo que acontece quando um time formidável de atores sob direção precisa dá vida a um texto do mais alto quilate. Tudo se resume nisto e ao mesmo tempo não se deixa resumir: dois casais se reúnem para discutir uma briga envolvendo seus filhos e dessa superfície cordial vão aflorando progressivamente comportamentos pouco pacíficos. A dinâmica excelente dos diálogos (que carrega nas costas todo o espetáculo) é coisa nova pra mim. Ora! Há dramaturgos de talento escrevendo textos tradicionais na contemporaneidade (hoje em dia, que fique bem claro). Não faltam flatulências verbais afirmando que este modelo de teatro estaria ultrapassado. Felizmente, há contra-exemplos contra tal dogmatismo. Mas a acessibilidade do espetáculo, demonstrada no riso constante da plateia em reação ao humor sarcástico onipresente, não oculta o conteúdo ácido do confronto dos casais. Sinceramente, não achei graça nenhuma. No máximo, esbocei um sorriso amarelo, o que me fez incluir como parte do espetáculo todos aqueles presentes que enxergaram em Deus da Carnificina uma comédia genuína. Parece que de algum modo todo mundo que não se incomodou minimamente com o drama que está debaixo do cômico endossou a hipocrisia daqueles personagens, principalmente aquela que se abriga em bandeiras pacifistas e na defesa da cultura como libertadora e civilizadora. E por que eu haveria de me arrogar como distinto daquelas pessoas? Poxa, ir ao teatro numa quinta-feira no Centro sujo da cidade, quase 12 horas fora de casa, e ir embora correndo pra não correr o risco de assalto. Além de tudo o ingresso é caro, talvez eu fique sem grana no fim do mês. Pago pra ver alguma verdade ser lançada na minha cara? Às vezes o Deus do Teatro também é o Deus da Carnificina.


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