sábado, 6 de novembro de 2010

Hair: Let the sunshine in


Na Panela: Hair [Direção: Charles Moeller; Texto original: Gerome Ragni, James Rado; Música: Galt McDermot; Versão brasileira: Claudio Botelho. Com Karin Hils, Hugo Bonemer, Igor Rickli, Marcel Octavio, dentre outros]
Onde: Teatro Oi Casa Grande - Leblon.
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Superada a crise financeira que me fez perder Mikhail Baryshnikov e também o Ballet de Geneve, fui à estréia de Hair no Teatro Oi Casa Grande. Por questões orçamentárias assisti o espetáculo de um ponto de vista para o qual ele não foi criado: do alto. Mas nada que tirasse o seu brilho. Não sou fã de musicais, mas não poderia deixar de conferir a montagem da grife Moeller & Botelho deste que é, com certeza, um dos mais famosos do gênero. Todo mundo já ouviu, no mínimo, a canção Aquarius e é ela que apresenta a comunidade de hippies protagonistas que em 1968 pregavam paz e amor, experimentavam drogas e sexo, confrontando o american way of life e rebelando-se contra o alistamento militar para a guerra do Vietnã. Ou seja, os temas são muito datados, embora o espírito da coisa permaneça atual. Logo no primeiro número, percebe-se que a fonte única dos defeitos desse musical vem justamente desta origem datada e dos traços indeléveis que ela deixa no texto. Qualquer adaptação, mesmo a mais ousada, ao tentar escapar disto, apresentaria outra coisa e não... Hair. Imaginem uma concepção menos lúdica e mais tensa, se for possível. Além da exigência de super atores, Moeller & Botelho estreiariam um espetáculo por ano e olhe lá, com produção cara e sob o risco de uma recepção negativa por parte do público que tem sustentado a retomada do gênero. Assim, aqueles personagens de 68 foram reencarnados como hippies de botique (principalmente devido à caracterização e aos figurinos, que nem por isso deixam de ser lindos) e logo de cara a coreografia bastante óbvia em Aquarius (braços para o alto, muitos braços para o alto) dão a falsa sensação de que estamos diante de algo morto, mas que se sustenta pelo clima colorido e bem humorado e pela qualidade das músicas. Fiquei impressionado quando vi e ouvi Karin Hils cantar esta canção, lembram dela? Uma das meninas do Rouge. Arrasou nos vocais, embora limitada como atriz. Aliás, boa parte do elenco de apoio fica com aquela cara de chuchu quando não está envolvido na cena, o que dá a sensação ruim de que, mesmo num espetáculo de alto nível e de grande apelo visual, permanecem estes ranços de teatro escolar. Porém, o espetáculo cresce e ganha peso no segundo ato, quando as notas políticas do texto vão para o primeiro plano, numa progressão dramática que inclui números mais sombrios e que culmina no emocionante número final, com a soberba Let the sunshine in. À despeito da fama de Aquarius, esta é pra mim, desde que ouvi pela primeira vez, a melhor canção de Hair. E as belíssimas imagens que encerram o espetáculo, unidas à força desta canção, explicam porque os musicais tem feito tanto sucesso no eixo Rio-São Paulo. Contudo, continuo batendo na mesma tecla. Musical é um gênero que sofre (ou deveria sofrer) de síndrome de obra-prima. Canções e dramaturgia precisam ser uma só coisa, um casamento perfeito, senão o trem sai da linha e a concepção visual das cenas tem que sustentar a unidade do espetáculo, tapando o buraco. Todo musical precisa ser um exemplar legítimo do gênero, senão é mera colagem de canções. Ele herdou este fardo da ópera e não é à toa que temos tanta coisa kitsch ao som de música erudita por aí, basta procurar no Youtube. Hair caminha no fio da navalha e, se triunfa, é porque Charles Moeller e Claudio Botelho sabem mesmo das coisas...

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