domingo, 24 de outubro de 2010

Hamelin: Dramaturgo 1 x 0 Espetáculo ??????


Na Panela: Hamelin [Texto: Juan Mayorga. Direção: André Paes Leme. Com: Vladimir Brichta, Alexandre Melo, Oscar Saraiva, Cláudia Ventura, Patrícia Simões, Alexandre Danta]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.
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No conto dos irmãos Grimm, a cidade de Hamelin é infestada por ratos, para desespero de seus moradores. Eis que aparece por lá um flautista que promete exterminar a praga, desde que o pagassem. Com a sua música, atrai os ratos até um lago, onde se afogam. Porém, sem as provas de que os bichos invasores estavam realmente mortos, os moradores não cumprem o trato. Para se vingar, o flautista usa seu instrumento para atrair todas as crianças do lugarejo e as leva embora. Essa história sem final feliz dá título e permeia Hamelin, espetáculo que retornou à ativa após estrear em São Paulo ano passado e passar pelo CCBB do Rio nos primeiros meses deste ano. Trata-se de uma encenação propositalmente econômica de um texto excelente, metalinguístico e bastante literário, que narra a investigação fragmentada de um caso de pedofilia por um juiz obcecado em solucioná-lo, mas sem sucesso. O tema denso, cuja psicologia levaria quase que automaticamente a um realismo na construção do espetáculo, acaba suavizado pela perspectiva reflexiva que o próprio texto impõe. Todo o tempo há a interferência de falas neutras, fora da representação, dos atores que se revezam à margem da cena, seja pontuando pausas, seja descrevendo de modo mais imaginativo o que se passa nela, seja sublinhando a função que estas mesmas falas ocupam na linguagem do espetáculo. Não se chega nunca à verdade que repousa no fundo dos discursos do menino supostamente molestado, do suposto pedófilo, do pai e da mãe coniventes, do irmão mais velho que denuncia a suposta violência supostamente por vingança. E em contraposição, também não se esgosta a figura também ambígua do juiz, impotente como pai e marido, em contraposição à sua dedicação radical à investigação. O que todos estas vozes sobrepostas reclamam é, acima do interesse natural que a narrativa desperta, que prestemos atenção nos limites do teatro no próprio exemplo de Hamelin: Vejam como o teatro está nu! Ou como a palavra tiraniza a cena! Não seria melhor o cinema para dar a vocês o que vocês esperam deste tipo de história? O resultado não é simples. Um texto que chama a atenção para o ato de narrar ao mesmo tempo que não nos retira o interesse pelo que é narrado. Um texto que, dentro de sua proposta, fala de teatro para superá-lo como forma. Ao fim, fica a estranha sensação que estamos aplaudindo o dramaturgo e não ao conjunto dos atores e da direção, em unidade com a dramaturgia. Ultimamente, isto não deixa de ser algo digno de nota, bons textos não são como capim. Mas eles, por si mesmos, podem tranquilamente ser lidos em casa, já dizia o nosso velho Aristóteles. Fica então uma resposta provisória: o espetáculo, pela sua honra, era necessário para que o texto cumprisse aquilo que propõe.

2 comentários:

  1. Eu vi essa peça... Os atores deixaram a desejar...

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  2. Concordo! Mas o texto é uma arapuca, não condiciona o tipo de montagem onde a gente vê um ator brilhar, justamente pelas referências metalinguistas. Eles podem, no máximo, ser competentes.

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