domingo, 12 de setembro de 2010

Grupo Corpo: O eterno retorno


Na Panela: Ímã e Lecuona [Grupo Corpo]
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
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Desde 2007 não perco as turnês do Grupo Corpo. Foi uma noite desconcertante aquela, quando revi a companhia de dança depois de mais de dez anos desde a primeira vez. No programa, Sete ou Oito Peças Pra um Ballet, com um dos desfechos mais impactantes que o Grupo já ofereceu, e Breu, uma das melhores coisas que já vi e ouvi na vida. Desde então eu volto sempre, tentando atualizar aquilo que vivi diante daqueles espetáculos. E continuo. Continuo. Continuo. A noite de ontem, no Municipal, teria sido a mais fraca de todas. Desta vez vi Ímã bem de perto e, passado o assombro com aquela iluminação que causa um verdadeiro conflito no cérebro, pude perceber que a coreografia não é coesa e demora um pouco a fluir, talvez devido à trilha, que, mesmo sendo ótima, sai de um clima de experimentalismo somente na segunda metade. Há grandes momentos, é claro, onde a única razão de ser dos movimentos parece ser conectar a linguagem coreográfica de Pederneiras ao talento individual dos bailarinos, que a incorporam de modo assombroso (vide o caso paradigmático de Everson Botelho), ou onde a composição visual total (corpos, o cenário-cor, os figurinos-cor), digamos assim, é deslumbrante. Ímã é uma obra fluida, como comprova o fato de que o seu final foi completamente alterado e algumas dinâmicas foram extirpadas e, na minha humilde opinião, para o prejuízo do desfecho e para a fixação dos movimentos-chave da coreografia. Mas o grande lance do Corpo é esse, os pontos positivos sempre abafam os negativos e quando a luz se apaga, os aplausos ecoam inevitáveis. Eu disse logo acima que este teria sido um dos meus encontros mais fracos com o Corpo e agora explico: nunca morri de amores por Lecuona, que só conhecia por DVD, apesar de alguns momentos arrebatadores. Mas, contudo, porém, todavia... No palco, é um espetáculo maravilhoso. Pena que não tive a sorte de ver Ana Paula Cançado (agora é assistente de coreografia) dançando "Como Pressiento", um dos ápices da peça. Está tudo lá: o talento dos bailarinos, a linguagem do Corpo condensada nos duos, a luz, a música e, por fim, o desfecho emocionante, como não poderia deixar de ser. Um baile simples e delicado, numa sala de espelhos que reflete os vestidos brancos das bailarinas. Resultado: ano que vem estarei lá novamente. E no próximo. E no próximo. E no próximo.