terça-feira, 3 de agosto de 2010

6 Instantes de Solidão: Movimento, música e silêncio


Na Panela: 6 instantes de solidão. [Solo de Jacqueline Gimenes, coreografia de Rodrigo Pederneiras, com música executada ao vivo por Antônio Viola]
Onde: Teatro Poeira - Botafogo.
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Quem sai de casa para ver um solo de dança que dura em torno de 25 minutos? Essa foi a pergunta lançada por Rodrigo Pederneiras à platéia do Teatro Poeira, casarão charmoso que abriga uma arena bem versátil no seu miolo, na noite de estréia de 6 instantes de solidão no Rio de Janeiro, no último dia 29 de Julho. O que motivou os outros a ir até lá eu não sei, mas as minhas razões eu declarei em alto e bom som a todos os presentes no bate-papo que sucedeu ao espetáculo. Se continuo indo ao teatro, é porque na origem de tudo encontra-se uma noite na Praça Tiradentes em Ouro Preto, onde vi Missa do Orfanato e Nazareth. E surpreendentemente 6 instantes evoca a Missa, pela tensão dos movimentos e pela escolha de uma peça clássica como trilha, neste caso a suíte nº 2 para violoncelo de Bach, cuja divisão pauta a estrutura da coreografia, dividida em seis momentos. Seria previsível se pudéssemos facilmente reconhecer o estilo inconfundível do Grupo Corpo no corpo de Jacqueline Gimenes, a brilhante bailarina que é acompanhada em cena pela execução da suíte pelo violoncelista Antônio Viola, mas não é o que ocorre. Logo no primeiro movimento, o que vemos é uma partitura rígida, cheia de ângulos, onde a verticalidade parece ser mantida numa relação "magnética" contínua com o solo e que apaga qualquer resquício das linhas curvas e da malemolência do trabalho de Rodrigo a partir de 21. O resultado é inesperado, não só quando colocado sob este pano de fundo, mas pelo vigor desta peça tão curta quanto intensa. O fato do Poeira ser um teatro de arena deu aos espectadores a possibilidade de visualizar o espetáculo de modo mais intimista, contra a distância que um palco italiano naturalmente proporia: a respiração de Jacqueline acaba por ser incorporada à angústia que a coreografia insinua, não apenas durante a movimentação, mas nos instantes de silêncio que marcam o intervalo entre a execução de cada movimento da suíte. Como a própria bailarina revelou, estes momentos foram incorporados inicialmente para dar a ela a chance de se recompor, mas por fim constituíram a própria tessitura dramatúrgica da coreografia. Resultado: este trabalho oferece mais um belo exemplar do casamento entre música e dança, onde uma complementa a outra sem que exista alguma primasia entre elas, e que mereceria aplausos mesmo se durasse apenas 10 minutos.

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