segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Epheitos Kolaterais (Novas Metamorfoses): Não tenho TV em casa


Na Panela: Epheitos Kolaterais (Novas Metamorfoses) [Texto e Direção: Henrique Tavares; Elenco: Anderson Cunha, Carla Faour, Charles Fricks e Rita Elmôr]
Onde: Espaço SESC Copacabana
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Não assisto mais ao Fantástico, pois não tenho TV em casa. Ou seja, meus fins de semana perderam aquele signo claro da transição dolorosa para a segunda-feira. E pra repelir o mau humor que assombrou meu domingo, fui ao espetáculo que tinha perdido no sábado. Muito bacana o texto escrito pelo também diretor Henrique Tavares, onde os quatro personagens em cena relatam as estranhas metamorfoses que sofreram: um se transforma em cachorro (Anderson Cunha), outro em um náufrago-ilha no meio da baía de Guanabara (Charles Fricks), outra numa estátua (Carla Faour) e, por fim, a última em um sofá de consultório dentário (Rita Elmôr). São particularmente engraçadas as histórias do sofá e do cachorro, com destaque para a integração do figurino da Rita com o tecido do sofá que compõe o cenário, e o elenco rende bem em cena em cima de um texto que é basicamente narrativo. O personagem mais ingrato é o náufrago, pois a sua tônica dramática acaba por torná-lo menos atraente diante do humor sarcástico dos outros. Porém, essa contra-mão se revela necessária no desfecho da peça, onde o insólito soa familiar, principalmente aos domingos... dia de Faustão e Fantástico. Bom, pelo menos sofá eu não viro! Mas... Meu Deus, será que posso me transformar numa poltrona de teatro????

domingo, 29 de agosto de 2010

Nina Becker: Boa surpresa num sábado particularmente ruim


Na Panela: Nina Becker - Azul/Vermelho
Onde: SESC Copacabana
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Quando a cidade nos faz companhia, é bobagem pouca ficar em casa numa noite de sábado. Nunca pode-se advinhar o que ela, amiga quase sempre muda, tem pra nos mostrar. Foi assim que eu fui parar sem querer dentro de uma bonita arena no SESC Copacabana, depois de descobrir que os ingressos pra peça que eu queria ver tinham se esgotado (último fim de semana em cartaz + crítica positiva no jornal + teatro pequeno = ingressos esgotados) e que, no entanto, a Nina Becker estava lá, disponível, com sua bela voz e acompanhada dos ótimos músicos que formam a base da banda Do Amor (que por sua vez, são a base da BandaCê, dos últimos álbuns do Caetano Veloso), apresentando o repertório dos seus dois discos, Azul e Vermelho. Pena que, à despeito dos arranjos sempre pungentes, ela não tenha grandes canções na manga para que possa brilhar como brilhou, acompanhada de Nelson Jacobina (luxo!!!), em Lágrimas Negras, pérola pescada daquele disco antológico da Gal, Cantar. No fundo, é sempre assim: boas vozes precisam de boas canções, senão o negócio soa como trabalho "de banda" - se é que me faço entender - e não o debut solo de uma cantora refinada. De qualquer modo, vale a pena ouvir os discos (prefiro o Vermelho). E sobre o show, só de ter trazido à minha lembrança que versos como "Belezas são coisas acesas por dentro/Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento" foram escritos, retirou o meu sábado da órbita maçante em que ele girava. Valeu, Nina.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Isto aqui não é Gothan City: Realmente, não é


Na Panela: Isso aqui não é Gothan City [Grupo de Dança Primeiro Ato - Concepção e Direção: Paulinho Polika]
Onde: Teatro dos Quatro - Gávea.
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Quer saber? Já vou logo dizendo que este espetáculo foi uma decepção! Que coisa mais picareta pra se dizer, mas é verdade. Poxa, joguem Isso aqui não é Gothan City no Google e vocês com certeza vão achar as seguintes informações em vários meios de comunicação dos lugares por onde o espetáculo passou (acho que é pra isso que servem releases, para que o mundo da divulgação funcione): "(...) Transporta para o palco quadros e takes dançados, inspirados no universo das histórias em quadrinhos, do cinema e da televisão". Super convidativo, não é? Não se espera, a partir daí, que o clima de mistério dessas histórias seja sugerido só pelo gelo seco, ou que a maquiagem e figurinos não seja boa o suficiente para marcar tipos como "a mulher fatal", "a velha", "o marinheiro", "a dupla de ladrões" ou "o cantor latino", entre outros. Nem que a concepção coreográfica seja tão óbvia e reduzida às necessidades da dramaturgia cômica do espetáculo, quando se trata, afinal, de uma companhia de dança. Poxa, tudo bem, não era o que eu esperava, mas também nada foi oferecido que me convencesse de que valeu a pena ter apostado. Espetáculos mal acabados são intoleráveis pra mim.

P.S.: Tô lembrando aqui d' A noite dos palhaços mudos. Delícia de espetáculo... E também de Sim City -Cidade do Pecado... Aff, minha síndrome de obra-prima!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Noite ouropretana no Arpoador


Na Panela: Bourbon Street Fest - Shamarr Allen & The Underdawgs
Onde: Parque Garota de Ipanema - Arpoador.

Lembro de uma carta que o Poetinha escreveu a Elizabeth Bishop (?), dizendo que estava em Ouro Preto e que o tempo estava do jeito que ele gostava: dia frio, nublado, chuva fina. Bom pra ficar no quarto do hotel, pra escrever. Digamos que este clima - a cara de Ouro Preto -  não é muito compatível com a imagem do Rio de Janeiro. Pois eis que foi assim que este domingo amanheceu e... permaneceu a ponto de eu quase desistir de ir aos shows do Bourbon Street Fest, num parque no Arpoador com um nome pouco compatível com as condições climáticas da noite. Por esta razão só vi o último show da programação, o da banda Shamarr Allen & The Underdawgs. Bom... Se o festival era supostamente de jazz, posso dizer que estes moços de New Orleans eram, no mínimo, ecléticos. De Nirvana a Michael Jackson. De Gnarls Barkley a Coldplay. O som era bom, mas forte mesmo era o vento frio que vinha do mar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

6 Instantes de Solidão: Movimento, música e silêncio


Na Panela: 6 instantes de solidão. [Solo de Jacqueline Gimenes, coreografia de Rodrigo Pederneiras, com música executada ao vivo por Antônio Viola]
Onde: Teatro Poeira - Botafogo.
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Quem sai de casa para ver um solo de dança que dura em torno de 25 minutos? Essa foi a pergunta lançada por Rodrigo Pederneiras à platéia do Teatro Poeira, casarão charmoso que abriga uma arena bem versátil no seu miolo, na noite de estréia de 6 instantes de solidão no Rio de Janeiro, no último dia 29 de Julho. O que motivou os outros a ir até lá eu não sei, mas as minhas razões eu declarei em alto e bom som a todos os presentes no bate-papo que sucedeu ao espetáculo. Se continuo indo ao teatro, é porque na origem de tudo encontra-se uma noite na Praça Tiradentes em Ouro Preto, onde vi Missa do Orfanato e Nazareth. E surpreendentemente 6 instantes evoca a Missa, pela tensão dos movimentos e pela escolha de uma peça clássica como trilha, neste caso a suíte nº 2 para violoncelo de Bach, cuja divisão pauta a estrutura da coreografia, dividida em seis momentos. Seria previsível se pudéssemos facilmente reconhecer o estilo inconfundível do Grupo Corpo no corpo de Jacqueline Gimenes, a brilhante bailarina que é acompanhada em cena pela execução da suíte pelo violoncelista Antônio Viola, mas não é o que ocorre. Logo no primeiro movimento, o que vemos é uma partitura rígida, cheia de ângulos, onde a verticalidade parece ser mantida numa relação "magnética" contínua com o solo e que apaga qualquer resquício das linhas curvas e da malemolência do trabalho de Rodrigo a partir de 21. O resultado é inesperado, não só quando colocado sob este pano de fundo, mas pelo vigor desta peça tão curta quanto intensa. O fato do Poeira ser um teatro de arena deu aos espectadores a possibilidade de visualizar o espetáculo de modo mais intimista, contra a distância que um palco italiano naturalmente proporia: a respiração de Jacqueline acaba por ser incorporada à angústia que a coreografia insinua, não apenas durante a movimentação, mas nos instantes de silêncio que marcam o intervalo entre a execução de cada movimento da suíte. Como a própria bailarina revelou, estes momentos foram incorporados inicialmente para dar a ela a chance de se recompor, mas por fim constituíram a própria tessitura dramatúrgica da coreografia. Resultado: este trabalho oferece mais um belo exemplar do casamento entre música e dança, onde uma complementa a outra sem que exista alguma primasia entre elas, e que mereceria aplausos mesmo se durasse apenas 10 minutos.