quarta-feira, 26 de maio de 2010

Corte Seco: A estrutura aparente



Na Panela: Corte Seco [Com Du Moscovis, Marjorie Estiano, Domingos de Alcântara, dentre outros; direção de Christiane Jatahy]
Onde: Teatro Maria Clara Machado - Planetário da Gávea.
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Na verdade, falar alguma coisa definitiva sobre este espetáculo parece pressupor a necessidade de vê-lo mais de uma vez, mas suponhamos então que não temos em mãos nenhuma informação sobre o seu processo criativo e vejamos de que modo ele informa sobre si mesmo. Ora, ao entrar na arena do Teatro Maria Clara Machado, nos deparamos com o elenco circulando prosaicamente pelo espaço, iniciando bate-papos informais com o público que chega. Num canto, uma espécie de mesa de edição onde se encontra a diretora, o técnico de som e assistentes. Num outro lado, três telas de plasma (que não são meros apetrechos tecnológicos, como revela o seu uso dentro da costura do espetáculo), onde vemos o exterior do teatro, o hall de entrada, a rua. Christiane Jatahy, então, dá o comando para que tudo comece e assim permanece, controlando os "cortes" e as direções em que tudo transcorre. Cadeiras são espalhadas na arena e apropriadas pelos atores, onde podemos ler inscrições como "Narrar", "Descrever", "Interiorizar", "Caracterizar", "Dialogar", numa alternância envolvente de personagens. E não é por meio destas ferramentas que o discurso ficcional do teatro é possível? É na interação entre esta estrutura tornada aparente aos olhos do público  e o material dramatúrgico, as múltiplas histórias e referências estabelecidas previamente pelos atores que o espetáculo se dá, pendendo entre pólos de imprevisibilidade e códigos pré-estabelecidos. Percebe-se, pela minha dificuldade de condensar tudo, que é um espetáculo difícil de descrever, porque é metalinguístico, seu tema é o próprio fazer do teatro, mas, enquanto experiência, é delicioso. Não há como não esboçar um sorriso ao ver a diretora exitar entre a interrupção ou deixar uma ação que quase sai do controle correr. Também é saborosíssima a "cena-jogo" onde, após uma pequena aulinha sobre partituras corporais e estabelecimento de regras particulares para a desenrolar da ação, um trio masculino interpreta uma mãe, um pai e um filho em conflito, cujo significado (sincero!) brota escandalosamente do esqueleto previamente apresentado. Mais legal ainda é perceber que, mesmo diante de toda a mecânica da cena, ainda nos deixamos levar pelo conteúdo emocional das histórias. Corte Seco é fascinante por ser um empreendimento teatral que se apropria de procedimentos contemporâneos sem evocar a chatice das contemporaneidades... Utiliza-se deles para lançar luz sobre o mais elementar e misterioso, que é a própria experiência de ver e fazer teatro.

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