terça-feira, 25 de maio de 2010

A Religiosa: Diderot expressionista



Na Panela: A Religiosa [Adaptação do romance de Diderot, com Symone Strobel e direção de João Marcelo Pallottino]
Onde: Espaço SESC - Copacabana
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A Religiosa, de Diderot, é um romance sobre a liberdade e, portanto, típico do século XVIII, como contextualiza o texto da Hospedaria Cia de Teatro, que o trouxe à cena no SESC Copacabana. Trata-se da trajetória de Suzanne Simonin, jovem que é obrigada a ingressar na vida religiosa para expiar os pecados da mãe e que passa, nesse descaminho, por humilhantes degradações físicas e psicológicas resultantes do enclausuramento ao qual é submetida no convento. Ou seja, é um texto que pode ser lido como uma tragédia que coloca a liberdade e sua afirmação no centro do drama, e deste modo, é iluminista. O interessante é que o que poderia ser a razão do naufrágio da montagem acaba sendo o seu trunfo: a sua estética expressionista. Como apresentar um monólogo histórico onde só há sofrimento sem torná-lo over? O conjunto do espetáculo mostra-se inteligente em relação a este problema. A voz da atriz (ótima), por meio de aparelhagem de som, é sempre ouvida em ecos pelo espaço, evocando a clausura e a solidão. A luz, por sua vez, é utilizada como elemento narrativo ao criar espaços e cortes temporais, ora revelando, ora deformando a figura da personagem, e forma um bloco unitário com o cenário composto por uma única peça, ao mesmo tempo vidraça, porta, teatro de sombras e prisão. O interior conturbado de Suzanne está ali, materializado, e, assim, a peça surpreende ao escapar do óbvio. Vale muito mais do que os R$5,00 que paguei para vê-la.

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