sábado, 16 de janeiro de 2010

Sobre Avatar


Algum tempo depois de todo o planeta Terra ter conferido a saga daqueles tais seres azuis que pipocaram em fotos por todo canto, os Na'vi, finalmente fui assistir a Avatar num cinema 3D em Belo Horizonte. Foi minha primeira experiência com esta tecnologia, realmente surpreendente no contexto particular deste filme, cujo grande mérito é conduzir o espectador para dentro de um mundo totalmente singular e com tratamento realista. Incrível se sentir dentro das florestas ou ter sensação de que podemos tocar naquela fauna espetacular que está diante dos nossos olhos. James Cameron usou mais uma vez um aparato tecnológico gigantesco para recriar algo próximo ao que podemos chamar de Apocalipse, porém desta vez parece ter cedido a uma mensagem ecológica. Antes do fascínio com as máquinas, seu tema preferencial (O Exterminador do Futuro, de 1984, é o melhor exemplar), agora o foco é a natureza. E então o diretor nos pega pela mão e pacientemente nos abre a caixa do planeta Pandora, sob o olhar do personagem principal Jake Sully. Pena que quando já estamos inseridos naquela geografia, o roteiro caminhe progressivamente para o óbvio. Visualmente deslumbrante e honesto, mas muitas vezes clichê, Avatar não decepciona porque sua proposta não é tola, como destacou Isabella Boscov, na Veja, comparando-a com o papel que os efeitos visuais desempenham em filmes medíocres como Transformers: "De uma forma instintiva, não intelectualizada, porém não menos filosófica, todo seu cinema [o de Cameron] tem sido um comentário sobre a imaginação simultaneamente artística e tecnológica da espécie humana - e sobre como, nessa ânsia biologicamente programada de multiplicar até o infinito suas capacidades, ela perde controle sobre o que cria na mesma medida em que o aumenta, e toca tanto o belo como o terrível. Imaginar, dizem os filmes de Cameron - todos eles -, é abrir uma caixa de Pandora. Se o cinema for tomado como tal, então dela podem sair um sem-fim de burrices, algumas inclusive velhacas, como as que o avanço dos efeitos já produziu. Ou pode sair algo como Avatar - em alguns momentos redundante, em outros até um pouco cafona. Mas, em todos os instantes, invariavelmente animado pelo desejo de se alçar, de ir além e de engrandecer." Pandora veio à luz numa perspectiva terráquea e biologicamente verossímil. Tudo é deslumbrante e exótico, mas nunca impalpável, daí o mérito de que todos os grandes momentos do filme advenham de personagens azuis de três metros de altura que nunca caem no ridículo. Pena que quando toda esta beleza, digamos, natural, venha ao encontro da guerra com os homens, tudo se restrinja a uma batalha maniqueísta e estruturada de modo um tanto dejavù. Neste sentido, na lista daqueles que utilizaram aparatos digitais para trazer à tela o novo, eu ainda fico com Peter Jackson, cujo refinadíssimo senso estético demonstrado, por exemplo, na estupenda batalha da introdução do primeiro filme da trilogia O senhor dos anéis, ainda é, até o momento, para mim, a prova imbatível do que a tecnologia é capaz de oferecer ao cinema quando está nas mãos de criadores de talento.

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