sábado, 18 de dezembro de 2010

Pterodátilos: Animais em extinção


Na Panela: Pterodátilos [Direção: Felipe Hirsch; Texto: Nicky Silver; Com: Marco Nanini, Mariana Lima, Álamo Facó e Felipe Abib]
Onde: Teatros das Artes - Gávea.
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No cartaz da peça Pterodátilos, duas coisas nos chamam a atenção: a figura central de um esqueleto com roupas femininas, tal como uma socialite loira, e o nome de Marco Nanini, escrito em tom de amarelo berrante e em caixa alta. Não podemos, no entanto, banalizar as intenções marqueteiras da arte gráfica. É óbvio que muita gente vai ao teatro para ver aquele ator famoso da TV, mas, nesse caso, bobo é quem acha que o Sr. Lineu,  para comemorar 45 anos de carreira,  vai oferecer ao espectador um coquetel de frutas leve e um pedaço de bolo.  Pteodátilos é uma comédia de humor negro de alto nível que capta uma família em processo de extinção na sala de estar. A mãe (Mariana Lima), alcóolatra e consumista, mal sabe o nome da filha de 15 anos (Marco Nanini), uma figura complicada que pretende se casar com um garçon enrustido (Felipe Abib) que acaba virando a empregada da casa. O pai ausente (Marco Nanini) finalmente aparece quando o filho gay retorna depois de anos fora. Com AIDS. É literalmente um desequilíbrio total, perfeitamente sintetizado no cenário incrível de Daniela Thomas, o chão da sala é móvel e é desmontado no decorrer da ação. E esse caos é totalmente risível. Deliciosamente risível. Sem culpa nenhuma, mesmo que o pano de fundo seja sombrio. O texto do Nicky Silver, absolutamente meticuloso em seu vocabulário, nunca resvala no besteirol e exige dos atores rigor na composição de seus personagens (todos muito interessantes e ricos), o que nos dá a sensação de que, mesmo naquele desastre, tudo está sob controle. Mariana Lima está fantástica, Felipe Abib tem seus momentos de destaque e o ponto fraco do quarteto é Álamo Facó, que ficou com o rojão na mão, já que seu personagem é o fio que costura o drama que está por baixo da comédia. Em alguns momentos, sua interpretação soa artificial e mecânica, talvez pelas marcas de direção que sublinham o caráter profético do personagem. E a estrela da festa, claro, é Marco Nanini, que interpreta dois personagens, mas brilha mesmo na pele da adolescente problemática. É um prazer ver esse grande ator em cena, oferecendo a nós o seu próprio presente de aniversário. Nem a súbita aceleração da narrativa em direção a um desfecho apocalíptico e "sério" tira de Pterodátilos o mérito de ser um dos melhores espetáculos que entraram em cartaz a partir de setembro no Rio, revigorando uma cena que andou a passos de tartaruga nos primeiros meses de 2010. Se o nome de Marco é sinônimo de teatro lotado, que ele seja escrito em letras garrafais nos cartazes quando se tratar de espetáculos como esse.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Comédia Russa: Pela metade


Na Panela: Comédia Russa [Cia Os Fodidos Privilegiados; Texto: Pedro Brício; Direção João Fonseca]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.
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Uma repartição pública russa inútil, cheia de funcionários que trabalham duro para perpetuar o ócio, é remexida pela chegada de um recém-concursado ingênuo. Tudo muito assim, digamos, russo. Imagina só se nós brasileiros temos alguma coisa a ver com isso! Pra completar, um crime envolvendo uma funcionária desencadeia o maior quiproquó e detetives entram na lona. Essa Comédia Russa, bem escrita, bem interpretada, com boas soluções em seu cenário composto por móbiles e com figurinos ótimos onde se destaca sempre a cor vermelha, só tem um problema: não me arrancou uma gargalhada sequer, embora seja um espetáculo muito bem humorado. Devo assumir uma parcela dessa dívida?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marlene Dietrich, as Pernas do Século: Joga no Google!


Na Panela: Marlene Dietrich - As pernas do século [Texto: Aimar Labaki; Direção: William Pereira; Direção Musical: Roberto Bahal. Com Sylvia Bandeira, José Mauro Brant, Marciah Luna Cabral e Sílvio Ferrari]
Onde: Solar de Botafogo.
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Quem foi Marlene Dietrich? Joga no Google! Menos instantâneo e mais caloroso é o espetáculo musical em cartaz no Solar de Botafogo, que presta tributo a esta mulher que já era uma estrela do rock antes mesmo do rock existir (frase da peça). Dietrich morreu em 1992 aos 90 anos em Paris, trancada em seu apartamento. Só recebia a filha e a empregada. Madonna, super-blonde e sexualmente provocativa, ou seja, fã da diva alemã, já escandalizava meio mundo naquela época. E é uma conversa com um entregador de champagne (José Brant), conhecedor de Madonna que sequer havia ouvido falar nessa tal de Marlene, o mote para que a senhora, interpretada por Sylvia Bandeira, conte o seu passado de glórias à platéia que se faz representar na figura daquele jovem, numa simples e eficiente licença poética da dramaturgia. Da Berlim romântica e pobre dos anos 20 à Hollywood glamourosa dos anos 40, do ativismo de guerra à shows caríssimos em Las Vegas, a biografia deste mito do cinema e dos cabarés é descortinada também por meio das canções que fizeram sucesso em sua voz, com o apoio de Marciah Cabral e Sílvio Ferrari, que se desdobram em vários personagens e narradores. Daí vem grande parte do charme do espetáculo: todo o elenco canta muito bem e o passeio musical é harmonioso, discreto, sem grandes arroubos dramáticos (Destaco o medley que uniu Where have all the flowers gone, de Peter Seeger, e Blowing in the wind, de Bob Dylan). O saldo é o serviço prestado pelo espetáculo, que traz à lembrança algo que já se perdeu na nossa cultura pop: o glamour e a elegância inatingíveis onde se fabricavam e se equilibravam as estrelas do passado. E por isto tornaram-se mitos cruéis: nenhum dinheiro do mundo nos daria aquela aura. Nenhum. 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Virgínia Rodrigues: Negrume da noite


Na Panela: Virgínia Rodrigues & Alex Mesquita. Participação de B-Negão.
Onde: Solar de Botafogo.
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Ainda não entendi o esquema de divulgação de eventos na Cidade Maravilhosa sem que se tenha que comprar o jornal O Globo. E por isto quase perdi o belíssimo recital de Virgínia Rodrigues, acompanhada pelo violonista Alex Mesquita, nesta noite super quente de terça-feira! Não me lembro bem como foi que o canto de Virgínia chegou até mim, só sei que o disco Nós, lançado em 2000, está entre os que eu colocaria numa grande cápsula e enterraria, pra quem sabe algum ser a encontrar num futuro distante, depois que a nossa civilização desaparecer. A voz dessa mulher assustava a minha mãe com razão. Tem algo de bruto, de primitivo, de inacabado no seu trato com os versos das canções,  mas aí vêm aqueles graves ancestrais, ou aqueles vocalises que transitam entre o erudito e o popular. E o recado está dado: Virgínia é uma grande cantora (o público europeu sabe disso e a sustentou durante esses últimos anos). Neste show, ela aborda majoritariamente em seu repertório os afro-sambas de Baden e Vinícius, gravados por ela no disco Mares Profundos. Canto de Ossanha, Canto de Xangô, Labareda, Berimbau e Consolação são antológicas por si só, porém me surpreenderam mesmo foram as abordagens de Virgínia para Melodia Sentimental (Villa-Lobos), Antonico (Ismael Silva - emblemática na voz de Gal),  e a participação de B-Negão em Noite de Temporal (Caymmi) e em Juízo Final (Nelson Cavaquinho). Essa última com o acréscimo de beatboxes de Negão. Mas a porrada no estômago veio com uma interpretação linda de doer de Amor, meu grande amor (um clássico de Ângela Ro Ro), que me fez sair do teatro preenchido por aqueles momentos frente a frente com essa baiana extraordinária, que resgatou nesta noite em seu canto um pouquinho da minha memória afetiva musical.

domingo, 28 de novembro de 2010

Adriana Partimpim: Enquanto isso, no Centro do Rio...


Na Panela: Adriana Partimpim - Dois é Show.
Onde: Arcos da Lapa - Centro.
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28 de novembro, belo domingo ensolarado na cidade de São Sebastião. Às 17:00, quando Adriana Partimpim subiu em um dos palcos do projeto Brasilidade, promovido pelo Minc para levar a diversidade cultural brasileira às ruas do Centro, o que estariam fazendo as crianças que moram nas favelas distantes que dominaram o noticiário semanal? Ninguém sabe, ninguém nunca vai saber. Antes ou agora, depois da tomada do Complexo do Alemão, essas narrativas, tão pouco maniqueístas e afastadas do gosto popular, não vendem jornal e permanecerão escondidas. O público não era numeroso, talvez por causa dos conflitos na cidade, ou talvez por ter sido a divulgação do evento ofuscada pelo tal combate ao terror. Foi um bom show? Eu particularmente não gosto de Partimpim 2, que é um disco bem inferior ao primeiro projeto infantil de Adriana Calcanhotto e me soou como uma jogada de marketing da gravadora desesperada pela queda vertiginosa da vendagem de discos. E como o Partimpim foi um sucesso... por que não um segundo volume? As melhores músicas do show foram justamente aquelas do projeto originário (Ciranda da Bailarina, Lig-lig-lig-lé, Saiba, Canção da falsa tartaruga), com algumas exceções como Alexandre (um delioso axé didático e de letra quilométrica retirado daquele que talvez seja o último grande disco de canções de Caetano Veloso, Livros). O clima lúdico criado pelos figurinos e pelos objetos coloridos e brinquedos do cenário também foram prejudicados pela luminosidade natural, mas valeu pela iniciativa de levar esse tipo de espetáculo às ruas, de graça. Pena que tal iniciativa, por mais bem intencionada que seja, parece atingir somente aqueles que já se converteram à idéia de que a arte e a cultura tem algum valor, que o cultivo da boa música é coisa que começa no berço, que acreditam (mesmo que não consigam justificar esta crença) que a partir dessa "educação estética" os filhos podem se tornar pessoas melhores quando forem gente grande. Mas, para além de tudo isso, os mendigos da Cinelândia assistiam ao jogo do Flamengo na TV e crianças sujas, filhas de não sei quem, corriam entre os pombos, inalcançadas pelos valores cultivados pelos pais zelosos que carregavam seus filhos (lindos!) nos ombros à um quarteirão dali.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Banquete, de Zé Celso: O eterno retorno do Cu


Na Panela: O Banquete [Teatro Oficina - Direção Zé Celso Martinez Correa]
Onde: Terreirão do Samba - Marquês de Sapucaí.
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Dionisíacas em viagem é o nome do projeto que trouxe ao Rio quatro espetáculos do Teatro Oficina (não fiquei sabendo com antecedência, porque quem não compra o jornal O Globo na sexta-feira não fica sabendo de nada), entre eles As Bacantes e O Banquete, este último uma livre adaptação de uma das obras-primas literárias e filosóficas de Platão. Livre meeeeeesmo. Assim como o banquete (ou simpósio) grego que reúne atenienses ilustres para comemorar a vitória de Agatão no concurso de tragédias concentra-se no debate sobre a natureza do amor, o banquete antropofágico (o povo gosta desta palavra, coitada, tão estuprada) de Zé Celso é pretexto para o seu teatro carnavalesco, erótico e, no presente caso, prolixo e falacioso, sob o pano de fundo da louvação de Eros. Mas se o banquete de Platão é marcado pela variedade de pontos de vista, Zé Celso achata tudo numa única linha de viés sexual. Sinceramente, não esperava que o meu primeiro encontro com este criador fundamental para a história do teatro nacional fosse tão previsível. Estava tudo lá: a galerinha disposta a "interagir" a todo custo com o espetáculo (leia-se: tirar a roupa sem nenhum motivo), a poética ritualística que nem sempre dá certo (distribuir vinho e frutas à platéia não instaura necessariamente um ambiente "dionisíaco"), e o blablabla da liberação disso, liberação daquilo. Entre os itens, claro, como não podia faltar, o Cu. Essa ventosa tão menosprezada, como ele mesmo canta, não sai da boca de Zé Celso. É o símbolo da repressão e da liberação sexual e, por isto, deve haver um altar para este orifício-deus na sede do Oficina. No entanto, é o tradicional momento da apologia do Cu que resume bem o que este Banquete tem de criativo: um clima musical festivo sustentado por canções interessantes e pela excelente banda, uma certa manipulação do público (de boa vontade), por meio do discurso jocoso dos personagens, e o nonsense que é ver o diretor da festa, na pele de Sócrates, introduzindo os dedos no Olho Sagrado de um de seus atores, em imagem aumentada no telão. Nesta direção, também é impagável a sequência de interação com o público da personagem Afrodite/Iemanjá/Pomba-Gira, realmente engraçada e provocativa, culminando com um voluntário de quatro e sem calças pronto pra ser penetrado por um cacete dourado. Ou seja, o Dioniso opera pelo poder liberador do riso aqui. Para além disso, pouco se salva deste espetáculo muitas vezes arrastado em suas 4 horas de duração. São muitas as interpolações arbitrárias e falaciosas, geralmente comentários políticos ou teses capengas como a defesa da liberação das drogas para solucionar a guerra do narcotráfico ou uma crítica fora de lugar ao monólogo como forma de teatro caça-níquel, por exemplo. É claro que pro Zé Celso isso não é um problema para o seu teatro, pelo contrário, é constitutivo dele, ainda mais pra quem botava a boca no trombone em plena ditadura. Mas hoje, dar o cu e "pederastia" são coisas totalmente triviais para o público que lotou as arquibancadas do Terreirão do Samba e ficar pelado numa peça do Oficina é tão convencional como usar calça jeans. Carece de sentido, perdeu-se o lastro significativo. Paradoxalmente, o espírito dionisíaco que foi convocado para devolver ao teatro uma certa dimensão ritual onde as pessoas partilham uma experiência de cunho libertador sai pela porta dos fundos. Esse teatro rebolativo oferece apenas aquilo que todos querem dele e convenhamos, esse Dioniso também está nas boates e nos shows (não é à toa que Michael Jackson é citado à certa altura). Buscar o deus em suas outras moradas pode ser muito mais proveitoso, madrugada afora. Mas não esqueçamos: ele tem várias faces. Talvez o Oficina devesse recuperar aquele Dioniso aterrador que, depois do carnaval, oferece à contemplação a cabeça de Penteu. Mas aí teria que superar a sua própria identidade, ou seja, submeter-se ao poder destrutivo daquele a quem tanto cultua.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Deus da Carnificina: O Deus do Teatro


Na Panela: Deus da Carnificina [Direção: Emílio de Mello; Texto: Yasmina Reza; Com Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo, Paulo Betti]
Onde: Teatro Maison de France - Centro.
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1. São 20:11 e tudo é branco no Foyer do Teatro Maison de France, com exceção dos corrimãos prateados e das portas de madeira em tom claro. Perambulei pelas bibliotecas da universidade  até dar a hora de entrar no metrô e descer no Centro sujo. Odeio aquelas ruas à noite. Fedem, mesmo depois da chuva. Agora estou aqui, sentando num puff branco. Estava só, mas pessoas de meia idade e vários grupos de mulheres idosas bem vestidas começaram a chegar. Vi nos jornais que esta é uma das melhores peças em cartaz na cidade. Lá fora, os mendigos. Poxa, quem vai ao teatro numa quinta à noite (ingresso caro)? Pergunta idiota: todos os ingressos estão vendidos, pouco interessa.
2.  Deus da Carnificina documenta aquilo que acontece quando um time formidável de atores sob direção precisa dá vida a um texto do mais alto quilate. Tudo se resume nisto e ao mesmo tempo não se deixa resumir: dois casais se reúnem para discutir uma briga envolvendo seus filhos e dessa superfície cordial vão aflorando progressivamente comportamentos pouco pacíficos. A dinâmica excelente dos diálogos (que carrega nas costas todo o espetáculo) é coisa nova pra mim. Ora! Há dramaturgos de talento escrevendo textos tradicionais na contemporaneidade (hoje em dia, que fique bem claro). Não faltam flatulências verbais afirmando que este modelo de teatro estaria ultrapassado. Felizmente, há contra-exemplos contra tal dogmatismo. Mas a acessibilidade do espetáculo, demonstrada no riso constante da plateia em reação ao humor sarcástico onipresente, não oculta o conteúdo ácido do confronto dos casais. Sinceramente, não achei graça nenhuma. No máximo, esbocei um sorriso amarelo, o que me fez incluir como parte do espetáculo todos aqueles presentes que enxergaram em Deus da Carnificina uma comédia genuína. Parece que de algum modo todo mundo que não se incomodou minimamente com o drama que está debaixo do cômico endossou a hipocrisia daqueles personagens, principalmente aquela que se abriga em bandeiras pacifistas e na defesa da cultura como libertadora e civilizadora. E por que eu haveria de me arrogar como distinto daquelas pessoas? Poxa, ir ao teatro numa quinta-feira no Centro sujo da cidade, quase 12 horas fora de casa, e ir embora correndo pra não correr o risco de assalto. Além de tudo o ingresso é caro, talvez eu fique sem grana no fim do mês. Pago pra ver alguma verdade ser lançada na minha cara? Às vezes o Deus do Teatro também é o Deus da Carnificina.


O Matador de Santas: Melodrama familiar policial ao som de um bolero


Na Panela: O matador de santas [Direção: Guilherme Leme; Texto: Jô Bilac; Com Ângela Vieira, Rafaela Amado, Tonico Pereira e Rafael Sieg]
Onde: Teatro Clara Nunes - Gávea
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Adoro ir ao teatro sem ter idéia do que vou encontrar. E nunca se espera encontrar um melodrama familiar sob o pano de fundo de um mistério policial, ao som de um bolero. Parece brega como o espelho em forma de coração e o lustre de tom encarnado que se destacam no cenário, mas não é. Grata surpressa esse O matador de santas, escrito por um dramaturgo brasileiro, Jô Bilac. Nele, o velho pai aposentado e a filha esquisita (que à despeito disso está prestes a se casar com um médico tão bem sucedido quanto afetado) estão submetidos ao comportamento controlador de Jorgina, tipo venenoso que quer provar a todo custo que o vizinho é o serial killer que vem aterrorizando a cidade, degolando moças com nomes de santas. Ângela Vieira brilha na pele de Jorgina, apesar da rigidez de algumas marcações, bem como Tonico Pereira, cujo personagem só abre a boca pra se defender da língua ferina e do humor negro da esposa na última cena da peça. É um prazer pra mim, que convivo com a cena carioca há apenas alguns meses, ver o outro lado da moeda destes rostos conhecidos da TV. O palco deixa à mostra tudo o que um close e um texto coloquial banal naturalmente ocultam num folhetim das 21:00. É nesse terreno fértil que fakes como um tal de Paulo Vilhena insistem em se habilitar, participando de montagens "ousadas" como  Hedwig e o Centímetro Enfurecido, onde o dito cujo interpreta um travesti. Se fui ver? Claro que não! Mas fui bombardeado por milhares de manchetes retardadas que consideram o fato de um um galã medíocre se travestir no palco digno de relevância. Merda pra ele, literalmente. Porque ingressos vendidos com certeza ele já tem.

sábado, 6 de novembro de 2010

Hair: Let the sunshine in


Na Panela: Hair [Direção: Charles Moeller; Texto original: Gerome Ragni, James Rado; Música: Galt McDermot; Versão brasileira: Claudio Botelho. Com Karin Hils, Hugo Bonemer, Igor Rickli, Marcel Octavio, dentre outros]
Onde: Teatro Oi Casa Grande - Leblon.
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Superada a crise financeira que me fez perder Mikhail Baryshnikov e também o Ballet de Geneve, fui à estréia de Hair no Teatro Oi Casa Grande. Por questões orçamentárias assisti o espetáculo de um ponto de vista para o qual ele não foi criado: do alto. Mas nada que tirasse o seu brilho. Não sou fã de musicais, mas não poderia deixar de conferir a montagem da grife Moeller & Botelho deste que é, com certeza, um dos mais famosos do gênero. Todo mundo já ouviu, no mínimo, a canção Aquarius e é ela que apresenta a comunidade de hippies protagonistas que em 1968 pregavam paz e amor, experimentavam drogas e sexo, confrontando o american way of life e rebelando-se contra o alistamento militar para a guerra do Vietnã. Ou seja, os temas são muito datados, embora o espírito da coisa permaneça atual. Logo no primeiro número, percebe-se que a fonte única dos defeitos desse musical vem justamente desta origem datada e dos traços indeléveis que ela deixa no texto. Qualquer adaptação, mesmo a mais ousada, ao tentar escapar disto, apresentaria outra coisa e não... Hair. Imaginem uma concepção menos lúdica e mais tensa, se for possível. Além da exigência de super atores, Moeller & Botelho estreiariam um espetáculo por ano e olhe lá, com produção cara e sob o risco de uma recepção negativa por parte do público que tem sustentado a retomada do gênero. Assim, aqueles personagens de 68 foram reencarnados como hippies de botique (principalmente devido à caracterização e aos figurinos, que nem por isso deixam de ser lindos) e logo de cara a coreografia bastante óbvia em Aquarius (braços para o alto, muitos braços para o alto) dão a falsa sensação de que estamos diante de algo morto, mas que se sustenta pelo clima colorido e bem humorado e pela qualidade das músicas. Fiquei impressionado quando vi e ouvi Karin Hils cantar esta canção, lembram dela? Uma das meninas do Rouge. Arrasou nos vocais, embora limitada como atriz. Aliás, boa parte do elenco de apoio fica com aquela cara de chuchu quando não está envolvido na cena, o que dá a sensação ruim de que, mesmo num espetáculo de alto nível e de grande apelo visual, permanecem estes ranços de teatro escolar. Porém, o espetáculo cresce e ganha peso no segundo ato, quando as notas políticas do texto vão para o primeiro plano, numa progressão dramática que inclui números mais sombrios e que culmina no emocionante número final, com a soberba Let the sunshine in. À despeito da fama de Aquarius, esta é pra mim, desde que ouvi pela primeira vez, a melhor canção de Hair. E as belíssimas imagens que encerram o espetáculo, unidas à força desta canção, explicam porque os musicais tem feito tanto sucesso no eixo Rio-São Paulo. Contudo, continuo batendo na mesma tecla. Musical é um gênero que sofre (ou deveria sofrer) de síndrome de obra-prima. Canções e dramaturgia precisam ser uma só coisa, um casamento perfeito, senão o trem sai da linha e a concepção visual das cenas tem que sustentar a unidade do espetáculo, tapando o buraco. Todo musical precisa ser um exemplar legítimo do gênero, senão é mera colagem de canções. Ele herdou este fardo da ópera e não é à toa que temos tanta coisa kitsch ao som de música erudita por aí, basta procurar no Youtube. Hair caminha no fio da navalha e, se triunfa, é porque Charles Moeller e Claudio Botelho sabem mesmo das coisas...

domingo, 24 de outubro de 2010

Hamelin: Dramaturgo 1 x 0 Espetáculo ??????


Na Panela: Hamelin [Texto: Juan Mayorga. Direção: André Paes Leme. Com: Vladimir Brichta, Alexandre Melo, Oscar Saraiva, Cláudia Ventura, Patrícia Simões, Alexandre Danta]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.
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No conto dos irmãos Grimm, a cidade de Hamelin é infestada por ratos, para desespero de seus moradores. Eis que aparece por lá um flautista que promete exterminar a praga, desde que o pagassem. Com a sua música, atrai os ratos até um lago, onde se afogam. Porém, sem as provas de que os bichos invasores estavam realmente mortos, os moradores não cumprem o trato. Para se vingar, o flautista usa seu instrumento para atrair todas as crianças do lugarejo e as leva embora. Essa história sem final feliz dá título e permeia Hamelin, espetáculo que retornou à ativa após estrear em São Paulo ano passado e passar pelo CCBB do Rio nos primeiros meses deste ano. Trata-se de uma encenação propositalmente econômica de um texto excelente, metalinguístico e bastante literário, que narra a investigação fragmentada de um caso de pedofilia por um juiz obcecado em solucioná-lo, mas sem sucesso. O tema denso, cuja psicologia levaria quase que automaticamente a um realismo na construção do espetáculo, acaba suavizado pela perspectiva reflexiva que o próprio texto impõe. Todo o tempo há a interferência de falas neutras, fora da representação, dos atores que se revezam à margem da cena, seja pontuando pausas, seja descrevendo de modo mais imaginativo o que se passa nela, seja sublinhando a função que estas mesmas falas ocupam na linguagem do espetáculo. Não se chega nunca à verdade que repousa no fundo dos discursos do menino supostamente molestado, do suposto pedófilo, do pai e da mãe coniventes, do irmão mais velho que denuncia a suposta violência supostamente por vingança. E em contraposição, também não se esgosta a figura também ambígua do juiz, impotente como pai e marido, em contraposição à sua dedicação radical à investigação. O que todos estas vozes sobrepostas reclamam é, acima do interesse natural que a narrativa desperta, que prestemos atenção nos limites do teatro no próprio exemplo de Hamelin: Vejam como o teatro está nu! Ou como a palavra tiraniza a cena! Não seria melhor o cinema para dar a vocês o que vocês esperam deste tipo de história? O resultado não é simples. Um texto que chama a atenção para o ato de narrar ao mesmo tempo que não nos retira o interesse pelo que é narrado. Um texto que, dentro de sua proposta, fala de teatro para superá-lo como forma. Ao fim, fica a estranha sensação que estamos aplaudindo o dramaturgo e não ao conjunto dos atores e da direção, em unidade com a dramaturgia. Ultimamente, isto não deixa de ser algo digno de nota, bons textos não são como capim. Mas eles, por si mesmos, podem tranquilamente ser lidos em casa, já dizia o nosso velho Aristóteles. Fica então uma resposta provisória: o espetáculo, pela sua honra, era necessário para que o texto cumprisse aquilo que propõe.

sábado, 23 de outubro de 2010

Fragmentos do Desejo: Fragmentos de memória.

Na Panela: Fragmentos do desejo [Cia Dos à Deux]
Onde: CCBB - Rio de Janeiro
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Não sei por onde começar, melhor mesmo nem dizer muita coisa. Não que não seja possível dizer, apenas não encontro o fio da meada para descrever brevemente este belíssimo espetáculo da trupe franco-brasileira Dos à Deux. Um conflito familiar nunca resolvido, o desejo de ser outra pessoa, a possibilidade de amar. Abusos. Sonhos. Desejos. O pai, o filho, a empregada. O travesti. O cego. A casa. O cabaré. O passado. Não há diálogos em Fragmentos do desejo, mas não se trata de uma peça de fundo experimental radical, a narrativa é clássica e se desdobra por meio de uma concepção visual elaborada e eloquente (figurinos, objetos e cores precisos), da afinação do elenco e do uso tão surpreendente quanto comovente de bonecos e adereços que vêm à cena em momentos dramáticos complexos em consonância com todos os elementos simbólicos da peça. E é esse acabamento visual e simbólico das imagens que fazem com o que o espetáculo (aquilo que é feito para a vista) não encontre lugar numa sinopse como eu tento fazer aqui agora, mas sim na memória. Ter visto Fragmentos do desejo foi a experiência teatral mais gratificante até o momento na cidade de São Sebastião.

domingo, 12 de setembro de 2010

Grupo Corpo: O eterno retorno


Na Panela: Ímã e Lecuona [Grupo Corpo]
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
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Desde 2007 não perco as turnês do Grupo Corpo. Foi uma noite desconcertante aquela, quando revi a companhia de dança depois de mais de dez anos desde a primeira vez. No programa, Sete ou Oito Peças Pra um Ballet, com um dos desfechos mais impactantes que o Grupo já ofereceu, e Breu, uma das melhores coisas que já vi e ouvi na vida. Desde então eu volto sempre, tentando atualizar aquilo que vivi diante daqueles espetáculos. E continuo. Continuo. Continuo. A noite de ontem, no Municipal, teria sido a mais fraca de todas. Desta vez vi Ímã bem de perto e, passado o assombro com aquela iluminação que causa um verdadeiro conflito no cérebro, pude perceber que a coreografia não é coesa e demora um pouco a fluir, talvez devido à trilha, que, mesmo sendo ótima, sai de um clima de experimentalismo somente na segunda metade. Há grandes momentos, é claro, onde a única razão de ser dos movimentos parece ser conectar a linguagem coreográfica de Pederneiras ao talento individual dos bailarinos, que a incorporam de modo assombroso (vide o caso paradigmático de Everson Botelho), ou onde a composição visual total (corpos, o cenário-cor, os figurinos-cor), digamos assim, é deslumbrante. Ímã é uma obra fluida, como comprova o fato de que o seu final foi completamente alterado e algumas dinâmicas foram extirpadas e, na minha humilde opinião, para o prejuízo do desfecho e para a fixação dos movimentos-chave da coreografia. Mas o grande lance do Corpo é esse, os pontos positivos sempre abafam os negativos e quando a luz se apaga, os aplausos ecoam inevitáveis. Eu disse logo acima que este teria sido um dos meus encontros mais fracos com o Corpo e agora explico: nunca morri de amores por Lecuona, que só conhecia por DVD, apesar de alguns momentos arrebatadores. Mas, contudo, porém, todavia... No palco, é um espetáculo maravilhoso. Pena que não tive a sorte de ver Ana Paula Cançado (agora é assistente de coreografia) dançando "Como Pressiento", um dos ápices da peça. Está tudo lá: o talento dos bailarinos, a linguagem do Corpo condensada nos duos, a luz, a música e, por fim, o desfecho emocionante, como não poderia deixar de ser. Um baile simples e delicado, numa sala de espelhos que reflete os vestidos brancos das bailarinas. Resultado: ano que vem estarei lá novamente. E no próximo. E no próximo. E no próximo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Epheitos Kolaterais (Novas Metamorfoses): Não tenho TV em casa


Na Panela: Epheitos Kolaterais (Novas Metamorfoses) [Texto e Direção: Henrique Tavares; Elenco: Anderson Cunha, Carla Faour, Charles Fricks e Rita Elmôr]
Onde: Espaço SESC Copacabana
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Não assisto mais ao Fantástico, pois não tenho TV em casa. Ou seja, meus fins de semana perderam aquele signo claro da transição dolorosa para a segunda-feira. E pra repelir o mau humor que assombrou meu domingo, fui ao espetáculo que tinha perdido no sábado. Muito bacana o texto escrito pelo também diretor Henrique Tavares, onde os quatro personagens em cena relatam as estranhas metamorfoses que sofreram: um se transforma em cachorro (Anderson Cunha), outro em um náufrago-ilha no meio da baía de Guanabara (Charles Fricks), outra numa estátua (Carla Faour) e, por fim, a última em um sofá de consultório dentário (Rita Elmôr). São particularmente engraçadas as histórias do sofá e do cachorro, com destaque para a integração do figurino da Rita com o tecido do sofá que compõe o cenário, e o elenco rende bem em cena em cima de um texto que é basicamente narrativo. O personagem mais ingrato é o náufrago, pois a sua tônica dramática acaba por torná-lo menos atraente diante do humor sarcástico dos outros. Porém, essa contra-mão se revela necessária no desfecho da peça, onde o insólito soa familiar, principalmente aos domingos... dia de Faustão e Fantástico. Bom, pelo menos sofá eu não viro! Mas... Meu Deus, será que posso me transformar numa poltrona de teatro????

domingo, 29 de agosto de 2010

Nina Becker: Boa surpresa num sábado particularmente ruim


Na Panela: Nina Becker - Azul/Vermelho
Onde: SESC Copacabana
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Quando a cidade nos faz companhia, é bobagem pouca ficar em casa numa noite de sábado. Nunca pode-se advinhar o que ela, amiga quase sempre muda, tem pra nos mostrar. Foi assim que eu fui parar sem querer dentro de uma bonita arena no SESC Copacabana, depois de descobrir que os ingressos pra peça que eu queria ver tinham se esgotado (último fim de semana em cartaz + crítica positiva no jornal + teatro pequeno = ingressos esgotados) e que, no entanto, a Nina Becker estava lá, disponível, com sua bela voz e acompanhada dos ótimos músicos que formam a base da banda Do Amor (que por sua vez, são a base da BandaCê, dos últimos álbuns do Caetano Veloso), apresentando o repertório dos seus dois discos, Azul e Vermelho. Pena que, à despeito dos arranjos sempre pungentes, ela não tenha grandes canções na manga para que possa brilhar como brilhou, acompanhada de Nelson Jacobina (luxo!!!), em Lágrimas Negras, pérola pescada daquele disco antológico da Gal, Cantar. No fundo, é sempre assim: boas vozes precisam de boas canções, senão o negócio soa como trabalho "de banda" - se é que me faço entender - e não o debut solo de uma cantora refinada. De qualquer modo, vale a pena ouvir os discos (prefiro o Vermelho). E sobre o show, só de ter trazido à minha lembrança que versos como "Belezas são coisas acesas por dentro/Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento" foram escritos, retirou o meu sábado da órbita maçante em que ele girava. Valeu, Nina.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Isto aqui não é Gothan City: Realmente, não é


Na Panela: Isso aqui não é Gothan City [Grupo de Dança Primeiro Ato - Concepção e Direção: Paulinho Polika]
Onde: Teatro dos Quatro - Gávea.
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Quer saber? Já vou logo dizendo que este espetáculo foi uma decepção! Que coisa mais picareta pra se dizer, mas é verdade. Poxa, joguem Isso aqui não é Gothan City no Google e vocês com certeza vão achar as seguintes informações em vários meios de comunicação dos lugares por onde o espetáculo passou (acho que é pra isso que servem releases, para que o mundo da divulgação funcione): "(...) Transporta para o palco quadros e takes dançados, inspirados no universo das histórias em quadrinhos, do cinema e da televisão". Super convidativo, não é? Não se espera, a partir daí, que o clima de mistério dessas histórias seja sugerido só pelo gelo seco, ou que a maquiagem e figurinos não seja boa o suficiente para marcar tipos como "a mulher fatal", "a velha", "o marinheiro", "a dupla de ladrões" ou "o cantor latino", entre outros. Nem que a concepção coreográfica seja tão óbvia e reduzida às necessidades da dramaturgia cômica do espetáculo, quando se trata, afinal, de uma companhia de dança. Poxa, tudo bem, não era o que eu esperava, mas também nada foi oferecido que me convencesse de que valeu a pena ter apostado. Espetáculos mal acabados são intoleráveis pra mim.

P.S.: Tô lembrando aqui d' A noite dos palhaços mudos. Delícia de espetáculo... E também de Sim City -Cidade do Pecado... Aff, minha síndrome de obra-prima!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Noite ouropretana no Arpoador


Na Panela: Bourbon Street Fest - Shamarr Allen & The Underdawgs
Onde: Parque Garota de Ipanema - Arpoador.

Lembro de uma carta que o Poetinha escreveu a Elizabeth Bishop (?), dizendo que estava em Ouro Preto e que o tempo estava do jeito que ele gostava: dia frio, nublado, chuva fina. Bom pra ficar no quarto do hotel, pra escrever. Digamos que este clima - a cara de Ouro Preto -  não é muito compatível com a imagem do Rio de Janeiro. Pois eis que foi assim que este domingo amanheceu e... permaneceu a ponto de eu quase desistir de ir aos shows do Bourbon Street Fest, num parque no Arpoador com um nome pouco compatível com as condições climáticas da noite. Por esta razão só vi o último show da programação, o da banda Shamarr Allen & The Underdawgs. Bom... Se o festival era supostamente de jazz, posso dizer que estes moços de New Orleans eram, no mínimo, ecléticos. De Nirvana a Michael Jackson. De Gnarls Barkley a Coldplay. O som era bom, mas forte mesmo era o vento frio que vinha do mar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

6 Instantes de Solidão: Movimento, música e silêncio


Na Panela: 6 instantes de solidão. [Solo de Jacqueline Gimenes, coreografia de Rodrigo Pederneiras, com música executada ao vivo por Antônio Viola]
Onde: Teatro Poeira - Botafogo.
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Quem sai de casa para ver um solo de dança que dura em torno de 25 minutos? Essa foi a pergunta lançada por Rodrigo Pederneiras à platéia do Teatro Poeira, casarão charmoso que abriga uma arena bem versátil no seu miolo, na noite de estréia de 6 instantes de solidão no Rio de Janeiro, no último dia 29 de Julho. O que motivou os outros a ir até lá eu não sei, mas as minhas razões eu declarei em alto e bom som a todos os presentes no bate-papo que sucedeu ao espetáculo. Se continuo indo ao teatro, é porque na origem de tudo encontra-se uma noite na Praça Tiradentes em Ouro Preto, onde vi Missa do Orfanato e Nazareth. E surpreendentemente 6 instantes evoca a Missa, pela tensão dos movimentos e pela escolha de uma peça clássica como trilha, neste caso a suíte nº 2 para violoncelo de Bach, cuja divisão pauta a estrutura da coreografia, dividida em seis momentos. Seria previsível se pudéssemos facilmente reconhecer o estilo inconfundível do Grupo Corpo no corpo de Jacqueline Gimenes, a brilhante bailarina que é acompanhada em cena pela execução da suíte pelo violoncelista Antônio Viola, mas não é o que ocorre. Logo no primeiro movimento, o que vemos é uma partitura rígida, cheia de ângulos, onde a verticalidade parece ser mantida numa relação "magnética" contínua com o solo e que apaga qualquer resquício das linhas curvas e da malemolência do trabalho de Rodrigo a partir de 21. O resultado é inesperado, não só quando colocado sob este pano de fundo, mas pelo vigor desta peça tão curta quanto intensa. O fato do Poeira ser um teatro de arena deu aos espectadores a possibilidade de visualizar o espetáculo de modo mais intimista, contra a distância que um palco italiano naturalmente proporia: a respiração de Jacqueline acaba por ser incorporada à angústia que a coreografia insinua, não apenas durante a movimentação, mas nos instantes de silêncio que marcam o intervalo entre a execução de cada movimento da suíte. Como a própria bailarina revelou, estes momentos foram incorporados inicialmente para dar a ela a chance de se recompor, mas por fim constituíram a própria tessitura dramatúrgica da coreografia. Resultado: este trabalho oferece mais um belo exemplar do casamento entre música e dança, onde uma complementa a outra sem que exista alguma primasia entre elas, e que mereceria aplausos mesmo se durasse apenas 10 minutos.

domingo, 4 de julho de 2010

Delírios de Will: Ê mambemba!


Só pra não passar em branco, registro a passagem do Mambembe pelo Rio de Janeiro, com o espetáculo Delírios de Will, numa versão mais enxuta que a da estréia em Ouro Preto! Confesso que a primeira era bastante confusa e me perdi entre tantas referências, mas esta é bem melhor, mais limpa, ressaltando as qualidades do "mosaico dramatúrgico" construído sobre a obra de Shakespeare. Tenho que confessar também que Delírios, apesar de alguns momentos fantásticos, como a cena da morte da personagem da Aila (foto), não está na minha lista das peças top do Mambembe, onde figuram A menina de lá, O conto da ilha desconhecida, Os irmãos Dagobé e a antológica primeira montagem de O barão das árvores. Mas o que vale é que as pessoas que foram ao belo Parque das Ruínas em Santa Teresa viram algo de qualidade. Espero que o grupo não perca o seu espírito e o apuro estético que fizeram a sua história, em mais um momento de saída de integrantes e entrada de novos. Ai, de repente bateu uma saudade daqueles sábados de sol onde a trupe surgia em algum adro de igreja, com aqueles figurinos e maquiagem fabulosos!

In Conserto: E quem não ri, é o que?


Na Panela: In Conserto - Teatro de Anônimo. [Com João Carlos Artigos, Fábio Freitas e Shirley Britto]
Onde: Teatro do Jockey - Gávea.
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Quando vemos por aí algumas expressões marqueteiras que circulam na rede, como "um dos mais conceituados grupos", "vencedor do prêmio", etc e tal, acabamos por criar expectativas em relação a alguns espetáculos. E nem sempre o que esperamos se concretiza, se é que temos esse direito. É o caso deste (curto) In Conserto. Consta que o Teatro do Anônimo "é uma das principais companhias de palhaço do país", mas foram poucas as situações inusitadas e risíveis. Nada que deprecie o talento destes três atores, muito pelo contrário. Simplesmente achei pouca graça... Poxa, se quem ri por último é retardado, quem não ri é o que?

Devassa - Segundo "A Caixa de Pandora" (Lulu): Um bom TCC?


Na Panela: Devassa - Segundo "A caixa de Pandora" (Lulu), de Frank Wedekind. [Cia dos Atores, direção de Nehle Franke]
Onde: Espaço SESC Copacabana.
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Assisti a quase todos os TCC's (Trabalhos de Conclusão de Curso) do pessoal de Artes Cênicas da UFOP produzidos nos últimos cinco anos e esta é a minha formação teatral como espectador em Ouro Preto, já que a cidade só costuma receber espetáculos do circuito nacional (leia-se Belo Horizonte. São Paulo e Rio só no tempo de vagas gordas...) em julho, no Festival de Inverno. Então, quem movimenta a "cena" local, hoje bem decadente, são os estudantes. Mas, se digo que as coisas não andam tão bem das pernas, em consequência de uma certa imaturidade das últimas turmas que ingressaram na universidade, é porque houve grandes momentos. Esses são alguns dos meus paradigmas de realização cênica e é a partir deles que posso dizer que o novo espetáculo da Cia dos Atores funciona como um bom TCC. Por que digo isto? Porque a companhia comprou a idéia sempre ambiciosa de montar um texto alemão difícil do final do século XIX e  que resultou, após o processo de adaptação, numa peça um tanto longa, mas concisa. Trata-se de texto, como o próprio nome já insua, sobre a mulher. Uma narrativa complexa, cheia de sobreposições de imagens, gira em torno de uma figura feminina misteriosa que espalha a destruição entre vários homens e uma aristocrata lésbica. Os primeiros minutos são até incômodos, pois não se sabe se o se jogo de palavras sem sentido vai se conectar numa narrativa inteligível. Preciso pesquisar sobre o Frank Wedekind, pois com certeza soa revolucionário para a época em que foi escrito, tanto pela temática fortemente erótica quanto pela forma. O mérito desta montagem é não permitir que os aspectos literários a soterrem e, neste sentido, é uma realização que, se não chega a ser arrebatadora, atinge o alvo a que se propõe, com boas interpretações, boas imagens e algumas doses de experimentação. Só acho que a figura de Lulu poderia ser mais interessante, mais ambígua, com mais nuances. Mas nada que venha a derrubar este bom trabalho.

sábado, 26 de junho de 2010

Avenida Q: A primeira vez...


Na Panela: Avenida Q [Com novo elenco e direção de Christina Trevisan, sob direção original da grife Charles Moeller&Cláudio Botelho]
Onde: Teatro Carlos Gomes (Na esquisitérrima Praça Tiradentes... Aposto que vou ser assaltado nas imediações quando for ver a temporada popular da Deborah Colker, caso eu não pegue um táxi).
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Eu poderia começar a escrever igual à Bárbara Heliodora aqui [A luz em geral é _____. Os figurinos são _____. O cenário é ______. O elenco em geral está ______, com destaque para ______. A direção _____, mas ______.] Aliás, ela tem escrito cada vez pior no Globo, as resenhas parecem todas iguais, com a mesma estrutura e nada informativas. Sinceramente, perdi a referência, nunca imaginei que uma intelectual tão influente soasse tão banal no jornal. Quando Avenida Q estreiou em 2009, por exemplo, ela foi a única que publicou um texto lacônico e menosprezou o humor debochado e politicamente incorreto do espetáculo, afirmando que ele seria distante para nós brasileiros. Pois eu ri de chorar no Primeiro Ato, coisa raríssima! Este foi o primeiro musical que vejo no palco (o seu lugar?) e vi, mesmo não sendo especialista, o que entendo que um musical deva ser: um genêro que nunca, em hipótese alguma, pode se servir de músicas de modo acessório. Enredo, canções e coreografias tem que ser unitários, não meras extravagâncias ou cerejas de um bolo que às vezes nem é tão gostoso (Vejam os exemplos cafonas de Hollywood, que produziu muito picolé de chuchu sob o rótulo de caviar). Avenida Q é conduzido e narrado pelas canções, seria impossível pensá-lo sem elas. E elas são uma delícia! Não me lembro nem da metade das melodias neste exato momento em que escrevo, mas todas funcionam no espetáculo com suas letras excelentes, isto é que importa. As coreografias ficaram de fora, claro, pois a grande maioria dos impagáveis personagens são bonecos e o elenco se equilibra brilhantemente na tarefa de dar vida a todos eles e de cantar. Os Ursinhos do Mal, o Trekkie Monster (o número "A internet é pornô", protagonizada por ele, é hilariante) e a cantora Lucy de Vassa pagam o ingresso. Baratinho, aliás. Minha carteira de estudante é uma navalha!!!

domingo, 30 de maio de 2010

São João sem canjica não é São João...


Na Panela: São João Carioca
Onde: Quinta da Boa Vista - São Cristovão - 29/05
Veredicto: Sem canjica, mas com a Gal.

O pamonha do Serginho Groismann tem razão quando disse, ao apresentar o principal show da noite do "São João Carioca", evento gratuito realizado durante todo o dia na Quinta da Boa Vista (um parque enorme e bacana que já serviu de retiro à família real, como quase tudo nas imediações do Centro do Rio), que é uma tendência da Prefeitura e da Globo Rio a realização de atividades culturais fora do eixo da zona sul como forma de atender à esmagadora maioria da população carioca. Questões sócio-culturais à parte, tudo transcorreu bem tranquilamente, com muita segurança, nada de brigas e... canjica. Tenho que reclamar! Gilberto Gil, o anfitrião da festa, anunciou na TV que haveria barraquinhas com comidas típicas, mas não havia canjica!! Inaceitável!!! Afinal de contas, São João não é São João sem canjica. Mas havia churros e enormes filas para comprá-los, um pouco menores que as filas para a gororoba que agora recebe o nome de cachorro-quente (deviam chamá-lo pão-com-tudo-dentro, pois pra mim ovo de codorna com salsicha é uma combinação abominável). Pra compensar esta falha gravíssima, somente a música. Gil é um músico maravilhoso, que efetivamente lidera uma banda que não se restringe a acompanhá-lo. Os convidados foram apenas um plus, pois a cama sonora já estava montada e seria suficiente. Não vou comentar todas as perfomances individuais (na ordem: Preta Gil, Mart'nália, Vanessa da Mata, Alcione, Gal Costa e Zeca Pagodinho), que julguei, quase que sem exceção, fracas. Mas cabe dizer: a) Vanessa da Mata ainda não foi decapitada no meu reino particular de cantoras porque rende no estúdio (ou seja, a parafernália técnica encobre os defeitos que surgem incontornáveis no palco). b) Alcione é burra e autêntica na sua burrice, o que é um elogio. c) Mart'nália insiste em personificar caricaturalmente no palco uma figura que já está morta: o malandro carioca. Odeio esse lance dela se apresentar quase sempre bêbada, errando as entradas, derrapando nas letras e tal. Voltando ao que interessa... Além do mestre Gil, havia ela, Gal. Mais magra, discreta, cantou a linda "De onde é que vem o baião", que está lá em seu penúltimo grande disco, Água Viva (de 1978... que tristeza!), e depois o clássico junino "Festa do interior". Pela diva, valeu a pena a ausência da canjica e a enorme fila no metrô.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Corte Seco: A estrutura aparente



Na Panela: Corte Seco [Com Du Moscovis, Marjorie Estiano, Domingos de Alcântara, dentre outros; direção de Christiane Jatahy]
Onde: Teatro Maria Clara Machado - Planetário da Gávea.
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Na verdade, falar alguma coisa definitiva sobre este espetáculo parece pressupor a necessidade de vê-lo mais de uma vez, mas suponhamos então que não temos em mãos nenhuma informação sobre o seu processo criativo e vejamos de que modo ele informa sobre si mesmo. Ora, ao entrar na arena do Teatro Maria Clara Machado, nos deparamos com o elenco circulando prosaicamente pelo espaço, iniciando bate-papos informais com o público que chega. Num canto, uma espécie de mesa de edição onde se encontra a diretora, o técnico de som e assistentes. Num outro lado, três telas de plasma (que não são meros apetrechos tecnológicos, como revela o seu uso dentro da costura do espetáculo), onde vemos o exterior do teatro, o hall de entrada, a rua. Christiane Jatahy, então, dá o comando para que tudo comece e assim permanece, controlando os "cortes" e as direções em que tudo transcorre. Cadeiras são espalhadas na arena e apropriadas pelos atores, onde podemos ler inscrições como "Narrar", "Descrever", "Interiorizar", "Caracterizar", "Dialogar", numa alternância envolvente de personagens. E não é por meio destas ferramentas que o discurso ficcional do teatro é possível? É na interação entre esta estrutura tornada aparente aos olhos do público  e o material dramatúrgico, as múltiplas histórias e referências estabelecidas previamente pelos atores que o espetáculo se dá, pendendo entre pólos de imprevisibilidade e códigos pré-estabelecidos. Percebe-se, pela minha dificuldade de condensar tudo, que é um espetáculo difícil de descrever, porque é metalinguístico, seu tema é o próprio fazer do teatro, mas, enquanto experiência, é delicioso. Não há como não esboçar um sorriso ao ver a diretora exitar entre a interrupção ou deixar uma ação que quase sai do controle correr. Também é saborosíssima a "cena-jogo" onde, após uma pequena aulinha sobre partituras corporais e estabelecimento de regras particulares para a desenrolar da ação, um trio masculino interpreta uma mãe, um pai e um filho em conflito, cujo significado (sincero!) brota escandalosamente do esqueleto previamente apresentado. Mais legal ainda é perceber que, mesmo diante de toda a mecânica da cena, ainda nos deixamos levar pelo conteúdo emocional das histórias. Corte Seco é fascinante por ser um empreendimento teatral que se apropria de procedimentos contemporâneos sem evocar a chatice das contemporaneidades... Utiliza-se deles para lançar luz sobre o mais elementar e misterioso, que é a própria experiência de ver e fazer teatro.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Darth Vader no Municipal



Na Panela: OSB interpreta John Williams.
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Veredicto: Não vi nem ouvi...

Pois é... Acordei cedo, cheguei com um pouco mais de uma hora de antecedência, mas... a fila dava voltas no quarteirão do Teatro Municipal, que acaba de voltar às atividades após mais de dois anos em reforma, e não foi possível conseguir um ingresso para assistir à apresentação da Orquestra Sinfônica Brasileira na manhã de domingo. O programa era uma homenagem ao compositor John Williams, famoso pelas trilhas antológicas que fez para o cinema, tais como E.T, Indiana Jones, Tubarão e Star Wars. Deve ter sido muito bom. Da próxima vez eu chego às 06:00 da manhã.

A Religiosa: Diderot expressionista



Na Panela: A Religiosa [Adaptação do romance de Diderot, com Symone Strobel e direção de João Marcelo Pallottino]
Onde: Espaço SESC - Copacabana
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A Religiosa, de Diderot, é um romance sobre a liberdade e, portanto, típico do século XVIII, como contextualiza o texto da Hospedaria Cia de Teatro, que o trouxe à cena no SESC Copacabana. Trata-se da trajetória de Suzanne Simonin, jovem que é obrigada a ingressar na vida religiosa para expiar os pecados da mãe e que passa, nesse descaminho, por humilhantes degradações físicas e psicológicas resultantes do enclausuramento ao qual é submetida no convento. Ou seja, é um texto que pode ser lido como uma tragédia que coloca a liberdade e sua afirmação no centro do drama, e deste modo, é iluminista. O interessante é que o que poderia ser a razão do naufrágio da montagem acaba sendo o seu trunfo: a sua estética expressionista. Como apresentar um monólogo histórico onde só há sofrimento sem torná-lo over? O conjunto do espetáculo mostra-se inteligente em relação a este problema. A voz da atriz (ótima), por meio de aparelhagem de som, é sempre ouvida em ecos pelo espaço, evocando a clausura e a solidão. A luz, por sua vez, é utilizada como elemento narrativo ao criar espaços e cortes temporais, ora revelando, ora deformando a figura da personagem, e forma um bloco unitário com o cenário composto por uma única peça, ao mesmo tempo vidraça, porta, teatro de sombras e prisão. O interior conturbado de Suzanne está ali, materializado, e, assim, a peça surpreende ao escapar do óbvio. Vale muito mais do que os R$5,00 que paguei para vê-la.

Siba e a Fuloresta: Som e poesia de Nazaré da Mata/PE


Na Panela: Siba e Fuloresta.
Onde: Teatro Oi Futuro Ipanema
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Mesmo com ingressos esgotados para todas as apresentações de Siba e a Fuloresta no projeto Oi Futuro Som, na unidade Ipanema da instituição cultural da empresa de telefonia, não arredei o pé da calçada, na esperança de algum desistente me vender o seu precioso ingresso. E assim foi. O disco Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar é muuuuuuito bom e seria péssimo perder a chance de conferir ao vivo. Grata surpresa! Os ritmos da região da Mata Norte de Pernambuco, este estado de cultura tão impressionante quanto a pobreza do seu sertão, foram contagiantes logo nas primeiras notas dos instrumentos de sopro que compõem, junto com os percussivos, a impagável Fuloresta, banda formada por carismáticos senhores captaneados pelo belo ragazzio Siba, esse mestre cirandeiro cosmopolita (!). A devoção desse pessoal às raízes da música que produzem, aliada ao profundo conhecimento dela que demonstram no palco, chega a ser comovente. Dez!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sobre Avatar


Algum tempo depois de todo o planeta Terra ter conferido a saga daqueles tais seres azuis que pipocaram em fotos por todo canto, os Na'vi, finalmente fui assistir a Avatar num cinema 3D em Belo Horizonte. Foi minha primeira experiência com esta tecnologia, realmente surpreendente no contexto particular deste filme, cujo grande mérito é conduzir o espectador para dentro de um mundo totalmente singular e com tratamento realista. Incrível se sentir dentro das florestas ou ter sensação de que podemos tocar naquela fauna espetacular que está diante dos nossos olhos. James Cameron usou mais uma vez um aparato tecnológico gigantesco para recriar algo próximo ao que podemos chamar de Apocalipse, porém desta vez parece ter cedido a uma mensagem ecológica. Antes do fascínio com as máquinas, seu tema preferencial (O Exterminador do Futuro, de 1984, é o melhor exemplar), agora o foco é a natureza. E então o diretor nos pega pela mão e pacientemente nos abre a caixa do planeta Pandora, sob o olhar do personagem principal Jake Sully. Pena que quando já estamos inseridos naquela geografia, o roteiro caminhe progressivamente para o óbvio. Visualmente deslumbrante e honesto, mas muitas vezes clichê, Avatar não decepciona porque sua proposta não é tola, como destacou Isabella Boscov, na Veja, comparando-a com o papel que os efeitos visuais desempenham em filmes medíocres como Transformers: "De uma forma instintiva, não intelectualizada, porém não menos filosófica, todo seu cinema [o de Cameron] tem sido um comentário sobre a imaginação simultaneamente artística e tecnológica da espécie humana - e sobre como, nessa ânsia biologicamente programada de multiplicar até o infinito suas capacidades, ela perde controle sobre o que cria na mesma medida em que o aumenta, e toca tanto o belo como o terrível. Imaginar, dizem os filmes de Cameron - todos eles -, é abrir uma caixa de Pandora. Se o cinema for tomado como tal, então dela podem sair um sem-fim de burrices, algumas inclusive velhacas, como as que o avanço dos efeitos já produziu. Ou pode sair algo como Avatar - em alguns momentos redundante, em outros até um pouco cafona. Mas, em todos os instantes, invariavelmente animado pelo desejo de se alçar, de ir além e de engrandecer." Pandora veio à luz numa perspectiva terráquea e biologicamente verossímil. Tudo é deslumbrante e exótico, mas nunca impalpável, daí o mérito de que todos os grandes momentos do filme advenham de personagens azuis de três metros de altura que nunca caem no ridículo. Pena que quando toda esta beleza, digamos, natural, venha ao encontro da guerra com os homens, tudo se restrinja a uma batalha maniqueísta e estruturada de modo um tanto dejavù. Neste sentido, na lista daqueles que utilizaram aparatos digitais para trazer à tela o novo, eu ainda fico com Peter Jackson, cujo refinadíssimo senso estético demonstrado, por exemplo, na estupenda batalha da introdução do primeiro filme da trilogia O senhor dos anéis, ainda é, até o momento, para mim, a prova imbatível do que a tecnologia é capaz de oferecer ao cinema quando está nas mãos de criadores de talento.