terça-feira, 25 de agosto de 2009

Eu não gosto da Blanche

Li "Um bonde chamado desejo" motivado por Almodóvar, em "Tudo sobre minha mãe", e pelo discurso do Apolinário quando ele ganhou o MOMU e fez uma linda citação de um trecho da peça ("Morrerei por ter comido uma uva que não estava lavada, um dia, no meio do mar...") em homenagem à Héder, que havia morrido de Aids há pouco tempo. Confesso, contudo, que o centro do drama, a personagem Blanche, me incomoda muitíssimo. Ela é uma anti-heroína (Schiller a abominaria completamente) abatida pela sua própria indignidade. Sim, eu acho a Blanche indigna, no sentido de que sua força dramática advém da absoluta fraqueza diante de uma série de desabamentos em sua vida e a única arma que ela dispõe é a afetação. Fingir ser aquilo que não é, revelando, no entanto, sempre o contrário. Blanche é um travesti, digamos. Madame Satã, mas despida de toda fortaleza moral. Logo, não resta outro caminho senão o abatimento pela força bruta de um Stanley. Esta aí, talvez, o dolorido: em sua derrota declara que sempre precisou da delicadeza de estranhos, mas no caso dela, delicadeza é sinônima de indulgência, tal como o olhar triste com que concordamos com os loucos. É preciso escapar dos macacos e dos brutos, porém com olhar agudo. É esta a lição que Blanche nos dá, negativamente.

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