quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pina Bausch Tanztheater Wuppertal: Promessas de felicidade

Terça-feira, meia-noite: São Paulo, vista do oitavo andar do hotel onde vou passar a noite, se esconde na névoa. Meus olhos estão vermelhos de cansaço. Segunda-feira, meio-dia: escapei de um treinamento em Belo Horizonte e peguei um avião, atravessei o rush do início da noite dentro de um táxi na maior cidade do país, fui surpreendido pelo frio, tomei chuva. Mas nada me tirou o sorriso do rosto quando toquei o ingresso reservado em meu nome na bilheteria do Teatro Alfa. Setor 1, poltrona D113, bem em frente ao palco. Pina Bausch Tanztheater Wuppertal. Sim, eu viajei 400 km para ver uma coreografia da Pina. Minha mãe achou o propósito absurdo, o taxista também, assim como o olhar do recepcionista do hotel, ao perguntar se eu estava à trabalho na cidade e receber uma resposta inesperada, confirmou o que parece consensual. Por que ver Sagração da Primavera? Por que? Pra que Café Muller? A resposta, pra mim, é simples. Porque é necessário. Não é porque é cult, ou porque a apresentação desta noite foi a primeira fora da Alemanha após a morte de Pina. Talvez ninguém tenha realmente a obrigação de entender as razões pelas quais eu atravessei esfarrapado o hall do teatro, entre Wagner Moura, Camila Morgado e as pessoas mais bem vestidas que já vi na vida, para me sentar silenciosamente em frente ao cenário simples de Café Muller. Ninguém tem mesmo que saber. Sinceramente, esta "coreografia" me pareceu uma peça experimental, o que evidentemente é seu mérito, justamente por ter sido copiada, direta ou indiretamente, por tudo que quis receber este adjetivo posteriormente. Mas a grande emoção estava reservada para o fim da noite. A Sagração da Primavera me tocou profundamente, com seus 42 bailarinos dançando sobre a terra no palco, sujando-se nela, numa coreografia tão supreendente quanto simples, tão precisa quanto intensa, revelando em cada passagem aquilo que eu fui buscar lá: uma pontinha de vida. Naquele palco dançavam homens e mulheres, transformando em fenômeno estético tudo aquilo que neles era vital e restaurando em mim, mesmo que por pouco tempo, esta dimensão esquecida. No espelho, é como se eu visse sempre a minha nuca, como no quadro de Magritte. Mas um espetáculo tão vigoroso como este parece devolver informações preciosas sobre mim mesmo, ou sobre o fracasso do meu corpo diante daquelas pessoas. Um marxista me chamaria de pequeno-burguês medíocre, mas como bom pequeno-burguês, eu pouco me importo. Continuarei preso ao campo magnético de criadores como Pina, à espera de milagres, epifanias. Pois como disse Stendhal, a beleza é uma promessa de felicidade.

sábado, 12 de setembro de 2009

Spartacus - Ballet (Brega) em 3 (Insuportáveis) Atos

Café Müller é de 1978. Missa do Orfanato estreou em 1989. E em 1984 o Bolshoi fez Spartacus. Dança com libreto, em três atos, com trocentos bailarinos narrando ao som de uma música 99,999% grandiloquente um tema hollywoodiano, com cenários ultrapassados, figurinos dignos da Marquês de Sapucaí e totalmente fiel a um vocabulário coreográfico clássico que soa totalmente inadequado e afetado. Tudo meio assim, século XIX. Ok, ok, os bailarinos são tecnicamente irrepreensíveis. Mas o bonde da história da arte é cruel.

sábado, 5 de setembro de 2009

How to be a Hepburn in a Hilton World?

Num site da World Wide Web: "Contrariando o que havia dito anteriormente, a cantora Lady Gaga negou ser hermafrodita. 'Minha linda vagina está muito ofendida. Eu não, minha vagina está ofendida'." Eu mereço...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Parada Gay de Ouro Preto em 5 tópicos, a partir de sua extensa programação

  1. Solenidade de abertura na Câmara. Isto não significa que os vereadores respeitem os gays ou que um homem culto como Ângelo Oswaldo admire o trabalho do promoter Bombom. É tudo marketing político mesmo.
  2. Haverá apenas um debate público sobre o "panorama" das atividades GLBT. É o tipo de palestra sem tema, aí qualquer blablabla vira pauta. O resto é festa.
  3. Os (dois) DJ´s são de São Paulo e Rio. Faltou London, Paris, Munich, Miami, Ibiza, New York.
  4. A madrinha da Parada (leia-se pequena aglomeração de pessoas) deste ano é a Rosana-Como-Uma-Deusa. Boa voz, pelo menos um clássico dos anos 80 no bolso, mas o resto é... resto. Tipo assim, botox e gelo seco.
  5. No fim, o mais interessante. Os "pocket shows", o burburinho e o bafão vão acontecer em pleno Largo de Antônio Dias, bairro essencialmente de ouropretanos. No domingo de manhã muitas vovós vão necessariamente trombar com travestis e gays na Ponte de Marília, à caminho da missa. Forasteiros, ressalte-se. Os netinhos morreriam de vergonha se fossem pegos na porta da boate "Mamãe Já Sabia".*
*Eta nome infame!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Orgulho?


Acabo de assistir à Milk. Belo documento que nos mostra o quanto o movimento gay atual é decadente enquanto defensor de direitos inalienáveis do ser humano, comparado ao que acontecia em São Francisco nos anos 70. Liberdade agora é sinônimo de dar o cu em dark room e paradas do orgulho gay são freak shows onde o que menos está em pauta é a consciência de seu ato político. Em certo momento do filme, a legenda traduz como "bicha" o que a gíria em inglês denomina "cock sucker". O idioma tem lá suas razões.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Eu não gosto da Blanche

Li "Um bonde chamado desejo" motivado por Almodóvar, em "Tudo sobre minha mãe", e pelo discurso do Apolinário quando ele ganhou o MOMU e fez uma linda citação de um trecho da peça ("Morrerei por ter comido uma uva que não estava lavada, um dia, no meio do mar...") em homenagem à Héder, que havia morrido de Aids há pouco tempo. Confesso, contudo, que o centro do drama, a personagem Blanche, me incomoda muitíssimo. Ela é uma anti-heroína (Schiller a abominaria completamente) abatida pela sua própria indignidade. Sim, eu acho a Blanche indigna, no sentido de que sua força dramática advém da absoluta fraqueza diante de uma série de desabamentos em sua vida e a única arma que ela dispõe é a afetação. Fingir ser aquilo que não é, revelando, no entanto, sempre o contrário. Blanche é um travesti, digamos. Madame Satã, mas despida de toda fortaleza moral. Logo, não resta outro caminho senão o abatimento pela força bruta de um Stanley. Esta aí, talvez, o dolorido: em sua derrota declara que sempre precisou da delicadeza de estranhos, mas no caso dela, delicadeza é sinônima de indulgência, tal como o olhar triste com que concordamos com os loucos. É preciso escapar dos macacos e dos brutos, porém com olhar agudo. É esta a lição que Blanche nos dá, negativamente.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Google = Deus

Estava eu a momofukuar nesta tarde de sexta, quando me veio à mente o quão geniais eram as trilhas dos games [clássicos absolutos] do início dos anos 90. Pra mim, são três as obras-primas em termos de trilhas naquela época, apesar de eu não ser especialista e ter abandonado completamente este universo: Sonic, para Megadrive, Mario Bros e Donkey Kong, da Nintendo. E para a minha alegria, eis que estão todas disponíveis no site http://gh.ffshrine.org/soundtracks/view-all, que descobri obviamente no Oráculo Google, ou no Youtube, o olho que tudo sabe, tudo vê e tudo mostra (o que é pior). Só quem já passou madrugadas no escuro do quarto sentado devotamente na frente de uma caixa mágica e de um console sabe a emoção de ouvir as antológicas "Carnival Night", "Chemical Plant Zone" ou "Marble Zone" do Sonic (há boatos que Michael Jackson teria trabalhado nas composições, o que revela o naipe das músicas), ou o "Main Theme" do Mario. E sem contar que algumas coisas do Donkey são sofisticadíssimas, com percussão a la Uakti, como atesta "Mill fever", do Donkey 3 . Embora muita gente detone o video-game, visto como uma ferramenta de controle das criancinhas inocentes, sinto-me, no entanto, mais rico que meu irmão, que tem à sua disposição e ao alcance de seu interesse banalidades como as infindáveis séries de jogos de futebol com narração de Galvão, ou Cléber, ou Prieto, ou com Cristiano Ronaldo na capa, ou Ronaldo, ou Ronaldinho, ou... ou... ou...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Deu na Veja

"As políticas pró-homossexualismo querem, por exemplo, criar uma nova raça e eliminar pessoas." Foi o que a psicolouca Rozângela Alves Justino, aquela que se propõe a "curar" homossexuais arrependidos, disse nas páginas amarelas da Revista Veja With Lasers. "Cho-quei!", como diria aquele personagem gay da novela Caras & Bocas.

sábado, 8 de agosto de 2009

(...)

Todo mundo já viu os gays da barraca Aruba, todo mundo sabe quem é Stephany. E eu ainda não entendi como funciona o Twitter. Pensei em deletar orkut, MSN talvez. Tá aí, os meios de comunicação foram democratizados, mas as mensagens nunca foram tão vazias. Sei que Brecht previu algo do tipo, mas não sei onde. A conferir.