sábado, 17 de novembro de 2012

A apoteose de Tulipa ou Quem tem medo do download?


Na Panela: Tulipa Ruiz - Show Tudo Tanto
Onde: Sec Palladium - Belo Horizonte/MG (16/11/2012)


Quando as cortinas se abriram ontem à noite por volta das 21:15, Tulipa Ruiz foi recebida calorosamente pelo público que lotou o Grande Teatro do Sesc Palladium (importante espaço que arejou a cena cultural de Belo Horizonte desde que foi inaugurado há pouco mais de um ano). Desde os primeiros acordes de "É", a primeira canção do setlist, o jogo já estava ganho pela artista.

Tudo Tanto, o show, é a síntese do que de melhor havia em Efêmera, o elogiado disco lançado em 2010, ou seja, as canções pop redondas e com letras despojadas, somadas à riqueza da sonoridade e às ousadias vocais de Tudo Tanto, o disco de 2012 que selou o contrato de permanência de Tulipa no país das 1001 cantoras. É digno de nota que o show preserve com fidelidade a sonoridade do disco, principalmente pelo mérito de manter  na banda as cordas e sopros. 

Estão lá todas as boas do primeiro disco. "Pedrinho", "Do amor" (acompanhada em coro delicado pelo público), a arrasadora "Só sei dançar com você" e, para afagar o público belorizontino, "As vezes" ("As vezes eu pego uma estrada/E a cada belo horizonte eu diviso o seu rosto"). E estão lá também todas as canções de Tudo Tanto, algumas delas ligeiramente inferiores às do primeiro disco, mas todas vigorosas no palco, embora Tulipa tenha deslizado algumas vezes nos floreios vocais. Tais pecadinhos, porém, foram perdoados. As dissonâncias de "Like this" foram aplaudidas de pé e "Cada voz" deu a pista falsa do fim do show. Foi quando a cantora retornou para cantar "Víbora", num registro visceral. Sem dúvida, o ápice de uma noite memorável. No bis, "Efêmera" e "A ordem das árvores" funcionaram até como um anti-clímax, devolvendo ao show o clima ensolarado e festivo.

O sucesso de Tulipa Ruiz confirma que quem perdeu a guerra, num primeiro momento, contra os discos piratas e, depois, contra os downloads na internet foram as grandes gravadoras e não os artistas, principalmente aqueles que não podem contar com os departamentos de marketing das multinacionais para conseguir um lugar ao sol. Pelo contrário, os novos meios de divulgação, que incluem as redes sociais e o Youtube, são claramente os responsáveis por acontecimentos como os de ontem. O público estará sempre ávido para prestigiar ao vivo aquilo que gosta, tenha ele comprado ou, como eu fiz, baixado o disco gratuitamente no próprio site da artista.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O retorno de Gal Costa


Na Panela: Show Recanto - Gal Costa
Onde: Sesc Palladium - Belo Horizonte/MG (09/08/12)


Gal Costa me parecia uma artista derrotada na última década. Gravou discos dispensáveis, com arranjos conservadores e sem foco na seleção de repertório. Isto quando não se tratava de tributos à compositores canônicos. E nenhuma outra cantora foi tão execrada por isso. 

A origem de tanto desapontamento da crítica e também do público não era a sombra feita pelas colegas que conseguiram se renovar e garimpar novos compositores, como é o caso de Maria Bethânia, mas a sombra feita pela grandeza incomparável da fase áurea da discografia da própria Gal (do final dos anos 60 ao início dos anos 80) e a imagem sensual e tropicalista que ela encarnava naquele período. Ora, se era natural que, com a maturidade, essa imagem se dissipasse, restou a expectativa pela permanência daquilo que estaria por detrás da exuberância física e vocal: a inteligência artística e o faro de intérprete.

Assim, cada disco ruim lançado parecia pôr em dúvida aquele faro e construir, tijolo por tijolo, a tumba daquela que tem na bagagem as obras-primas Fa-tal - A todo vapor (1972), Cantar (1974), e os dois discos de 1969, em especial o psicodélico, para ficarmos apenas nestes quatro exemplos. Em suma, Gal tinha, antes de adentrar numa vibe cafona em meados dos anos 80 e antes de sofrer alterações significativas na voz, um dos repertórios mais bonitos e coesos da MPB.

O projeto do disco Recanto, capitaneado por Caetano Veloso, foi claramente uma cartada para reverter esse jogo, para devolver Gal ao lugar de honra que ela havia perdido e às rodinhas de discussões. A receita: repertório solitariamente composto pelo baiano, formatado pela turminha talentosa que toca em oito entre cada dez discos interessantes feitos no país atualmente e, como não podia deixar de ser, muito hype. Quase todos os textos sobre o disco na época do lançamento apenas reproduziram irritantemente a pretensão artística de Caetano, que era explorar o "cristal" da voz de Gal junto com timbres eletrônicos. Faltou realmente uma análise que enfrentasse essa pretensão, que considero, posta naqueles termos, fracassada. Se ela fosse real, o resultado seria um disco a la Björk, o que não foi o caso. Recanto, apesar disso, é um bom disco de canções, com pelo menos quatro grandes momentos ("Recanto Escuro", "Segunda", "Autotune Autoerótico" e "Menino"), cujo maior mérito é enquadrar a voz de Gal, que continua linda nos tons médios, numa moldura jovial

E foi com esse saldo positivo em mente que fui conferir o show Recanto, na noite de 09/08 no lotado Sesc Palladium em Belo Horizonte/MG. Confesso que eu também a considerava uma artista morta e o disco não havia me convencido completamente da tão propagada ressurreição, apesar de não considerá-lo ruim. Mas, para minha surpresa, há luz no fim do túnel. 

Depois de uma abertura um tanto sem vida com "Da maior importância" (Caetano Veloso), Gal intercalou as melhores músicas do novo disco com pérolas desconhecidas como a belíssima "Mãe" (Caetano Veloso), que está lá no Água Viva (1978, disco em que ela estava no auge da beleza da voz), com canções emblemáticas como "Divino, maravilhoso" (Caetano Veloso/Gilberto Gil), "Folhetim" (Chico Buarque) e "Força estranha" (Caetano Veloso). Até mesmo a brega "Um dia de domingo" (Sullivan/Massadas), onde ela brinca ao imitar Tim Maia, foi incluída no repertório da apresentação

O show tem, portanto, caráter retrospectivo. Gal passa toda a sua trajetória sob o filtro da estética indie dos músicos que a acompanham, com resultados impressionantes. Músicas de Recanto crescem absurdamente no palco, como é o caso de "Recanto Escuro", tensa e melancólica, e "Autotune autoerótico", onde, de forma mais condizente com a letra, nenhum recurso eletrônico interfere no canto. E de todos os arranjos novos para canções antigas, como o suingante arranjo de "Barato Total" (Gilberto Gil), o de "Vapor barato" (Jards Macalé/Wally Salomão) simplesmente arrebata. Sem dúvidas, o ponto alto do show, com direito a solo de guitarra do músico Pedro Baby. No bis, "Modinha para Gabriela" (Dorival Caymmi) é apenas a cereja do bolo.

Recanto, o show, mais que o disco, mostra que Gal ainda está viva. Esperemos então, cautelosos, as cenas do próximo capítulo.

Depois de um filme chato


Na Panela: Depois do Filme (Texto, Direção e Interpretação: Aderbal Freire Filho)
Onde: Teatro Municipal de Ouro Preto/MG - Festival de Inverno/Forum das Artes 2012.


Aberbal Freire Filho é autor e diretor com currículo vasto. Tem experiência com os clássicos e também carrega na bagagem sucessos como As centenárias, com as divas Marieta Severo e Andrea Beltrão. Aos 70 anos e produzindo sem parar, realizar o que quiser no teatro é um direito conquistado, mesmo que o resultado seja insatisfatório. É o caso de Depois do filme.

O monólogo escrito e dirigido por ele resulta insosso não pela falta de qualidade do texto ou, de modo geral, pela proposta da encenação, mas sim pelo seu desempenho medíocre como ator.

Derrubam o espetáculo o despojamento físico e o "carioquês" insuportável que definem a construção da personagem Ulisses,  um chato suicida que vaga pela zona sul do Rio de Janeiro travando diálogos filosofantes  recortados na forma de um roteiro de cinema, além da canastrice na composição de algumas figuras, como é o caso de uma jovem “de belos peitos”. Há cadeiras espalhadas no palco em disposição puramente estética, pois contribuem pouco para dar significado ao que é narrado e, para além delas, o Ulisses que imaginamos ser possível contemplar numa tela de cinema quando ouvimos Aderbal nos sugerir verbalmente cortes, closes e elipses é muito mais interessante. E essa fuga imaginativa que nos afasta do meio material onde a obra se faz – o palco, a luz, o corpo e a fala de Aberbal – me parece ser muito mais própria da literatura do que do teatro. Trata-se de um jogo mal jogado pelo ator. Escapamos porque o que temos diante dos olhos é monótono e não porque ele necessariamente pretendia que escapássemos.

É isso. Eu adoraria ler Depois do filme. Ou ver esse texto plenamente realizado na forma de filme. E isso é péssimo quando lembramos que estamos falando de uma peça de teatro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mariana Aydar: Cantora inteligente, aqui te sigo


Na Panela: Show Mariana Aydar - Cavaleiro Selvagem, Aqui Te Sigo
Onde: Teatro SESC Ginástico - Centro.

Cavaleiro selvagem, aqui te sigo, lançado em outubro, é o disco brasileiro pelo qual passei o ano inteiro esperando. Não, não sou um fã xiita da Mariana Aydar, apesar de acompanhá-la com atenção (e com gosto...) desde que ela apareceu no início da última década junto com uma verdadeira enxurrada de novas cantoras. Ou seja, minha espera não tem nada de pessoal. Apenas fico sempre à espreita daquela obra que, logo na primeira audição, dará o seu recado musical fora da mesmice que assola a tal emepebê. Não, também não sou admirador inveterado de experimentalismos modernosos feitos dentro do velho e bom formato da canção brasileira e que, apesar da pose, não levam a lugar nenhum. Eu gosto mesmo é de quem consegue, por meio do filtro da ousadia sonora, oferecer ainda assim o núcleo duro da canção popular. Não apenas a palavra cantada, mas a palavra deliciosamente cantada. Afinal, "aquela música se não se canta não é popular", como já dizia Haroldo de Campos.

O terceiro e novo disco da Mariana Aydar é um verdadeiro combo musical e atinge, na maioria de suas faixas, o prazer da canção. Mas o mercado ainda não a sancionou, como fez com Roberta Sá, outra cantora surgida na mesma época, e talvez seja isso que permitiu a Mariana se dedicar ao projeto de um disco que, embora artisticamente bem sucedido, não é simples ou fácil.  Por outro lado, se não compartilha da popularidade de Roberta, Mariana tem em comum com ela a exigência básica que se faz a toda intérprete, de toda cantora que não pretende gravar unicamente obra autoral: a inteligência na escolha do repertório, a capacidade de tornar irrevogavelmente seu aquilo que decide gravar. 

Essa é uma tradição sólida da música brasileira (Elis, Gal, Bethânia, Nana, Clara, Beth, Alcione, Simone, Zizi,   Cássia, sem contar as grandes divas da era pré-bossa), diluída a partir do final dos anos 80 com o aparecimento de cantoras-compositoras que, por questões mercadológicas, gravam majoritariamente em seus discos qualquer esboço de canção desde que seja seu e que não são herdeiras da excelência de artistas como Rita Lee e Marina Lima, para ficarmos apenas no terreno do pop. E na atual cena, onde a cada minuto aparece uma nova cantora, acredito que só a inteligência que está por detrás da seleção do repertório, do conceito do disco que reverbera na construção dos arranjos, é o que pode separar o joio do trigo. Cavaleiro selvagem, aqui te sigo mostra de que lado da trincheira Mariana está e retira dela o rótulo insípido e insuportável de "cantora de sambas" que se espalhou feito viral nos últimos anos no Brasil  e que serviu a tanta gente e para os mais diversos objetivos.


Não foi em vão (Thalma de Freitas) é emblemática. A melhor gravação brasileira do ano, talvez. Arranjo excepcional, como não se encontra facilmente por aí, em total simbiose com o canto, para se ouvir bem alto e cantando junto. Na mesma linhagem está Os passionais (Dante Ozzetti/Luiz Tatit), outra canção obscura que vem a luz neste disco. Na outra ponta, temos canções conhecidíssimas na voz de seus intérpretes originais, embora não tenham sido incessantemente regravadas por outros artistas, e que ganham releituras improváveis. É o caso de Vai vadiar (Alcino Correa/Monarco) do Zeca Pagodinho, que ressurge mais soturna e passional, Nine out of ten (Caetano Veloso), uma das melhores do antológico álbum Transa (1972), e, por fim, a mais surpreendente e acachapante de todas as abordagens, Galope rasante (Zé Ramalho). Essa última ganha uma levada pop contagiante e é um dos ápices do disco. A compositora Mariana Aydar também comparece com muita competência em Solitude, parceria com Luisa Maitá (outra boa compositora da cena paulistana) e Jwala. 

Todas estas canções, com exceção de Nine out of ten, foram apresentadas no primeiro show do disco em solo carioca, que foi gravado para o programa Palco MPB, da MPB FM. O show também incluiu músicas como a deliciosa Tá? (Carlos Rennó/Pedro Luis/Roberta Sá), Aqui em casa (Mariana e Duani) e interpretações densas de Zé do Caroço (Leci Brandão), e Peixes (Nenung), o precioso achado do disco anterior, Peixes, Pássaros, Pessoas (2009). No bis, que começou em clima meio improvisado somente ao som de um cavaquinho e depois cresceu com o auxílio da percussão, a canção Florindo (Duani), um dos sambas mais bonitos do Peixes, foi conectada com Minha missão (João Nogueira), que é, por si só, uma verdadeira paulada poética ("Quando eu canto, a morte me percorre").

As ressalvas à apresentação não são estritamente musicais.O único equívoco do roteiro foi a inclusão de Palavras não falam, música da lavra da Mariana que tem letra fraquíssima, apesar do relativo sucesso. Em seu lugar, seria mais eficiente Deixa o verão (Rodrigo Amarante), do primeiro disco. No geral, fica a impressão que a performance da cantora pode ser lapidada por um bom preparador vocal (para uma maior qualidade nos seus graves) e um diretor de palco seria providencial para orientá-la, pois ela se move ao acaso e não raro termina as canções de costas para o público. Além disso, um gestual mais bem construído pode enfatizar as  intenções de suas interpretações.

Mas alguém que tem nas mãos um material musical tão sólido não merece ser condenado por padecer de uma falha que, de Marisa Monte a Vanessa da Mata, de Ana Carolina a Roberta Sá, quase toda cantora brasileira possui. A maioria, com exceção de Maria Rita, Sílvia Machete e Karina Buhr (para ficarmos somente nas relativamente "novatas"), não sabe usar o corpo no palco.

Palmas para Mariana Aydar, que já tem um tesouro do qual poucas intérpretes brasileiras de sua geração podem se gabar: repertório. Quem tem voz e não tem repertório não tem nada. Cantora inteligente, aqui te sigo. E sempre em frente.

***

E as vaias? Vaias para Maria Rita, que lançou um disco preguiçoso chamado Elo

Na capa, a pose sensual contra a luz já entrega o conteúdo. A intérprete que tem a maior voz surgida nos anos 2000 mostra, pelo que se deduz a partir do seu segundo disco, nenhum conhecimento dos baús da música brasileira (tanto a feita hoje quanto a que se fez), tampouco é assessorada por quem o tem (como é o caso de Roberta Sá, orientada pelo marido Pedro Luis). Nas entrevistas, ela disse que a gravadora a pressionou pelo sucessor de Samba meu (2007) e, como já estava na estrada com um show de transição, resolveu gravá-lo. Elo não é, verdadeiramente, um elo em sentido forte. Em termos de repertório, ele recupera o começo da carreira de Maria Rita, mas não faz síntese alguma entre o passado e o presente, pois, em termos de som, reitera a opção por arranjos de piano-baixo-bateria que perseguem invariavelmente um clima jazzy que tanto se identifica aos primeiros discos da cantora quanto a engessa.


Elo é composto por canções que foram preteridas no disco de estreia (2003) ou em Segundo (2005), e acena para alguns sambinhas que sequer roçam o balanço das melhores faixas do disco anterior. Por fim, não aponta para futuro algum. Foram 4 anos de intervalo entre um disco e outro e, apesar disso, Maria Rita parece não ter tido tempo para pesquisas. 

A única coisa que amarra todas as canções agrupadas em Elo é a voz de Maria Rita e o desejo dela de cantá-las. No entanto, Santana (Junio Barreto/Joao Carlos Araujo) não acrescenta nada à gravação da Gal Costa no disco Hoje (2005), assim como Conceição dos Coqueiros (Lula Queiroga/Lulu Oliveira/Alexandre Bicudo) não acrescenta nada à gravação de Elba Ramalho em Qual o assunto que mais lhe interessa (2007). Só um arranjo absurdamente genial poderia tirar A história de Lily Braun (Chico/Edu Lobo) do mar de regravações dessa canção e que também não acrescentaram nenhuma informação nova à gravação da Gal em O grande circo místico (1983). Vide a versão medíocre de Maria Gadu feita recentemente. Já a gravação de Menino do Rio segue de perto o tom lânguido e sensual da versão de Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental (1979). As únicas gravações realmente relevantes do disco e aptas a ser identificadas à Maria Rita e que se incluem no grupo de canções que ela pode, mesmo não sendo compositora, chamar de suas, são a bela Perfeitamente (Francisco Bosco/Fred Martins) e Só de você (Rita Lee).

Aquilo que Cavaleiro selvagem, aqui te sigo tem de sobra, é o que falta a Elo e o faz um álbum sem cara: uma proposta musical consistente. É um disco ruim? Não. Mas também não é relevante. Na era da internet, do youtube, dos downloads, como pode um artista justificar a existência de um disco que não tem o peso de uma obra de carreira? Que não tem conceito? Realmente, somente interesses comerciais da gravadora respondem à pergunta. 

Maria Rita se justificou afirmando que este é um álbum para fã. Não considero o gesto uma demonstração de carinho com o público, pois fã sempre aceita qualquer coisa, inclusive porcarias. E diante de tantas cantoras disputando espaço, pouco custa abandonar quem demora para dizer a que veio.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Jardim: no palácio das memórias


Na Panela: O Jardim [Direção e Texto: Leonardo Moreira; Com: Cia Hiato - Aline Filócomo, Fernanda Stefanski, Luciana Paes, Maria Amélia Farah, Paula Picarelli, Thiago Amaral, Edison Simão]
Onde: Caixa Cultural - Centro.

Em O Jardim, cuja montagem exige um teatro de arena, o público se vê logo incomodado pelo distribuição espacial dos atores e do cenário composto por caixas de papelão, enquanto procura deduzir qual lugar oferecerá o melhor ponto de vista para assistir ao espetáculo. Os últimos a entrar não tardam a lamentar os lugares laterais que lhes sobraram e que aparentemente limitarão o contato visual com a cena, que insinua, estranhamente, uma concepção que privilegiaria aqueles que conseguiram lugares frontais. No entanto, essa impressão é dissipada quando o jogo começa e a ação, apoiada por uma revolução na disposição do cenário (que cria barreiras físicas), é dividida em três, cuja unidade só será recuperada no desfecho.

Ou seja: dependendo do lugar onde você se senta, são três os começos possíveis para o espetáculo e três são as dinâmicas de compreensão do significado das outras duas ações que lhes sucedem. Eu, por exemplo, acompanhei ações sucessivas e lineares no tempo, enquanto os outros dois grupos em que o público é dividido as acompanharam  numa sequência não-linear. 

Diante de tanta riqueza semântica e de uma polifonia literal (ouvimos todas as vozes o tempo todo, embora não consigamos compreender o que se passa para além da cena que transcorre diante de nós), não é licito oferecer uma sinopse fiel do conteúdo de O Jardim. Para falar da memória e do esquecimento, o dramaturgo e diretor Leonardo Moreira criou um mosaico onde três momentos se comunicam: a crise de um homem e uma mulher no fim do casamento (em 1938), a última festa que duas irmãs preparam para o pai que sofre do mal de Alzheimer antes de mandá-lo para um asilo (em 1979), e uma mulher decadente e sua empregada, que gravam um vídeo antes de abandonar a casa onde sua família viveu por décadas, agora invadida por pessoas que reclamam a posse daquela propriedade (2011). Estas três ações lentamente começam a lançar luz uma sobre as outras e, por fim, todas as barreiras espaciais e temporais são rompidas num grande ápice emocional. 

O Jardim faz do tempo o seu tema e precisa, pela forma narrativa ousada, que a memória do espectador esteja constantemente ativa a afim de contribuir para a riqueza da experiência que o espetáculo põe em curso. O resultado é um teatro humanista e comovente, cuja linguagem sofisticada nunca é hermética. Pelo contrário, nos convida a construir, pelo exercício de pensamento, a solução de seu quebra-cabeças. O que resulta deste processo não é a pretensa autonomia da história daquelas personagens em relação à nós, espectadores passivos, mas as nossas versões narrativas particulares que conectam todos aqueles momentos num jogo muitíssimo frutífero. 

Esta é, sem dúvida, uma das melhores peças que passaram pelo Rio de Janeiro neste segundo semestre de 2011. Sensacional!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ato de Comunhão: A história de João (sem Maria)


Na Panela: Ato de Comunhão [Direção e Interpretação: Gilberto Gawronski; Co-Direção: Warley Goulart; Texto: Lauro Vilo; Tradução: Amir Harif]
Onde: Teatro Gláucio Gil - Copacabana.

Em 2002, veio a tona um caso bizarro. O alemão Armin Meiwes, então com 41 anos, havia canibalizado Bern Brandes, 42 anos, um engenheiro que ele havia encontrado por meio de um anúncio na internet. Tudo foi gravado e, o mais surpreendente, com o consentimento de Bern. É este o mote do monólogo Ato de Comunhão, escrito pelo argentino Lauro Vilo: Armin não é Hannibal Lecter.

O texto é estruturado em três momentos da vida de Armin, sendo o último a narrativa do encontro entre os dois homens. Antes, tomamos contato com um episódio da infância do protagonista (sua festa de aniversário de oito anos), onde detalhes de sua relação afetiva com a mãe, dentre outros elementos simbólicos, são revelados. Em seguida, passamos bruscamente para o velório da mãe e a solidão da perda, que abre espaço para a imersão total de Armin no universo do sexo virtual.

Nenhuma destas passagens que antecedem o clímax da peça servem, contudo, a psicologismos baratos ou oferecem justificativas patológicas para o desejo, digamos, estranho de Armin ou, ainda,  pretendem simplesmente absolvê-lo. O texto, organizado na forma de memórias, escapa a estes enquadramentos reducionistas principalmente pelo seu tom seco, metódico. O cenário, composto por alguns objetos que ocupam funções variadas (um espelho, uma cadeira de barbeiro, um notebook) e que interagem com a iluminação, o figurino preto, os vídeos projetados nas paredes, a voz em off do personagem que ora é acompanhada em uníssono por Gilberto Gawronski em cena, ora em descompasso, formam em conjunto uma caixa de ressonância um tanto sombria e intimista da vida daquele homem. Aliás, a interpretação de Gilberto é precisa, contida e passa longe da tentação expressionista que ronda este tipo de personagem. Ele é louco? Ele é lúcido? Estas não parecem ser questões formais decisivas tanto para o intérprete quanto para a montagem em geral e, por isto, a peça se torna mais significativa e reflexiva, sem sair do registro trágico e sem cair na espetacularização do tema. 

Deste modo, a complexidade de Armin é preservada. Um homem aparentemente comum, que viu no canibalismo a possibilidade de satisfazer uma fantasia que o acompanhou durante toda a vida e que encontrou na internet a metade que lhe faltava: Bern, alguém que tinha obsessão em ser comido. Numa entrevista dada já na cadeia, após ser condenado a prisão perpétua, Armin disse que gostava quando a mãe lia a história de João e Maria e que a parte em que a bruxa se prepara para comer João era a mais interessante. E completou, para o entrevistador: "Você não imagina quantos Joãos estão circulando aí pela internet".

Obs.: Os espetáculos da curta temporada no Teatro Glaúcio Gil comportam um público de 30 pessoas apenas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

sem mim: O caleidoscópio do Grupo Corpo


Na Panela: Grupo Corpo - sem mim [Coreografia: Rodrigo Pederneiras; Iluminação e Cenário: Paulo Pederneiras; Figurinos: Freuza Zechmeister]
Onde: Teatro Municipal do Rio de Janeiro

Segundo o dicionário, caleidoscópio é um aparelho óptico formado por um tubo de cartão ou de metal, com pequenos fragmentos de vidro colorido que se refletem em pequenos espelhos inclinados, apresentando, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis. Eu só tinha colocado o olho num desses uma única vez na vida, até perceber que o espetáculo sem mim, do Grupo Corpo, pode, de algum modo, se enquadrar na mesma categoria.

Eu achava que Onqotô (2005), espetáculo que celebrou os 35 anos da companhia, era uma espécie de currículo do Rodrigo Pederneiras, um resumo da sua obra. Na série de coreografias dos anos 90, parecem ser lentos os avanços no vocabulário dos movimentos e a concepção geral dos espetáculos se repete (mesmo com o acabamento de altíssimo nível que deu fama ao Grupo, com cenários e luz de Paulo Pederneiras e figurinos da Freuza Zechmeister), com exceção de Bach (1996, com releituras de obras do compositor alemão feitas pelo Uakti na trilha sonora, cujo tom sublime e religioso contamina a coreografia), espetáculo  bastante conciso que parece romper com a lógica dos antecedentes e que possui alguns dos melhores pas-de-deux criados pelo coreógrafo21 (1991) é um marco e uma espécie de carta de intenções do Grupo Corpo, com trilha do Uakti (Tema em Sete é inesquecível); Nazareth (1993), com trilha do Zé Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth, envelheceu mal; e Sete ou Oito Peças para um Ballet (1994), à reboque da trilha sonora sensacional do Philip Glass interpretada pelo Uakti, é uma espécie de 21 Reloaded, porém melhor e com um dos desfechos mais arrebatadores do repertório. Depois de Bach, a estrutura básica de 21 é retomada em Parabelo (1997), com trilha de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, que explode no final em Xique-Xique, música arrasadora que torna a ovação algo inevitável, embora a coreografia tenha poucos grandes momentos (como em Baião Velho, onde se destaca um solo masculino ótimo). Se a estrutura herdada de 21 pareceu dar sinais de cansaço, nota-se, contudo, que os movimentos tornaram-se mais complexos e mais expansivos. Benguelê (1998), que possui talvez a melhor trilha sonora daquela década, composta por João Bosco, abre um leque mais variado de dinâmicas e aparecem regiões antes não exploradas por Pederneiras, como é o caso das brincadeiras com a gravidade tanto nos troncos torcidos dos bailarinos em direção ao chão quanto nos braços soltos e ondulantes. Além disso, o espetáculo tem climas variados, ao contrário do tom uniforme de Parabelo. O saldo, no final das contas, é evidentemente positivo: que outra companhia de dança brasileira pôs no bolso no mínimo 3 grandes obras durante a década?


O Corpo (2000) é um divisor de águas, não apenas porque inicia uma nova etapa e tenta se desvincular do tom regionalista e “brasileiro” dos espetáculos anteriores, mas porque é o um dos mais redundantes do Grupo. A trilha de Arnaldo Antunes é boa, urbana, diferente das outras, mas pesa. E Rodrigo construiu o balé com um naipe restrito de movimentos, alguns isoladamente interessantes, mas que soam repetitivos ao longo dos seus pouco mais de 40 min. Nem a concepção visual geral surpreende aqui.

Eis que então começa uma espécie de revolução. De 2002 pra cá, ano de Santagustin, com trilha de Tom Zé e Gilberto Assis, a linguagem coreográfica e o estilo de Rodrigo Pederneiras atingiram uma dimensão, digamos, autofágica assustadora. Em Lecuona (2004), ele provou (o que já sabíamos desde Bach) ser mestre da composição de pas-de-deux. E em Onqotô (2005), com trilha de Wisnik novamente e Caetano Veloso, fez um resumo da sua obra e deu um passo adiante. Foi nesse ponto que começamos.

Eu disse que achava que Onqotô era uma espécie de resumo da obra de Pederneiras, porque é uma obra madura, que reúne as características do estilo que ele carrega desde 21 (movimentos centrados nos quadris, a maneira como ele agrupa os bailarinos etc.) por meio de uma espécie de reciclagem das outras coreografias, mas algo que não sei explicar mudou. Não é mais repetição. É aquilo que já vimos sendo recombinado, reprocessado, aparecendo, enfim, como algo novo. Não é picaretagem não, é um modo de fazer dança. Tanto que no meio desses procedimentos está Mortal loucura (dois casais em dinâmicas sexuais no chão, algo nunca visto antes em seus trabalhos), um dos ápices da criatividade do Rodrigo.

Eu disse que achava, mas não é só Onqotô, hoje, que pode ocupar essa posição. Porque depois dele veio Breu (2007), com uma trilha acachapante e “escura” do Lenine, mote para o espetáculo mais denso da companhia, radicalizando os procedimentos do espetáculo anterior. Se este  resumia tudo e ainda explorava o chão, então Breu resumia tudo, explorava o chão de maneira mais expressiva, torcia e contorcia a lógica dos pas-de-deux criados anteriormente e, ainda por cima, dava um passo adiante mostrando que o Grupo Corpo não vivia somente da reprodução do passado. Uma obra obra-prima.

Em Ímã (2009), com trilha completamente instrumental de Domenico, Moreno Veloso e Kassin (deliciosa, por sinal), Rodrigo Pederneiras resumiu tudo, explorou construções de pas-de-deux no chão e dinâmicas aéreas curiosas, propôs vários solos e, como se não bastasse, tudo isto debaixo de uma luz impressionante, tátil, volumétrica, onde seus bailarinos se moviam como partículas livres sem compromisso algum com narrativas, num jogo de cores de tirar o fôlego.

Todo esse blablabla é pra dizer que eu estava pessimista em relação à sem mim. Reparei que a trilha demorou pra ficar pronta e matérias lacônicas foram publicadas nos jornais em julho, onde Paulo Pederneiras parecia ainda não ter finalizado o processo de criação do cenário. Quando o espetáculo finalmente estreou em São Paulo, Helena Katz, uma das poucas críticas de dança que prestam, teceu mil elogios à sua concepção visual geral e, em relação à coreografia, disse que o Rodrigo tinha sido bem sucedido ao propor movimentos ondulados a partir dos pés dos bailarinos e que ele havia aproveitado trechos inteiros de outros balés, num procedimento de criação que merecia atenção. Ora, deduzi logo: Rodrigo não teve tempo para criar e fez uma colagem.

Que tolo eu sou.

Sob o som de uma trilha mestiça, delicada, ora empolgante, ora introspectiva (de Carlos Nuñez e Wisnik a partir de cantigas de Martin Codax, do século XIII), o que se revela desde o instante em que o tecido que compõe o cenário é erguido para dar passagem aos bailarinos (momento tão belo e tão simples) é um dos melhores espetáculos do Grupo Corpo. sem mim equilibra perfeitamente a pura felicidade dos requebrados com o corpo tenso da bailarina solitária. E são 20 anos que se fazem presentes no palco. Há referências coreográficas claras, por exemplo, de Benguelê (os saltinhos de “marionete”), 21, Parabelo, O Corpo. A fluidez que acompanha os solos de Mariana do Rosário, por exemplo, já estavam em Onqotô e reapareceu em Ímã. Um trecho inteiro de Bach foi utilizado, sugerido pela própria trilha (que se apropria do Prelúdio da Suite I para cello, em ritmo contagiante) e até mesmo Seis Instantes de Solidão, solo de Jacqueline Gimenes coreografado pelo Rodrigo, nitidamente se faz presente no solo de Cassilene Abranches e na dinâmica que antecede o belíssimo pas-de-deux dançado debaixo do tecido do cenário. Mas o que surpreende mesmo é que todas as dinâmicas de grupo da coreografia são complexas (e também complexificadas pelas informações que os figurinos acrescentam), quando percebemos os padrões, eles já mudaram, num jogo incessante. Se em Ímã alguns bailarinos tinham mais espaço que outros, em sem mim todos brilham. É como se tudo o que foi criado até então por essa equipe excepcional tivesse sido fragmentado e inserido no aparelho ótico do palco, apresentando, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis

Genial.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Adultério: não é crime, mas tem o seu preço


Na Panela: Adultério [Direção: Daniel Herz; Texto e Interpretação: Cia Atores de Laura - Ana Paula Secco, Anderson Mello, Leandro Castilho, Márcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis]
Onde: Teatro Leblon - Sala Fernanda Montenegro.

Segundo o depoimento dos integrantes da Cia. Atores de Laura (http://www.atoresdelaura.com.br), criada em 1992, o objetivo da companhia é pensar o ator como força principal do jogo cênico, base onde se assentam posteriormente os trabalhos da direção, da cenografia etc. Adultério, espetáculo que encerra sua temporada nos próximos dias, é um fruto inteligente desta proposta de criação coletiva.

São duas as suas linhas de força: (1) o tema do adultério, que se desdobra nas suas mais variadas faces (dos dilemas matrimoniais inevitáveis, tanto dos casais heterossexuais quanto gays, até personagens que escapam do controle do autor traído) por meio de (2) uma narrativa fragmentada, onde um episódio desgarra-se do outro continuamente, num jogo ininterrupto onde a estrutura ficcional do que está sendo representado acaba sempre por ficar à mostra. 

Essas "realidades" que se descolam uma da outra ou se sobrepõem nos diversos planos do palco ecoam a inspiração básica do texto em Pirandello, que aparece ora enquanto questão metafísica subjacente à cena (o que é ilusório e o que não é?), ora enquanto citação da obra mais famosa do dramaturgo italiano, Seis personagens à procura de um autor, no modo como alguns personagens se tornam autônomos e enxergam a si próprios como potências ativadas indefinidamente pela imaginação do espectador.

Parece tudo muito complexo, mas não é, embora a mulher que estava sentada ao meu lado com uma bolsa Vuitton tenha dito ao marido que não estava entendendo nada ... É um espetáculo muito bem humorado, com elenco afinado e equilibrado, cujo êxito, mesmo considerando que o processo criativo tenha se concentrado no trabalho do ator e na valorização da coletividade, também depende em larga escala do ótimo trabalho de direção que alinhavou tudo isso. A absurdamente bem marcada sequência final do espetáculo, que consegue a proeza de rebobinar em  alguns minutinhos tudo que vimos desde o início, é sensacional.

Saldo: Adultério é de uma promiscuidade teatral saborosíssima.